30.7.13

Privilégios




E agora. O que é que eu faço com isto. Como é que eu sinto isto.


Então, sentes.


Mas como é que eu sinto isto.


Sentindo, como se sentem os outros sentimentos. Só que sentir amor é algo muito mais intenso, é isso, amor é mais intenso mais profundo que qualquer outro sentimento.


Mas eu não sei se isto é amor. O que eu sinto não é amor, é algo maior que isso, não é deste mundo.


Oh, não sejas tonta, como é que pode ser de outro mundo, se o sentes é deste mundo.


Não, não é. Se fosse deste mundo eu saberia sentir, mas eu não sei. Controla-me, faz-me fazer o que não posso, faz-me querer o que não quero, faz-me ser imprudente, impulsiva, incompreendida, parece que tem vontade própria.


Estás apaixonada, os apaixonados fazem isso tudo, e estar apaixonado significa sentir amor, e tu estás a senti-lo de uma forma tão intensa que te parece que é exterior a ti, mas é muito mais interno, muito mais teu, muito mais sentido do que imaginas.


Talvez. Mas o que é que eu faço com isto.


Sente. Saboreia. Aproveita essa dádiva. Deixa arder enquanto existir. Deixa acontecer. Se a fogueira apagar, vais pelo menos poder saber como é. Muitos passam uma vida inteira apenas a imaginar, e tu tens o privilégio de o estar a sentir, então não penses, sente, sente, sente.


É. Vou sentir. Sim, privilegiada, talvez. Vou sentir. É isso, sentir só. Deixar que aconteça.


Isso, deixa acontecer e sente. É simples.


Sim. Acontecer. Sentir. Simples.

Chuva




Ele abraçou-a, ela gelou, não conseguia controlar a respiração, quase entrou em pânico, as pernas tremiam, o coração explodiu de palpitação, mas deixou-se ficar naquele abraço, sabia tão bem estar nos braços dele.

Pela primeira vez sentiu-se nele, toda ela nele, no seu quente, encaixada no seu abraço.

Ele olhou-a nos olhos, com os dedos puxou uma madeixa de cabelo para o lado, aproximaram-se os rostos... sentiram a respiração um do outro.

Abraçaram-se ainda com mais força, como se aquele abraço fosse o beijo mais sentido que  alguma vez poderiam dar.


Chovia, e ficaram debaixo do guarda chuva por momentos, como se o tudo tivesse parado até ao próximo movimento.

Em redor as pessoas continuavam a passar apressadas, mas o tempo tinha deixado de existir, e por breves instantes a eternidade permaneceu ali.

No início era o verbo





Aqueles olhos, aqueles olhos que já os vira antes. Daqueles olhos que não se esquece, não se esquece não. Perfurantes. Aquele olhar felino. Aquelas duas esferas ardentes. Já os tinha visto, tinha a certeza.


Aquela voz, aquele timbre, fazia-a estremecer por dentro... como se a vibração daquele som fosse ao fundo da sua alma, bem lá no fundo.


Ela olhava-o como se ele não fosse deste mundo, e ele por muito que tentasse disfarçar não conseguia ficar indiferente àqueles olhos.


Ganhou coragem e arrancou na sua investida, Bom, pelo menos será um começo, pensou.


Ela pressentiu-o aproximar-se, o seu coração arrancou numa demanda desenfreada, se tivesse por onde saltar e correr como um cavalo enfurecido, era precisamente isso que tinha feito. Mas nem cavalo, nem por onde saltar. Sentiu a temperatura do seu corpo subir, Devo estar vermelha que nem um pimento, bolas, e ele continua na minha direcção, ok, nada de paniquices, é só um olá, só precisas de dizer olá.


Agora já começaste, tens de ir até ao fim. Já se sentia a tremer, Acalma-te, vá, é só um olá, só precisas de dizer olá.


Olá.

Olá.

29.7.13

Âncoras




Ah, que alívio. Sabe tão bem. Sim, já consigo respirar fundo outra vez.
Abraçam-se, deixam-se ficar por segundos naquela fusão, alheios ao que está ao largo.

É o respirar fundo, aquele respirar que os salva do afogamento eminente. É aquela ancora que os mantém à tona. Naquele momento nada mais existe, pára o tempo e o espaço não é mais do que eles, abraçados.

Senti tanto a tua falta. Eu também. Parecia que nunca mais te ia ver, sentir, tinha a sensação que tinha sido a última vez. É sempre, é sempre igual, cada despedida de ti é como se fosse a última, e fica esta agonia, esta falta de ar. Mas agora posso abraçar-te e respirar fundo. Ah que alívio. Sim, um alívio sempre que te abraço e respiro fundo novamente. Aquele aperto constante desaparece. Sinto-me completo.

