26.8.13

Pandora



Tens noção que estas a abrir uma caixa de Pandora.

Não faço planos.

Nãos fazes planos, como é que eu fico no meio disto tudo. Estou demasiado vulnerável.

Estou a aproveitar-me de ti não é. 

Não me arrastes para os teus problemas, não quero confusões, nem quero magoar ninguém, não é justo.

Pois é, mas podemos ser amigos na mesma, não podemos.

Não sei. As caixas de Pandora são perigosas, mesmo quando se mantêm fechadas...

Quero essa caixa, mesmo fechada, quero-a, quero correr o risco... Só temos esta vida, não há mais nenhuma para vivermos.

Talvez, mas podemos viver muitas vidas nesta mesma. Não temos escolha se não escolhermos abrir ou deixa-lá fechada.

Então quero abri-la. 



Six word story

Tempestade, alto mar, perdido. Coração apaixonado.

25.8.13

São loucas




Quero-te ver.

Não. Não é justo.

Mas eu sinto tanto a tua falta.

Não. Não podes voltar a ver-me. Já te foste. Quando partiste na caravela, as velhas da praia disseram que não voltavas, e eu dessa vez acreditei. Depois de tantas partidas, acreditei que não voltarias, já não as chamei de loucas. 

Então vamos.

Não vamos. Como podes voltar agora ao fim de tantos anos, eu continuei com a minha vida, e tu agora tens de continuar com a tua, volta para a tua família, não voltes para mim. Sim, eu sei que tens familia, em outro porto, em outro mar. As velhas sabiam, elas diziam-me para não te esperar.

Menina, os marinheiros têm sempre outras vidas, e outros mares, não se deixam ancorar. Mas eu não queria acreditar e dizia-lhes que eram loucas.

Mas agora sei, a louca era eu...

24.8.13

Vamos à Bruxa




Já se vê a obra prima a ganhar forma, o trabalho árduo se mantém firme. E tu, desesperado continuas, escravo, a trabalhar contínuamente para que essa prima obra, se conclua.

Para trás e para a frente, para a frente e para trás.

Oh filha, olha que é um trabalho duro, e ele fa-lo bem. O pobre coitado não pára.

Pois não, mas não seria má ideia pedir um trabalhinho á bruxa Constantina, ela ajudava a terminar isto de uma vez por todas.

Sim, pois é, vamos marcar uma consulta com ela, que de certeza que ela arrnja já já uma solução.

Vamos, eu vou ligar-lhe e marco. Vamos à bruxa.

Sim, vamos à bruxa Constantina.

21.8.13

Não as quero




Há dias que não aguento, e preciso de te ver.
Mesmo que apenas nos oceanos das minhas lembranças.

17.8.13

O medo




Sabes que o medo das sombras te pode matar. Sim, pode. O medo das sombras e o medo do medo. Não há nada que mate com mais força que o medo, do medo.

E tu deixas-te ir nessa negrura, espelhando nos teus olhos o desespero de quem não sabe muito bem por onde vai, que apenas segue por onde te apontam que tens de ir.

E fazes, fazes para que te sintas vivo, para que sintas que é nesta vida que estás, para que não sejas o morto andante que és, para que não te sintas sujo e pesado como tens sido.

E a inveja, oh menino, então a inveja é das piores coisinhas. Uma pessoa sai à rua e já não sabe se volta para casa com um carregamento de inveja, ou de mau olhado, sim que esse às vezes também carrega forte, mas queima-se um bocadinho de olho gordo e a coisa fica limpinha.

Pois, pois é, ninguém te entende não é, e pensas que és doido varrido, tu próprio já não te acreditas, já nem sabes se isto tudo não será um sonho, apenas isso.

Está mais para pesadelo que para sonho, pensas tu tantas e tantas vezes antes de fechares os olhos para dormir. Dormir, coisa que já não sabes muito bem se realmente é possível de acontecer outra vez na tua vida.

E pedes, desesperadamente pedes, Que os meus olhos se fechem e não se abram mais, que esta loucura termine agora, neste instante.

Mas não termina, e voltas a mais um dia, fantoche nas mãos das bruxas, desvairadas bruxas que te usam como aparelho de operação em campo, e continuas, sempre assim, marioneta nas mãos delas, as bruxas.

15.8.13

Vidas



Ja vivi tantas vidas, de quantas e todas contidas numa só. E é nesta, é sempre nesta que te encontro, que te vou encontrar de novo. É nesta que o amor não morre, que nunca morre.

