30.4.14

Naturalidades



Os olhares trocaram-se e a explosão aconteceu. Corações acelerados. Toda ela controlando-se para não tremer, natural parecer. Ele nervoso, lutava para que não se notasse a rigidez dos movimentos que se teimavam em desgovernar.

Sorrisos constrangidos. Olhares de soslaio. Sentados quase lado a lado, não trocavam palavra. Mania. Esta mania de se querer ser natural quando por dentro tudo não é menos que um tremor de terra. Tsunami, invadido no peito com toda a força. Descontrolo. E no entanto, querem parecer naturais.

Ah pobres. Estes corações apaixonados num instante. Pobres deles que não se podem mostrar como se sentem. Não é transparente, e aparentemente nada se passa.

Pára de te mexer, ela vai perceber que estás nervoso.

Mais nervoso que isto é impossível, e ela repara. Nota que de momentos a momentos os seus olhos se desviam para os dela, mas nada faz, finge indiferença, quer parecer natural, e convence-se que o está a ser.

Cruza a perna, pára de mexer no cabelo sua parva. Ele vai perceber.

Claro que percebe, ele nota que ela não pára de ajeitar o cabelo, como se tivesse de estar tudo no lugar certo. Cruza e descruza as pernas, e os seus olhos teimam em voltar-se para os dele.

Repetidamente cruzam-se, os olhares. Sorriem das piadas que se contam em paralelo. Não sabem a piada, mas riem-se na mesma, têm de parecer naturais...

Mas de natural nada há, não trocam uma única palavra que denuncie o que estão a sentir, mas os seus olhos já gritam de um para o outro, dele para ela, o quanto sentem vontade de se aproximar.

Ela sabe. Ele sabe.

29.4.14

Desafios

A minha querida amiga bloguista Bea, fez-me um desafio há uns dias atrás, e para lhe responder à simpatia, cá vou eu participar. (não era para rimar... -_-)

Passo a explicar, o desafio consiste apenas em divulgar alguns dos blogs que gostam de ler, quem for divulgado na lista e quiser retribuir, só tem de mencionar a pessoa (blog) que o recomendou, e colocar também a sua lista de recomendações no post que fizer, por isso aqui ficam as minhas recomendações:






Vamos lá a ver se contribuimos para a divulgação de mais e bons blogs!
Boas leituras!




Baloiço com o tempo, nesta espera de ti, eterna espera. Minha amada.
No desespero que se me arrepanha, vou tentando sobreviver...

28.4.14

Desistir



Não desistas, não porque eu te peço, mas porque o sonho voa mais alto.
Talvez não existamos mais, mas eu sei que tu sabes que somos eternos.
Não menos que isso. Eternos.
E seremos assim, como somos nos instantes em que nos tocamos.
Olhares cruzados. Peitos apertados.
Até conseguirmos respirar tão fundo que o mais fundo não chega.

Não desistas de nós, sabemos mais que isto.
Não somos isto, agora.
Somos o que já fomos.
Somos o que acontece quando a saudade irrompe desvairada.
Qual alvorada perdida por entre beijos de desejo. Antevejo.

Não sabes o que podemos ser. Não saberás jamais.
Não desistas. Não desistas.

24.4.14

Second Skin - Cartas de Amor #4




Ah. Esse cheiro.
Já não sei como vivia sem o sentir.
Como me faltaste.
Mas quero mais.
Não me consigo contentar em respirar-te, preciso-te mais.
Sim, muito. Sou tudo muito.Sempre mais. Mais.

Quero-te em mim como preciso resprirar.
Desejo-te dentro, como se uma fome sem fundo se me apoderasse, 
e me obrigasse a querer-te ainda mais.
Preciso-te. Sentir as tuas mãos em mim, como se delas fizesse parte.
Cheirar-te. Sim. Cheirar-te outra, e outra vez, e mais, e sempre muito.
Respirar-te fundo.

Seres-me. Eu. Tu. Um.
Como se de uma segunda pele nos tratassemos. Ambos.
Um no outro.
Sempre. Perfeito.

Painting by Duma Arantes

23.4.14

Uma Palavra




Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d'agua pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra

Chico Buarque

22.4.14

Cartas de Amor #3





É uma espécie de vontade, esta que se me vem sempre que me atinges o pensamento.

Não te sei, nem te quero, e no entanto não te posso esquecer, porque me fazes falta. É mesmo, fazes-me toda a falta que é possível dentro deste peito vazio.