Abraça-me para sempre. Abraço. Não me largues mais. Não largo, vou estar sempre aqui. Não vou deixar que não estejas, estamos ancorados um no outro. Sim, estamos, a minha âncora será tua. O meu barco será o teu porto de abrigo.

Não iremos naufragar. Não. Vamos continuar a navegar assim, abraçados. Sim, abraçados. Para sempre. Para sempre.



E aquele abraço durou toda a eternidade.

28.7.13







"Quando se ama, amar é a única certeza.


E depois o orgasmo pacifica, acalma, 

e o coração acelera mesmo que acalme, e os olhos abrem-se mesmo que fechem.



- Não sei de que gosto mais: se do durante se do depois.


Quando se ama, todos os antes e os depois são durante."





"In Sexus Veritas", de Pedro Chagas Freitas

27.7.13

Desconhecidos




Ainda te sinto por baixo dos meus lençóis de carne, ainda te sinto a respirares-te assim intensamente. Vamos ser para sempre. Mas para sempre parece-me tão pouco. Mas seremos eternos, mesmo que tudo isto não passe de apenas uma memória.

Eu vou lá estar, eu quero lá estar quando precisares de mim. E eu quero que estejas.

Sim, estarias se não tivesses partido. Mas incrivelmente ainda te sinto, por de baixo de todas as minhas camadas, dentro dos meus ossos. Respiras-me, trespassas-me com esse olhar.

Lembras-te de quando não nos tocávamos. Sim, não passavamos de dois estranhos com vontade de se conhecerem. E depois tudo mudou. Pois mudou. Tu abraçaste-me, encostaste o teu peito ao meu, e tudo mudou. Sim, o teu cheiro entranhou-se em mim, o teu cheiro fica sabes. E eu mergulhei nos teus olhos, e desde esse instante que não te conheço senão assim, mergulhada em ti, contigo nessa forma que só eu sei, dentro dessa aura que só eu vejo.

Também te sinto sabes, não há um único dia que não me recorde desses olhos perfurantes, dessa luz com que ficavas. Adormeço contigo na cabeça, e acordo com o teu cheiro por todo o meu corpo.



Ficamos assim então. Sim, ficamos. Ficamos como sempre fomos. Como sempre fomos. Sim, dois desconhecidos que se conheceram demasiado bem.

16.4.13

Adeus





Como se diz adeus a uma pessoa que não se quer deixar de ver? Como se podem desprender os laços, aqueles fortes que se amarraram a nós com um nó cego, que não deslaça, que para desapertar tem de ser cortado, como se faz?

Como se diz adeus àquelas pessoas que nos marcam, e que não queremos que nos deixem de marcar, como se consegue seguir sem que elas estejam ali, do nosso lado, com o olhar pousado sobre nós, com a ternura de uma palavra quente, como?

Não sei dizer adeus, não consigo dizer adeus, essa palavra não existe no meu dicionário, adeus é demasiado definitivo para esta vida, já ela é tão pequena, para quê encurta-la ainda mais com "adeuses".

Não gosto de despedidas, não as quero, prefiro um 'até já', ou um 'até amanhã', mesmo que no fundo saiba que não vai acontecer, ficará sempre uma porta aberta, uma janela, um portão...

Como se pode dizer adeus quando alguém se vai, como se diz adeus se a outra pessoa já partiu e já lá não está para te dar um último olhar. Como se dá um abraço a alguém que já se foi..

Não digo, não o faço, adeus não existe, adeus foi algo que o homem inventou para conseguir cortar com a saudade do que ficou, do que marcou, talvez para que doa menos, talvez para que possa viajar para as memórias sem que elas sejam demasiado vivas...

Como se diz adeus, como se despede de alguém que nos marcou tanto, que nos ensinou tanto, que nos amou tanto, e que amamos também...

O tempo não passa para aqueles que se amam, e poderiam passar-se mil anos que continuaria a não dizer-te adeus, recuso-me, recusar-me-ei sempre, não to direi! Não to direi!!!

Photo by Me

21.3.13

Tempo dissolvido



Contam-se os minutos
Os segundos
E o tempo demora
lânguido
lento como nunca

Demorado se deixa estar
passeando-se...
demorado se deixa estar
contando lentamente cada tic tac

tic tac... tic tac...
tão devagar que ele vai e vem e volta

ai tempo que te acabes!
que te dissolvas
pois és instrumento de tortura
para os que se amam
para os que se anseiam 
és lento para que chegue o seu encontro
e de passo acelerado 
quando se encontram os corações apaixonados...