Ja vivemos tantas vidas, e no entanto todas elas contidas só em nós. Isto. É isto que temos, é o que somos, é o que nos faz, e chega-nos, somos bons assim, fazemos bem assim.

Passam-se todas, todas elas, as vidas, se passam. E nós acabamos sempre ancorados no mesmo porto. Partimos e vamos mundo fora, mas no regresso, somos sempre o abrigo um do outro, 'no matter what', e a eternidade é nossa.

14.8.13

Não me sais




Não me sais. Por mais que tente, por mais que me esforce, não há modo de te tirar.

Na minha cabeça imagens, momentos, que não quero lembrar, mas que não quero esquecer.

Não me sais, não me sais, não me sais... E estes dias passam espessos, pesados na falta que me fazes, neste peito apertado que ficou.

E agora, que faço eu agora, como mastigo esta saudade, como faço para respirar limpo, como faço, como saio de dentro dos teus olhos.

E agora, como consigo voltar a mim, normalizar esta batida, está nas tuas mãos, sim, foste-te e levaste o meu coração nas tuas mãos...



Repetições




Sabes que a natureza do luar me traz a calma desenfreada das madrugadas ardentes. Aquelas em que sempre te encontro, do outro lado da janela.

Gosto de te olhar assim debruçada no parapeito, como quem vê quem passa. Só que não passa, nada passa a esta hora, e em qualquer hora de todas as madrugadas que conheceste.

Mas gosto de te ver assim, já te disse não já, pois já, gosto de me repetir, de te repetir mais precisamente, com esse ar de quem não quer saber de nada, de quem se está nas tintas.

E aprecio-te. Deste lado que ninguém me vê, sou invizivel para ti, e gosto de o ser assim, porque gosto de ti assim.

Eu sei, eu sei, já me estou a repetir outra vez, mas gosto, cada vez que repito é como cada vez que me venho, até ao encontro dessa mulher descontraída, que todas as noites aparece naquela janela, sob a madrugada, sob o luar.





8.8.13

Apenas isso



Contigo foi sempre apenas isso, sexo. Puro e duro, carnal, animal.
Quando nos apetece, sempre que estamos para aí virados, eu vou-te buscar, àquele lugar de sempre, onde me esperas perfumada e de sorriso no rosto, com esse batom vermelho ardente, com aquela mini saia que me deixa louco só de me lembrar.
Abres a porta do carro com a naturalidade que sempre te acompanha e dizes, Vamos.
E vamos, eu ansioso por te ter, tu naturalmente calma, com aquele sorriso malandro, entre o fumo de um cigarro que acendes enquanto me olhas de lado com um ar provocante.
No quarto tu olhas-me em silencio, enquanto te desejo mais e mais a cada segundo que passa.
É então que dizes, Fode-me.
E apenas isso nos basta. Naquele instante nada mais existe, somos apenas dois animais, embriagados de prazer, até não haver mais gota de suor, até não haver mais fôlego que respirar.
Duas bestas, numa sintonia bruta desenfreada, até não haver mais, nada mais.
Silêncio.

E apenas isso nos basta.

Vazio






Depois de ti não veio ninguém. Ficou ninguém. Tornei-me ninguém. Ficou nada. 

Depois de ti ficou o vazio, tudo ficou vazio. As minhas mãos estão vazias de ti, desesperadas. Os meus olhos ficaram vazios da tua presença.

Depois de ti tudo é nada. Depois de nós já não existo eu.

Todos os dias te procuro quando fecho os meus olhos. Todas as manhãs as minhas mãos te procuram incansáveis.

Não há nada que me atormente senão esta ausência de ti, este nada de nós. Sou vazio. Fiquei vazio depois do depois.

Depois de ti não vivo, sou apenas um homem, um homem igual a todos os homens, sou apenas um. Só.

7.8.13

Sonha-me




Sonha-me. Sonha-me como sonhas todos os sonhos dentro de ti, e leva-me para lá, e deixa-me presa nessa teia de mimar.

Sonha-me, sonha-me como se o amanhã nunca existisse, como se o ontem tivesse sido apenas uma miragem. Leva-me para lá e prende-me nessas cores.

Sonha-me, sonha-me como se sonha o amor, como se fosse ele a única e última alternativa, como se não se pudesse escolher a não ser o amor. Leva-me para lá e embala-me nessa luz.

