30.9.13

Psycho Killer



Não te sobra nada, se não apenas tocares no seu corpo, ali deitado à tua espera. E no entanto não te mexes, ficas preso a essas asas que não voam, não te moves.

Não te resta mais nada a não ser observares o sangue que ensopa os lençóis. E no entanto tentas vesti-los, para te sentires na tua pele.

Não te resta nada, absolutamente mais nada. Nem os pedaços de carne que tocas horrorizado, e no entanto, com um estranho sentimento de satisfação.

Então é isto a morte, pensas tu. Então é assim que se fica depois de abandonarmos o nosso corpo. Carne, apenas carne, ensopada em sangue, carne, embrulhando ossos, partidos.

E que bem que te soube parti-los, parecia que estavas no jardim de diversões, nunca antes sentiste este prazer, nunca, antes eras apenas tu.

Mas agora, não resta mais nada a não seres mais do que apenas tu, és aquele que agora observas, de mãos envoltas num tom castanho avermelhado.

E ficas-te, apenas. Fascinado com o ser em que te tornaste.

Sei


sei que tudo em mim já foste
sei de que tudo em mim ficaste

 Já não sei mais que nada
reduzido tudo a nada

 sei que paramos o tempo
e que ficamos eternos
sei que ainda te tenho
mergulhado nos meus olhos

 este laço que estica
ainda cá está, ficou nó cego
e cego será

 até ao dia em que se fecharem os olhos
nesse dia deixará
e voltará a ver como nunca
o laço desfazer-se-á

nada mais permanecerá

28.9.13

There's something in the way she moves



Há de haver alguma coisa aí, tem de haver. Como é que me podes prender assim. Não me conheces, não te conheço e no entanto já me tens.

Tens-me porque te penso, dou comigo a lembrar-me de ti, do teu sorriso, da forma como me olhas, das palavras que já me disseste. Das conversas, das memórias que partilhamos, sim, não foram muitas, mas suficientes para me prenderes nesta ansiedade de te querer ver mais e mais.

Dou comigo a pensar-te, na vontade que estejas também tu a pensar-me, do mesmo modo. Dou comigo a sonhar-te, na esperança que a minha presença se faça sentir nos teus sonhos.

Não é nada de mais sabes, fascinas-me. É isso, fascinas-me. E nesta fascinação vais-me conquistando, enquanto procuro perceber porque é que me fascinas.

Mas sabes, o melhor de tudo é não saber porquê, é esta ansiedade, é este friozinho na barriga, o melhor de tudo é que me fascinas.

É isso, fascinas-me.




Duas palavras



Ela tremia, as lágrimas caíam como a água sai da torneira e Xavier estava aflito, nunca tinha visto a sua amiga naquele estado.

Depois do acidente ela tinha ficado com amnésia, já se tinha passado tanto tempo desde aquele dia, que as esperanças que ele tinha que ela se lembrasse do que acontecera tinham quase desaparecido.

Ele chorava com ela enquanto a tentava confortar. Ela só tinha dito duas palavras, duas palavras que o deixaram de garganta apertada, e de lágrimas no rosto, não conseguia imaginar a força de um sofrimento daquela dimensão.

Duas palavras, duas palavras que fizeram crescer nele um sentimento que nunca tinha experimentado antes, nem sabia muito bem o que estava a sentir, e ainda só tinha ouvido duas palavras.

Pobre coitada, pensava ele enquanto enchia um copo de água quase meio cheio de açúcar, Depois de tudo o que passou na vida, só me faltava mais esta. Eda, bebe a água querida, vai-te fazer bem, vai-te ajudar a acalmar.

Oh Xavier, como é que não me lembrei disto antes...

Vá lá, tem calma, é normal que não te lembrasses, tiveste um acidente, bateste com a cabeça, é normal que tenhas perdido a memória de alguns acontecimentos, principalmente acontecimentos antes do acidente...

Fui violada. Fui violada Xavier...

Aquelas palavras ecoaram por toda a casa como se fossem gás Sarin.

27.9.13

Eu arrisco, e tu?



Surpreendentemente encontro um caminho diferente de todos os outros, procuro entender o porquê deste me surgir assim, mas é difícil, prefiro então não entender mas procurar segui-lo da melhor forma, já que se mostra uma melhor alternativa a este onde caminho cansada de tudo e de todos.

