23.6.14

Guarda-me



Gaurda-me dentro desses afectos
para que nunca mais te falte.
Deseja-me ardentemente
para que o fogo não se apague.
Respira-me intensamente
para que o ar não falte
e o peito não te aperte.

Seria hoje que me perderia em ti
nada feito
deste jeito não voltará o tempo
esse que ficou suspenso
naquele beijo
naquele olhar

Naquela varanda sobre o mar
pôr do sol morno
sentimento de retorno

Não posso deixar
que este sol se apague
por mais que a noite venha
e a lua se apodere do céu

Não deixarei que este luar
ilumine menos que o sol
que se deitou sobre o mar.

Painting by Duma

Ouvi o texto muito ao longe




Ouvi o texto muito ao longe
era o teu corpo na demanda
não me parecia escrito hoje
mas hoje quis tarefa branda
a de curar a ferida ao sol
no claro-escuro da varanda.

E só depois
para já depois, ao certo
mas fiz ao corpo teu por perto
ouvindo o texto muito ao longe
escrevinhando o sol bate hoje
cartas de amor como o sol manda
vermelho caixa aço pintado
destinatário demasiado
na virtual ida ao deserto.
Escrevi ao corpo teu por perto
na quente pelo como o sol manda
real regresso do deserto
a tua pele muito ao de longe
era o meu texto na demanda
não me parecia escrito hoje.

Ouvi o texto muito ao longe
não me parecia escrito hoje.

Letra Sérgio Godinho
Voz Camané

20.6.14

Agora



Sabes que me assustas quando olhas com essa profundidade em mim. Não há nada que me assuste mais. 

Porque é nesse momento que me prendes para sempre. É nesse momento que me tens eterno.

Assusta-me a luz com que ficas depois de fazermos amor. Também eu a sinto dentro de mim. Levo sempre um pedaço dela quando me vou. Assusta-me isso. Assusta-me como ficas impregnada nas minhas narinas, como a marca do teu corpo se permanece nas palmas das minhas mãos. Assusta-me como te ficas debaixo da pele.

E mais ainda. Assusta-me como me prendes sem que me amarres. Sou livre mas eternamente teu escravo. Farias de mim aquilo que quisesses. Ainda fazes se o disseres. 

Assusta-me ainda mais agora. Agora que acordo e te sinto falta. Agora que abro os olhos na esperança de te ver ao meu lado. Agora que me deito na esperança de me cruzar contigo algures fora deste espaço. Agora que não durmo. Agora que as noites são demasiado longas, depois daquela, demasiado curta. 

Agora que a vida se faz demasiado longe de ti.

Agora que te perdi.

Photo from HuffingtonPost

Poema dos olhos da amada




Oh, minha amada
Que os olhos teus

São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus

Ah, minha amada
De olhos ateus

Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus

Composição: Paulo Soledade / Vinícius de Moraes
Versão: António Zambujo

18.6.14

Evenin' - Cartas de Amor #10



Sentes. É este calor que quero que te lembres quando não estiver dentro de ti. Fica mais um pouco. Sente. Sente até não conseguires entender mais nada, e seres apenas o que sentes. Sente até que esse tremor te tome por completo. Sim, perde o controlo, todo.

Treme nos meus braços. Baloiça nestas lembranças.

Dá-me a tua mão. Fecha os olhos.

Deixa-me imprimir na memória do teu tacto, a forma do meu corpo. Sentes. Não deixes que as tuas mãos se esqueçam.

Deixa-me sentir-te. Deixa que as minhas mãos naveguem nesse teu mar ondulante. Deixa que elas percorram todo e cada pedaço da tua pele.

Agora respira. Não te esqueças. Este é o nosso cheiro. O cheiro do sexo. O cheiro do nós. O que somos está nessa essência. Não te esqueças.

Sente. Guarda esse arrepio que a minha língua te provoca. Guardo eu o sabor da tua boca.

E agora adormece. Deixa que te embale. Para que nos possamos permanecer eternos.

Não tenhas medo. Vou estar sempre aqui, do teu lado. Serei o teu guardião alado.


Prometo. Não deixarei o teu coração destroçado.

Six Word Story

Then the world was not enough.

Sede


Hoje acordei com sede. Sede de nós, quando nos encontrávamos às escondidas, para que não nos julgassem, para que não nos acusassem daquilo que nós éramos.