Ah tempo
deixa-te de existir
vai-te
dissolve-te no fogo dos amantes
e deixa que a eternidade dos encontros
se cristalizem e fiquem suspensos ali
assim...

9.3.13




Não te ponhas ao nível das outras pessoas
Deixa-me ver-te assim como és
Não te escondas por trás da normalidade
fingida da massa cinzenta que se move
todos os dias mecanicamente

Não te movas assim
move-te como és
Tu!

Não te ponhas ao nível das outras pessoas
Não te tornes igual a todos os iguais
Sê assim,
Simples,
Tu!

Não te tornes normal como as outras pessoas
Não sejas apenas mais um número,
Sê assim na tua loucura
que abraças com esse sentido
de quem sabe quem é

Deixa que a tua loucura
seja o vento que dirige as tuas velas
Deixa que essa loucura
seja o barco que navegas
Deixa que essa loucura
se manifeste
E que nessa loucura
sejas tu,
Mais tu do que algum dia foste,
mais verdadeiro e fiel
que algum dia conheceste

E sê assim todos os dias
para que no fim possas dizer
Valeu a pena navegar
Valeu a pena içar as velas
e conhecer este mar...

27.2.13

Das sombras fervor



Sobre as sombras
Sobre o Luar
Há luzeiros de esperança
Há sempre um olhar

E a sinergia entre os amantes
Intensifica a ilusão de haver tempo
O espaço dissolve-se na madrugada
E a luz transforma o sonho
em pura realidade

Qual dor insignificante
teria a força de os (re)unir
Nada, mas nada
sobreporia o tremor
da fogueira
do fervor...

Image  from  www.love-meter.net

25.2.13

Sonho



E veio o sonho,
Juntou-se a eles
E embalou no seu doce cantar

Deixou cair o seu manto suave
Aconchegou os pensamentos e as vontades
Misturou tristezas e alegrias
E criou

Fez nascer o momento infinito
Onde poderam sempre voltar
Aquele mundo perfeito
Cheio de eternidade
Cheio de saudade

Fugaz parece sempre
Mas eterno permanece
Em ambos
Como marca cravada
A ferro em brasa



Image from www.fanpop.com

22.2.13

Síndrome Amor




Na rua da solidão
O tempo parou
Só as horas te abafam
Na confusão dos que correm


Correndo pela milionésima vez
Todos os passos trespassados
Da realidade da imensidão
Chegas a casa descansado

Trespassado pela solidão
Sentes o coração a saltitar
A palpitar por tudo o que respiras


E ficas sustentado, assustado
E sem saber o que fazer
Suspiras…


É o síndrome amor
É o que te causa essa dor
A dor que não queres deixar de sentir
É o síndrome paixão
Que te consome na solidão
E te deixa com vontade de fugir

Sentes o fogo a arder lentamente
Na consistência dessa sensação

Verdade, saudade, audiência surda
Que procuras sem saber por onde vais

É o síndrome amor
É o que te causa essa dor
A dor que não queres deixar de sentir
É o síndrome paixão
Que te consome na solidão
E te deixa com vontade de fugir

20.2.13

Prisioneiro




Soltou-se o grito
Fugiu o silêncio
De longe as dores
Observam
Silenciosas e pequenas
Que o tempo é caprichoso!
Não há espaço
Não há brisa que me leve.

O olhar ficou ancorado
no momento de solidão asfixiante
Ardente, espectante!
Ininterruptamente
Procurando pelos olhares
que deles os deixaram presos

E este sólido luar
prende-me aqui
E não me deixa partir
Não me deixa
prende-me neste lugar



Photo from HD Wallpapers

22.2.10

Children from the Stars



From the stars alone
from above i came
from the heart of a different ocean..
child of the stars they say..
i am, i am
child from the sky
above, blue and grey hopes
many different worlds
parallels from the consciousness
simplifying your attitude..
and staying behind this mask of darkness..
hiding the light that comes within the heart
warrior of the light
messenger of hope

painting by Akiane Kramarik

24.9.09

O dia amanheceu em paz



O dia amanheceu em paz

e a estrutura oscilante permaneceu

completa


Intercalada pelos raios da vontade de adiantar

aquela leveza de ser


Pela concordância das palavras

intermitentes

persistentes


Continuamente alucinadas

Embebidas na escuridão das incertezas

Acordadas na claridade das ideias


Continuamente aqui

Assim

Sempre


Continuamente

Completamente

Adormecido no reconhecimento

Acordado no entorpecimento do calor interno


A noite passou e

o dia amanheceu em paz…

photo by Filipe Ferreira

26.7.09

Pendente



Suspensa no ar denso da memória

a história passa

mostra as palavras,

escravas


os sonhos envolvem

em veludo

os pensamentos,

arranham os sentimentos


gritam das entranhas

as vitórias

esquecidas

enterradas na escuridão

dos entretantos


pontapeando-se entre olhares

lá está

apreciando cada momento

visualisando o entendimento


já nada faz sentido

em volta fica escuro

á frente nada

tudo se esconde

e puro fica

descansando


photo by Pedro Pinto

30.6.09

Blood on the dance floor - Michael Jackson

(Tinha que deixar aqui esta homenagem a um dos artistas que mais influenciou a minha infância e a minha adolescência! Uma das minhas MUITAS favoritas!)