Seguro nas mãos todos os meus medos, são escorregadios, teimam em escapar-se ao controlo dos meus dedos a todo momento, seguro-os com firmesa, e apesar da força com que se tentam libertar eu controlo-os.

Tenho na palma das mãos as esperanças de que este se torne numa melhor caminhada, 'Tu tens a força em ti!', sim, eu sei, tenho essa força tão valiosa, essa que me empurra para frente, tenho um pedacinho de luz, luz que me ilumina cada passo, que me mostra cada esquina da vida.

Posso não ir por ali, porque não manter-me neste caminho, que apesar de me deixar cansada é completamente previsível, aparentemente normal, igual a muitos outros. Sim, precisamente por ser previsível, precisamente por ser igual a todos os outros, é uma história da qual já quase que adivinho o seu desfecho, e não é isso que quero sentir.

Eu quero viver intensamente, não na calma de águas paradas, o mar é belo pelas suas ondas e tempestades, e eu preciso de senti-las, por isso escolho este caminho. Este do qual não adivinho nem metade do desfecho, do qual não sei se chego ao fim, mas este que me fará sentir na pele todos os segundos, todos os sentimentos, este que me fará sentir o valor da vida, e que realmente vale a pena viver por amor, este que me obrigará a ser lutadora, a procurar a sabedoria das horas, das batalhas, este que me fará uma guerreira, guerreira da paz, guerreira do amor, este que me fará auxiliadora dos mais fracos, que me mostrará o verdadeiro sentido da vida.

Qual caminho poderia eu seguir se não este. Ficar acomodada ao que tenho e não enriquecer o espírito por medo, por cobardia, não. Isso não. A evolução faz parte de nós, e eu quero evoluir, quero arriscar, mesmo com medo de poder cair, eu sei que tenho uma mão estendida para me voltar a levantar... Eu sei que tenho sempre uma companhia para me sustentar nas horas de maior dor, nas horas de maior dificuldade...

E tu, vais-te deixar ficar acomodado ou vais lutar pelo teu sonho, por aquilo que te faz sentir vivo.

Eu arrisco, e tu?

26.9.13

Tens o meu coração nas tuas mãos

Espera



Disseste que vinhas, disseste que vinhas e eu esperei. Esperei até deixar de sentir o meu corpo, até sentir apenas esta tua espera, desesperada espera, angustiada espera, que me dói como que se morresses a cada segundo que te continuo a esperar.

Na porta não soam as tuas mãos lá a bater, na campaínha não toca a tua chegada. E eu espero, continuo à tua espera até não ser nada, até me transformar em pó.

Não sou nada, nem ninguém me falará, até que tu chegues e termines com esta tortura de te esperar.

Cada segundo que toca, é um segundo mais apertado para o meu peito, é menos um segundo de respiração profunda, que sem ela, a respiração, não sou nada.

Ou seja, não sou nada sem te poder respirar.

E esta espera mata-me, e eu ficarei à tua espera até que o tempo acabe, e se canse de me esperar que me canse desta tua não vinda.

Morrerei quando esse tempo acabar, e não houver mais horas, não houver mais nada que me sustente, e que me diga que afinal não vais voltar.

Six Word Story


Desire, desire, desire. Bodies, bed, explosion.

25.9.13

Memórias



"Cuida bem de ti e da tua vida, não olhes para trás, e nunca te arrependas de nada."

A cara já estava inundada há muito tempo, mesmo antes de ter aberto novamente aquela carta, ela já chorava deseperada, era a terceira vez que lia aquelas palavras, e de cada vez que os seus olhos a percorriam era como se ela estivesse ao lado dela a falar-lhe.

Como é que me pôde escapar, as irmãs esconderam-me mas eu sabia de tudo, como é que me pôde escapar...

Não se conseguia conter, as imagens do que tinha acontecido vinham à sua mente vezes sem conta, e ela soluçava...

trrrr.....trrrrrr.... a campainha da porta tocou. Eda limpou o rosto o melhor que conseguiu, olhou no espelho e torceu o nariz ao ver os olhos inchados do outro lado, colocou uns óculos de sol para disfarçar, desceu as escadas. 

Xavier.

Olá querida. Eda! Fofa, não me digas que te esqueceste de mim, pelo aspeto das tuas roupas parece que não vamos fazer nada mesmo, não é sua preguiçosa.

Eda esboçou um sorriso meio forçado.