Sonha-me como se sonham todos os sonhos de esperança, como se todos eles fossem realidade, sempre.

Sonha-me e leva-me, arrasta-me para dentro desse mundo e faz-me lá ficar.

6.8.13

Um final



Uma história de amor nunca acaba.

Todas as histórias acabam, todas elas têm um fim.

Não, uma verdadeira história, de um verdadeiro amor, nunca termina.

Não pode, todas as histórias têm um final, pode ser feliz, mas é sempre um final.


Mas todos os fins são um começo, pode ser um começo feliz, se todos os finais felizes são um começo, então as histórias de amor nunca acabam, porque (re)começam no preciso instante em que se tornam finais felizes.

Felizes para não sempre





Felizes sim, já fomos, talvez em outra vida, esta não foi. Estes momentos, foram apenas as memórias de todas as felicidades que vivemos.

Felizes sim, já fomos, em outras paragens, outros espaços, em outros tempos, com outros corpos, há mil anos atrás.

Será que já fomos isto antes de agora. E tu respondias que não, que tínhamos de ter sido muito mais que isto, tinha de ter sido muito mais que isto.

Sim, fomos, eu sei que fomos, as nossas almas reconheceram-se muito antes de termos tido a consciência disso, os nossos corpos reagiram sem que nos dessemos conta.

Mas não seremos felizes mais do que já fomos. Não vamos voltar ao lugar onde vivemos há mil anos, onde tudo ficou ancorado, que agora é vazio de nós, e não será mais cheio do que tivemos.

E no teu leito de morte, naquele dia desesperado, mergulhado nos meus olhos me disseste, Felizes para não sempre, é o que seremos até nos voltarmos a encontrar.


30.7.13

Privilégios




E agora. O que é que eu faço com isto. Como é que eu sinto isto.


Então, sentes.


Mas como é que eu sinto isto.


Sentindo, como se sentem os outros sentimentos. Só que sentir amor é algo muito mais intenso, é isso, amor é mais intenso mais profundo que qualquer outro sentimento.


Mas eu não sei se isto é amor. O que eu sinto não é amor, é algo maior que isso, não é deste mundo.


Oh, não sejas tonta, como é que pode ser de outro mundo, se o sentes é deste mundo.


Não, não é. Se fosse deste mundo eu saberia sentir, mas eu não sei. Controla-me, faz-me fazer o que não posso, faz-me querer o que não quero, faz-me ser imprudente, impulsiva, incompreendida, parece que tem vontade própria.


Estás apaixonada, os apaixonados fazem isso tudo, e estar apaixonado significa sentir amor, e tu estás a senti-lo de uma forma tão intensa que te parece que é exterior a ti, mas é muito mais interno, muito mais teu, muito mais sentido do que imaginas.


Talvez. Mas o que é que eu faço com isto.


Sente. Saboreia. Aproveita essa dádiva. Deixa arder enquanto existir. Deixa acontecer. Se a fogueira apagar, vais pelo menos poder saber como é. Muitos passam uma vida inteira apenas a imaginar, e tu tens o privilégio de o estar a sentir, então não penses, sente, sente, sente.


É. Vou sentir. Sim, privilegiada, talvez. Vou sentir. É isso, sentir só. Deixar que aconteça.


Isso, deixa acontecer e sente. É simples.


Sim. Acontecer. Sentir. Simples.

Chuva




Ele abraçou-a, ela gelou, não conseguia controlar a respiração, quase entrou em pânico, as pernas tremiam, o coração explodiu de palpitação, mas deixou-se ficar naquele abraço, sabia tão bem estar nos braços dele.

Pela primeira vez sentiu-se nele, toda ela nele, no seu quente, encaixada no seu abraço.

Ele olhou-a nos olhos, com os dedos puxou uma madeixa de cabelo para o lado, aproximaram-se os rostos... sentiram a respiração um do outro.

Abraçaram-se ainda com mais força, como se aquele abraço fosse o beijo mais sentido que  alguma vez poderiam dar.


Chovia, e ficaram debaixo do guarda chuva por momentos, como se o tudo tivesse parado até ao próximo movimento.

Em redor as pessoas continuavam a passar apressadas, mas o tempo tinha deixado de existir, e por breves instantes a eternidade permaneceu ali.