She got your number
She know your game
She put you under
It's so insane

Since you seduced her
How does it feel
To know that woman
Is out to kill

Every night stance is like takin' a chance
It's not about love and romance
And now you're gonna get it

Every hot man is out takin' a chance
It's not about love and romance
And now you do regret it

To escape the world I've got to enjoy that simple dance
And it seemed that everything was on my side
(Blood on my side)

She seemed sincere like it was love and true romance
And now she's out to get me
And I just can't take it
Just can't break it

Susie got your number
And Susie ain't your friend
Look who took you under
With seven inches in
Blood is on the dance floor
Blood is on the knife
Susie's got your number
And Susie says its right

She got your number
How does it feel
To know this stranger
Is out to kill

She got your baby
It happened fast
If you could only
Erase the past

Every night stance is like takin a chances
It's not about love and romance
And now you're gonna get it

Every hot man is out takin' a chance
It's not about love and romance
And now you do regret it

To escape the world I got to enjoy this simple dance
And it seemed that everything was on my side
(Blood on my side)

It seemed sincere like it was love and true romance
And now she's out to get me
And I just can't take it
Just can't break it

Susie got your number
And Susie ain't your friend
Look who took you under
With seven inches in
Blood is on the dance floor
Blood is on the knife
Susie got your number
You know Susie says its right

Susie's got your number
Susie ain't your friend
Look who took you under
She put seven inches in
Blood is on the dance floor
Blood is on the knife
Susie's got your number
Susie says its right

It was blood on the dance floor
(blood on the dance floor)
It was blood on the dance floor
(blood on the dance floor)
It was blood on the dance floor
(blood on the dance floor)
It was blood on the dance floor
(blood on the dance floor)

And I just can't take it
The girl won't break it
Ooo...

8.6.09

Perdida



Impludo

Expludo

Procuro

Rebusco


Já perdida

Vazia

De tudo


Onde está

Onde encontrei

Onde procurei


Quando farei

Tudo de novo

Quando



photo by Marta Ferreira

5.6.09

Reflexo de Poeta



Se a poesia reflecte

a alma do poeta,

que reflexo será o meu


Será esse reflexo

o verdadeiro,

ou apenas a consequência

das palavras escorridas, perdidas.


Será o reflexo que procuro,

ou aquele que expurgo,

aquele que se torna no meu exorcismo.


Será o reflexo

do pensamento ou do sonho,

será ele verdadeiro

ou apenas uma miragem…



photo by Sara Sa

4.6.09



Há tantas coisas em terra

Há tantas coisas no mar

E as minhas onde ficam

em que lugar


Para que lado vou remar

Quando

Para que busca vou olhar

Como


Para que sentido me dirijo

entretanto

Para que passos guardo energia


Não sigo para além

e busco lugar nenhum

aquele em que me encontro

naquele em que te vejo


Sigo sempre sem saber

e agora

Sigo sempre sem entender

E por ora


quais e quantos mais

terei de ver

Quantas almas mais

perdidas


Quantas tristezas mais

terei eu que mastigar

Engolir

Digerir


Quantos caminhos mais

terei eu

Quantas buscas, quais

perdidas em si

por elas mesmas


Caminho redondo

enfrenta-me

Caminho fechado


Vou para lugar nenhum

para lá te encontrar

uma vez mais…



photo by Anaphy

2.6.09

Dor



É inevitável que caia no nosso colo,

é inevitável que a recebamos

nas profundezas do nosso ser

e a encarnemos…


É inevitável…


E a fome, essa

fica noutra dimensão

é outra


O buraco negro

O peso

O obscuro incontornável

que envolve


a luta desenfreada para entender

… a dor…


E a esperança

que esta desapareça um dia


é inevitável

não desaparece

apenas vai e vem


num pulsar arritmado

sem ponto

nem condução


é a dor

que transforma

que cria


é a dor

a nossa cruz

..o nosso caminho..


A dor…

…essa.. dor..

… essa… que não desaparece…

… nunca…



photo by Marta Ferreira
PS - Obrigada pela inspiração Miguel