Acordei com o corpo dormente. Passado tanto tempo ainda te ressaco, ressaca que faz doer o corpo, mas ainda mais a alma. A dor da alma é a pior de todas.

Continua a custar respirar, como se tivesse fumado 50 cigarros de uma vez. O peito ainda se me aperta. E neste aperto é que acordei. Nos lençóis ensopados naquilo que foi o nosso encontro.

Hoje acordei recortada, com a falta do teu corpo no meu, com a marca detalhada das tuas mãos em cada centímetro de pele por onde passaram.

Que faço com isto. E agora, que faço eu com isto. Mastigo. Engulo. Cuspo. Regurgito.

Retorno. Devolvo-te. Entrego-te isto que me deixaste, não quero nem preciso.

Fica, podes voltar a precisar de a usar. Esta droga não se esgota, estás à vontade. Eu é que não a quero mais, já bebi o suficiente. Já tive a pedra suficiente para que me baste.

Vou-me. A reabilitação está concluída. Porque a sede com que me acordaste, já não existe mais.

Matei-a para sempre.
Image from Pinterest

17.6.14

Misunderstandings




“I shall look at you out of the corner of my eye, and you will say nothing. Words are the source of misunderstandings." -from the Fox-”
Antoine de Saint-Exupéry, The Little Prince

5.6.14

O Mundo Pode Acabar Amanhã





Ela tinha a cabeça às voltas, não conseguia pensar, não dava para organizar os pensamentos, sentia-se como se estivesse no meio de uma tempestade, tudo vinha ao mesmo tempo e nada fazia sentido, aquela sensação de euforia misturada com uma apatia descontrolada, não conseguia reagir.

O que é que estou a fazer, por que caminho me estou a meter, isto vai correr mal... isto vai correr muito mal... E o que é que ele tem na cabeça para me fazer isto. Ele sabe os riscos que corremos. Estou a perder-me. E agora o que é que eu faço com isto.

Ele abraçou-a, ela gelou, não conseguia controlar a respiração, quase entrou em pânico, as pernas tremiam, o coração explodiu de palpitação, mas deixou-se ficar naquele abraço, sabia tão bem estar nos braços dele.
Ele olhou-a nos olhos, com os dedos puchou uma madeixa de cabelo para o lado. Olhou-a novamente e aproximou-se em direcção da sua boca, ela conseguiu desviar a tempo. Abraçaram-se ainda com mais força e ela petrificou por completo, não se mexia nem um milimetro, embora tivesse tremor de terra no peito (mas ele não podia saber).

Chovia. Ficaram debaixo do guarda chuva por momentos, como se o tempo estivesse suspenso, à sua volta as pessoas continuavam a passar apressadas, sem que dessem conta da revolução que acontecia mesmo ali do lado, entre aqueles dois desconhecidos que se abraçavam como se despedissem.

Ela olhou-o com esforço para não chorar.

O mundo pode acabar amanhã. Disse ele novamente tentando beija-la. Ela afastou-o.

Não te quero voltar a ver. E fugiu. Andou horas pela cidade, sozinha, até encontrar um banco. Sentou-se, mesmo no molhado, não se importou, o seu mundo tinha acabado.

Especial



Posso-te.
Tenho-te.
Escrevo-te.
Quero-te.

Por tudo e todas as noites.
Dos dias os luares
adormecidos.
Por tantos e tantos beijos
perdidos.

Especial.

És especial sim.
Não mais do que aquilo que sabemos que somos.
Mas mais do que tudo que sempre sonhei.

Estarei.

Sempre aqui na beira do tempo.
Que em cada momento te recenheço,
de entre nevoeiros espessos.
Em reflexos de tempo estremesso.

Espero-te.

Em cada eternidade que passa.
cada beijo perdido na procura
da nossa casa
doce casa.
No nosso mar eterno
como quem voa numa só asa.

4.6.14

Six Word Story

Kill me. I will born again.

Cartas de Amor #9




Alvorada que me corta, que me arranca do peito o coração. Este que já não é meu desde que me cruzei com essas amêndoas negras. Negras. Negras são minhas noites por não poder ter-te em mim.

Somente a lembrança do calor desse teu peito. Montanhas quentes em que me deitei.

Voltarás tu, oh minha Musa. Minha Deusa. Minha Afrodite. Não te esqueço mais. Não importa o tempo que se passe em  mim. Não te perco mais. Não importa, não se apaga a tua memória na minha pele. 