Entra Xavier, hoje não estou com disposição, preciso de te contar umas coisas.

Olha lá, só agora é que reparei, se não vamos sair para que é que são esses óculos de sol.

Ela tirou os oculos e no mesmo instante ouviu-se um gritinho de horror.

Valha-me deus mulher, o que é que aconteceu para estares com esses olhos inchados dessa maneira. Quem foi o estúpido. Diz-me que eu parto-lhe as trombas.

Não é nada disso. Até preferia que fosse... tenho muitas coisas para te contar Xavier...

Ai, estás a deixar-me nervoso. O que é que se passa.

Vamos subir, preciso de desabafar. Já ficas a saber.

Claro querida, conta-me tudo. Já sabes que estou aqui do teu lado para o que der e vier.

Subiram as escadas, foram para o sofá da sala. O sol batia pela janela e reflectia-se por toda a divisão, deixando um tom dourado no ar, ficava tudo com um ar ainda mais confortável.

Senta-te, vou só buscar uma coisa.

Quando voltou trazia um papel na mão, era a carta. Sentou-se a tremer, tremia porque ia falar pela primeira vez sobre tudo o que tinha acontecido.

Ai, vá lá filha, abre essa matraca, estás a deixar-me morto de curiosidade para saber o que é que se passa.

Os olhos de Eda, voltaram a marejar.

Oh Eda, respira fundo querida, temos muito tempo, desculpa, começas quando estiveres preparada.

Ela respirou fundo enquanto pensava, Tenho de falar, tenho de deitar isto tudo para fora.

Xavier.

Sim.

Eu lembrei-me. De tudo.

Sentir



Os teus olhos.

E naquele instante não vi mais nada, não ouvi mais nada, não respirei mais nada.

Quero vê-los outra vez, poder deixar que mergulhes com eles, neles. Deixar que me faças sentir mais completo. Não fazem de mim mais homem não, mas sabem bem onde mergulhar, em que jardim entrar, que espaço preencher. 

Tu...

Sabes, nunca fui muito bom com as palavras, mas gosto tanto de te escrever, de te sentir na ponta dos dedos, e de escrever o teu corpo neles, de te estudar até ficar saturado de ti. Mas sabes, não fico. Não me saturas, nem que ficasses nas minhas mãos por toda a eternidade.

Ainda te sinto nelas, todas as tuas curvas, a suavidade da tua pele, o quente do teu corpo, os teus lábios molhados sobre os meus dedos... 

Ainta te sinto nelas, e no resto de todo o meu corpo, como se de uma segunda pele te tratasses, como se de uma primeira pele para ser mais realista. Porque não me sais. Entranhaste-te em todos os meus poros.

Acordo todos os dias com o teu cheiro, sim, ainda sinto o teu cheiro. Ele fica sabes, o teu cheiro fica. Entranhou-se tanto como tu, toda tu.

Vou sentir-te sempre, como agora. Vou-te sentir nas minhas mãos até que elas te toquem novamente, e vou sentir-te outra vez, até deixarmos de ser gente.

23.9.13

Six Word Story

See inside you, Warm feeling resides.

Segundo de Eternidade



Não sabia que seria assim, que arrancarias de mim esta noite, esta negrura que me abraça desde sempre.

Ás vezes dizias que a vida dura um segundo de eternidade, que sentias isso nos meus braços.

Eu também te sentia assim. Mas agora atravesso o deserto. Sem que nenhum oásis de ti me apareça.

Os teus olhos não me saem, não me sai da cabeça aquele dia em que os vi pela primeira vez. Nem o dia em que os senti dentro de mim pela primeira vez.

Bruxa, és uma bruxa que me enfeitiçou. Lançaste-me um feitiço tão forte que não passará nunca mais. Serei para sempre teu. Sempre teu, naquele segundo de eternidade que dura a vida, que durou o nosso amor.

Um segundo de eternidade que mudou o meu mundo para sempre. Eu faço parte de ti agora, e tu de mim.

Foste embora, mas eu continuo a sentir-te mergulhada nos meus olhos. E continuo a sentir aquele aperto no peito, que agora, só passa quando à noite adormeço e te visito nos meus sonhos. Quando à noite me deito e viajo no tempo, para aquele segundo que nos fez tudo, que mudou tudo...

Aquele segundo em que fomos o fogo mais ardente de todos os fogos, em que nos consumimos e deixamos de ser dois.