Se arranjo maneira de te saber, não quero. Escrevo. Prometo mil palavras e sentimentos. Não esqueço. Desejo.

E agora quanto tempo mais até. Quantos dias e quantas horas terei eu mais de sofrer até me prometeres que serás eterno.

Pensamento (re)erguido por entre nevoeiros temporais. Sairás jamais.

Ah. Quão obstinada é esta lembrança, qual esperança que se (in)surge sempre que te vejo. Desejo.

Desejo.


21.4.14

Soneto da Felicidade



De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Morais

17.4.14

O blog da Zana é Ecológico



"De acordo com um estudo realizado pelo ambientalista e físico da Harvard University, Dr. Alexander Wissner-Gross, um internauta produz, em média, cerca de0,02 gramas de CO2 por exibição de página. Considerando que um blog geralmente recebe em torno de 15 000 visitas por mês, isso resulta em 3,6 kg de CO2 emitidos por ano. Este total é gerado principalmente pelo grande consumo de energia, devido à refrigeração necessária para o funcionamento de computadores e servidores."

Não é que tenha tantas visitas, no entanto, acho que é sempre bom poder contribuir de alguma forma. E não custa nada (ver mais aqui).

A Guiato planta uma árvore para cada site que se inscreva nesta iniciativa, para alíviar os impactos das mudanças climatéricas e o impacto das emissões de CO2.

Soubesses







Beijaste-me em mente.
Vieste. Viste-me.
Despiste. Despiste-me.
Desnudaste toda a minha carne,
nela enterraste tuas palavras.

Do teu olhar nada mais soube,
nem se no teu coração coube
algum do meu, ou das minhas chagas.

Pragas, estes pensamentos. Pragas.
Desejo que se queimem por dentro.

o peito implode.
Demasiada ansiedade,
não há sobriedade.

Ah se tu soubesses.
Se tu viesses e visses.
Sentisses
como sinto eu teus beijos. Desejo.
Voltarias apressado.
Desenfreado.

Tudo Isto é Fado



Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado
Disse-te que não sabia
Tu ficaste admirado
Sem saber o que dizia
Eu menti naquela hora
Disse-te que não sabia
Mas vou-te dizer agora

Almas vencidas
Noites perdidas
Sombras bizarras
Na Mouraria
Canta um rufia
Choram guitarras
Amor ciúme
Cinzas e lume
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado

Se queres ser o meu senhor
E teres-me sempre a teu lado
Nao me fales só de amor
Fala-me também do fado
E o fado é o meu castigo
Só nasceu pr'a me perder
O fado é tudo o que digo
Mais o que eu não sei dizer.

Amália Rodrigues

16.4.14

Longas Metragens



Longas são as metragens que faço de ti.
Dentro do meu pensamento apenas a luz para ti.
Dentro da minha bobine apenas a imagem tua. Salgada. Nua.
Prolongam-se de imediato as horas, e balançam-se as pontes até partir.

Saltos de gazela fazem dela a mais bela. Cantas tu. E que delícia.
Maravilha descoberta. Inquieta. Me. Inquieta-me.

Six Word Story

Quanto tempo passou. Agora não tenho.

Retrato do Herói



Herói é quem num muro branco inscreve 
O fogo da palavra que o liberta: 
Sangue do homem novo que diz povo 
e morre devagar    de morte certa. 

Homem é quem anónimo por leve 
lhe ser o nome próprio traz aberta 
a alma à fome    fechado o corpo ao breve 
instante em que a denúncia fica alerta. 

Herói é quem morrendo perfilado 
Não é santo    nem mártir    nem soldado 
Mas apenas    por último    indefeso. 

Homem é quem tombando apavorado 
dá o sangue ao futuro e fica ileso 
pois lutando apagado morre aceso. 

Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'