No início era o verbo





Aqueles olhos, aqueles olhos que já os vira antes. Daqueles olhos que não se esquece, não se esquece não. Perfurantes. Aquele olhar felino. Aquelas duas esferas ardentes. Já os tinha visto, tinha a certeza.


Aquela voz, aquele timbre, fazia-a estremecer por dentro... como se a vibração daquele som fosse ao fundo da sua alma, bem lá no fundo.


Ela olhava-o como se ele não fosse deste mundo, e ele por muito que tentasse disfarçar não conseguia ficar indiferente àqueles olhos.


Ganhou coragem e arrancou na sua investida, Bom, pelo menos será um começo, pensou.


Ela pressentiu-o aproximar-se, o seu coração arrancou numa demanda desenfreada, se tivesse por onde saltar e correr como um cavalo enfurecido, era precisamente isso que tinha feito. Mas nem cavalo, nem por onde saltar. Sentiu a temperatura do seu corpo subir, Devo estar vermelha que nem um pimento, bolas, e ele continua na minha direcção, ok, nada de paniquices, é só um olá, só precisas de dizer olá.


Agora já começaste, tens de ir até ao fim. Já se sentia a tremer, Acalma-te, vá, é só um olá, só precisas de dizer olá.


Olá.

Olá.

29.7.13

Âncoras




Ah, que alívio. Sabe tão bem. Sim, já consigo respirar fundo outra vez.
Abraçam-se, deixam-se ficar por segundos naquela fusão, alheios ao que está ao largo.

É o respirar fundo, aquele respirar que os salva do afogamento eminente. É aquela ancora que os mantém à tona. Naquele momento nada mais existe, pára o tempo e o espaço não é mais do que eles, abraçados.

Senti tanto a tua falta. Eu também. Parecia que nunca mais te ia ver, sentir, tinha a sensação que tinha sido a última vez. É sempre, é sempre igual, cada despedida de ti é como se fosse a última, e fica esta agonia, esta falta de ar. Mas agora posso abraçar-te e respirar fundo. Ah que alívio. Sim, um alívio sempre que te abraço e respiro fundo novamente. Aquele aperto constante desaparece. Sinto-me completo.

Abraça-me para sempre. Abraço. Não me largues mais. Não largo, vou estar sempre aqui. Não vou deixar que não estejas, estamos ancorados um no outro. Sim, estamos, a minha âncora será tua. O meu barco será o teu porto de abrigo.

Não iremos naufragar. Não. Vamos continuar a navegar assim, abraçados. Sim, abraçados. Para sempre. Para sempre.



E aquele abraço durou toda a eternidade.

28.7.13







"Quando se ama, amar é a única certeza.


E depois o orgasmo pacifica, acalma, 

e o coração acelera mesmo que acalme, e os olhos abrem-se mesmo que fechem.



- Não sei de que gosto mais: se do durante se do depois.


Quando se ama, todos os antes e os depois são durante."





"In Sexus Veritas", de Pedro Chagas Freitas

27.7.13

Desconhecidos




Ainda te sinto por baixo dos meus lençóis de carne, ainda te sinto a respirares-te assim intensamente. Vamos ser para sempre. Mas para sempre parece-me tão pouco. Mas seremos eternos, mesmo que tudo isto não passe de apenas uma memória.

Eu vou lá estar, eu quero lá estar quando precisares de mim. E eu quero que estejas.

Sim, estarias se não tivesses partido. Mas incrivelmente ainda te sinto, por de baixo de todas as minhas camadas, dentro dos meus ossos. Respiras-me, trespassas-me com esse olhar.

Lembras-te de quando não nos tocávamos. Sim, não passavamos de dois estranhos com vontade de se conhecerem. E depois tudo mudou. Pois mudou. Tu abraçaste-me, encostaste o teu peito ao meu, e tudo mudou. Sim, o teu cheiro entranhou-se em mim, o teu cheiro fica sabes. E eu mergulhei nos teus olhos, e desde esse instante que não te conheço senão assim, mergulhada em ti, contigo nessa forma que só eu sei, dentro dessa aura que só eu vejo.

Também te sinto sabes, não há um único dia que não me recorde desses olhos perfurantes, dessa luz com que ficavas. Adormeço contigo na cabeça, e acordo com o teu cheiro por todo o meu corpo.



Ficamos assim então. Sim, ficamos. Ficamos como sempre fomos. Como sempre fomos. Sim, dois desconhecidos que se conheceram demasiado bem.