Naquele segundo, em que fui o melhor de ti e tu de o melhor de mim.

Naquele segundo em que não existiu mais nada além de nós.

20.9.13

De manhã



Eda saiu à rua, e o cheiro de pão quente invadiu-lhe as narinas, respirou fundo e deixou que a saliva lhe inundasse a boca. Era uma manhã ensolarada, daquelas manhãs mornas de luz e de som. As peixeiras da ribeira já se ouviam lá ao fundo ao pé do rio. Desceu a rua até à padaria da Dona Jacinta.

Bom dia menina, o mesmo de sempre.

Sim Dona Jacinta, o mesmo, obrigada.

Andou desaparecida, já andavamos a comentar o que é que se teria passado, a menina avisa sempre quando vai de férias.

É verdade, desta vez foi um bocado à pressa, não tive quase tempo para fazer as malas.

Ah, pois. A Jucefina não se calou estes dias todos a dizer que já a tinham raptado. Esta Jucefina e as histórias é com ela, a menina já sabe que ela é uma língua comprida, aquela dali não diz uma frase sem acrescentar alguma coisa. Mas como eu não engravido pelos ouvidos não acreditei nela, e o certo é que a menina está aqui, normalzinha como sempre.

Eda sorriu levemente, pagou o pão, e saiu. Na verdade, não tinha ido de férias, a sua estadia no hospital tinha durado mais do que esperava, mas não queria contar pormenores, que a coscuvelhice era o mote do dia, e ela não estava para aí virada, nem tanto nem tão pouco.

Eda, porque é que fizeste aquilo.

Não sei, não me lembro bem do que aconteceu.

Não te lembras, tu tentaste afogar-te rapariga. No meio da noite, com um mar bravo, e tu enfiaste-te por lá dentro. Ainda bateste contra as rochas. A tua sorte foi teres sido cuspida para a praia. Foste encontrada por um pescador, que te ajudou.

Sim, tenho uma vaga ideia.

Marejaram-lhe os olhos e ainda quase não tinha chegado a casa. Meteu as chaves na porta e entrou, já não via nada a não ser um mar na sua frente, e sentia a cara regada de lágrimas. Pousou o pão na mesa da sala, e foi buscar a carta.

A carta.

18.9.13

Amor Pecado




“Fomos o amor proibido e nem assim deixámos de ser o amor sagrado,

só o nosso amor limpa o pecado,
só um amor assim é sagrado,
amei-te como se não houvesse pecado.” - Pedro Chagas Freitas

16.9.13

Mentiras



Em meu nome ficam cegas as tuas mãos.

Meu corpo reconhece-se nos recantos do teu olhar, e a frieza dos encontros às escondidas esfuma-se...

Mentiras... Tantas...

Que de tantas e tantas vezes me olhaste sem me veres, que de tantas e tantas vezes teus olhos se foram para os dela, sem a procurares...

Mentiras.. Tantas..

Por vezes as mentiras são o único pecado possível para atingir a salvação.

Isso pensavas tu...

5.9.13

It's a long way



"It's a long way to the top if you wanna rock n' roll"

Adoro esta música. É demais.

Eu também, e o tipo sabe dar espectaculo.

Este publico é escandaloso. Do melhor que há. Fiquem bem, e até uma próxima.

Eda, queres ir para outro lugar, o concerto já terminou.

Sim, vamos.

Beba lá a água menina, você deve ter andado na água, tem a roupa toda tesa. Lembra-se do que aconteceu.

Muito mal...

"It's a long way.."

Lembro-me de uma música, estava a ver um concerto. O vocalista não parava de dizer que éramos um publico escandaloso... e..

E. Não se lembra de mais nada, bebeu muito estou a ver. Ai, esta juventude está perdida Senhor.

Bebi um pouco, mas não estava bêbeda.

Eda... não te metas na água, está muito escuro, é perigoso. Eda.

Lembro-me de entrar no mar, estava a saber-me bem. Depois disso é tudo muito vago..

A menina estava a tentar matar-se.

Não. Acho que não...

Então porque é que entrou no mar, não tem estado muito calmo nos últimos dias, e ontém à noite estava bastante picado...

Eda. Edaaaa. Não faças iss... CUIDADO.



4.9.13

Six Word Story

Big mama cries. Less one is.

Ás vezes...



Ás vezes o corpo adormece, e alma perde-se em divagações infinitas.

3.9.13