15.4.14

Cartas de Amor #2



Não paro de te pensar.
Não consigo conceber que de alguma forma te encontras demasiado longe das minhas mãos. Saudades de te ter nelas.
No peito encontro nada a não ser tu, sempre tu, nessa tua aura incandescente, com esses olhos penetrantes, perfuram-me sempre e todas as vezes.
Não consigo esquecer, é-me impossível. Será este o meu castigo por tamanho pecado. Este que cometi ao tentar conquistar-te, tendo eu já no meu coração outra mulher.
Mas é possivel sabes, é possível amar duas pessoas, e mesmo assim não ser pecado. Eu sei, eu sei, para muita gente é pecado talvez, mas para mim não, não faço planos para gostar. Gosto e pronto. É assim. É como é. E eu gostei-te. Tanto. E gosto-te ainda.
Vivo um dia de cada vez, na esperança de te poder ter novamente nas minhas mãos. Já te disse que estão vazias de ti. Pois que estão num vácuo de ti, já nem as sinto de tão dolorosa ausência que lhes provocas.
Sofro constantemente e todos os dias me lembro, ao acordar, que já não te tenho, que não te posso agarrar e preencher este vazio.
Mas sinto-te, continuo a sentir-te como se fosse hoje, agora. Fecho os olhos e respiro fundo, inalo o teu perfume que fica, e ele continua sabes.
Continua o teu perfume em mim e no meu corpo, todo ele me cobre como uma segunda pele, aquela que eu queria que tu me fosses.
Faço-te sólida nos meus pensamentos, e deito-me enroscado em ti e nesses teus olhos que não esqueço.
Talvez um dia, quem sabe, te (re)encontre e não te lembres de mim, para que te possa (re)conquistar.

Pedras&Palavras



As palavras e as pedras são muito semelhantes no que toca à sua mais pura essência.
As palavras e as pedras, depois de atiradas, já não se podem (recuperar).
As palavras saiem e atingem o alvo com a força de uma pedra, e a pedra assim que embate, pode magoar a sério (porque a brincar também se magoa muito boa gente), e muito.
Mas creio que as palavras magoam ainda mais. Sim. magoam muito mais que as pedras, pois que ao embaterem, provocam maior ferida, enterram-se mais na carne do coração.
Sim. As palavras magoam mais que as pedras. Muito mais que as pedras. Muito.

14.4.14

Cartas de Amor #1



O meu coração está pendurado por um fio.
Aquele fio que amarraste quando me olhaste e sorriste.
Foi com ele que o meu coração se foi, e ficou por aí a balançar... nesse fio.
Frágil fio, que a qualquer momento pode rebentar.
Não te vi mais, quase não trocamos palavras, apenas olhares.
Tantos.
Tu olhavas-me, e eu olhava-te, sem saber muito bem o que me provocavas.
Tu mexias-te, eu estremecia na esperança que me lançasses alguma palavra.
Tu falavas, e eu calava-me para tentar entender como me podias estar a  perfurar com tanta força.
Não te vi mais, não me esqueci mais.
Os teus olhos, eu não os devolvo, trouxe-os comigo.
O teu sorriso, guardei-o no meu pensamento.
Os teus cabelos e o teu perfume doce, filtrei-os e guardei-os no meu pepito.
Sempre que me dói o coração sei de onde vem a dor,
é de ainda não te poder ter encontrado de novo,
de não poder ter-te puxado e agarrado para não te largar mais.
É isso.
Tenho o coração pendurado por um fio,
com a esperança de que quando ele rebentar,
as tuas mãos possam ampará-lo.

Pessoa



Pessoa caminhante
Andante deste mundo
Sem fundo...
Converge de passos perdidos
Com os sentimentos aturdidos
Do rebuliço de emoções
Pessoa...
Pessoa de mil faces
Pessoa de mil almas
Pessoa sem destino
Calma revoltada
De mundo perdido

11.4.14

Contrabando




Esquece o contrabando de sentimentos
a loucura chegou para se instalar
não veio só fazer uma visita

Vai-te para casa, mas não tropeces nos pensamentos,
sentimentos.
ficam-te encravados nas artérias
entupimento de veias,
vias consecutivas das relações.

sabes que agora é assim
não te fiques por cá por mim

só agora te entendi,
só agora percebi
porque é que não respiro
e retiro o peso da tentação
perdição

não me olhes assim
sabes bem que é verdade
não me deixes ficar
vai-te e não me faças tropeçar
outra vez!

só agora te entendi
só agora percebi
porque é que tudo é tão insípido
quando de ti não há vestígio

10.4.14

Vazios II



Já não há luar que me afogue
E lá longe tu continuas
Minha estrela da noite
Minhas mãos serão sempre tuas

ah salteador de corações
em armações mais ou menos complexas
em sintéticas insinuações
de quase nada se chegam
e apertam a garganta
que te grita e não te sabe mais

ah que por muitos lugares
caminhos percorri e não te encontrei
na luz na noite me abandonei
sinuosa sedução de estrelas que me prendem agora
deixar-me-hei ficar por estas sendas
não mais te procuro
por aqui me detenho