Pele. Esta pele que te pede ainda. Por dentro, toda ela se forma em ti, para sentir-te. Absorvi-te. Minha Deusa, minha Afrodite. Dissolveste-te na minha essência.

Formaram-se todas as noites numa só. Naquela. Numa. A nossa. Formaram-se todos os sentidos. Deixou-se existir a eternidade, apenas sentida, suspensa. E nela nos abandonamos para sempre, que sempre a ela pertencemos.

Morremos.
E nada nos arrancou à nossa saudade.

Solitário

Solenemente me trago por onde me quero.
Se não te posso ter não te desejo.
E porque um beijo no mero acaso, fez de mim teu eterno escravo,
vou escavando a loucura, de te ter por perto esta ternura,
que perdura e perfura este meu coração.
Solitário.

28.5.14

Cartas de Amor #8


Nunca mais te vi e no entanto ficaste esculpida em mim, na minha carne, no meu sangue.

Recordo a tua silhueta em contra luz, recordo a tua luz. Tão luminosa que te via. Iluminavas-te depois de nos mergulharmos, toda tu eras uma luz imensa.

Dentro dos teus olhos deixava-me cair. No início assustava-me a forma como me invadias, mas depois pedia-te que me entrasses, que me inundasses com esse teu branco. Quando sorrias tinha medo, medo de ficar preso a ti, de tal forma que não me pudesse encontrar mais, perdido que ficava. E tu tanto que me gostavas.

Quero-te ainda. Sim. Sabes, apesar de nunca mais te ter visto, a minha essência ficou deserto, ainda te quero. Muito. Tanto, que me dói.

Nunca mais respirei fundo. Aquele fundo que era nosso. Poderoso.

Ainda te espero. Paro à beira mar, vejo o pôr do sol, na esperança que ainda apreças, e me abraces. Que me digas que não te vais mais.

Ainda o tenho, tu sabes que tenho. Ele ainda está nas minhas mãos. O meu está nas tuas. Coração ensanguentado. Desatado de tudo o mais. Acorrentado a ti.

Não quero mais ninguém. Nunca mais. Ninguém. Tu. Apenas. Só.

Achei que me salvava. Achei que me lavava da consciência pesada. Achei que te esquecia. Que o empo tudo apaga. Mas ficaste. E continuas como ontem. No peito dói. Sempre.

Como posso eu apagar esta história, retirar da memória. Tenho a alma dorida de te pensar. De tanto te precisar.
Preciso que me voltes. Que me digas que não te vais.
Ver-te e respirar-te.

Para não mais deixar de amar-te.

Chocamos Tu e Eu





sei que não vais mudar dentro da ilusão,
mas queres parar por ser bom saber que há a minha mão para descansar,
para te esconder e não mostrar.

vem, não vou perguntar se não queres dizer, ahh deixa ser,
o que é bom sentir, só mais uma vez quase sem tocar.
para respirar, só mais uma vez. quando eu não quis ver fui a deslizar,
quando ninguém quis parar, cresceu.
e então chocámos tu e eu, e então chocámos tu e eu.
ahh, diz-me onde estás, vou ter aí. já sem razão para desculpar,
já sem saber para onde ir, para te fugir, para me esquivar, não me destruir.
quando eu não quis ver fui a deslizar, quando ninguém quis parar, cresceu.
e então chocámos tu e eu, e então chocámos tu e eu, e então chocámos tu e eu.

hoje vais dizer que já não tens paz, hoje vens pedir para te ensinar.
quando ninguém viu, quando a chuva cai o rio cresceu, e então chocámos tu e eu.
e então chocámos tu e eu.
e então chocámos tu e eu.

sei que não vais mudar e que eu vou partir,
eu quero alguém que me queira bem para me construir

Composição: Tiago Bettencourt

26.5.14

Intensidades



Há saudade no canto que me trazes
mas nem sempre a espera é dolorosa
Que de entre essas notas me fazes
a mais completa de entre todas as aves

No céu mais longínquo de todos os azuis
serão minhas, asas infinitas

Lembranças de conquistas e abraços
de lágrimas caídas nos regaços
de croações feitos em pedaços
resgatados e trazidos novamente
resgatados e renascidos
batendo agora intensamente

Sabendo tu, que serei teu para sempre

23.5.14

Se Eu Voltar





Às vezes pergunto que mais te hei-de eu fazer,
Tanto orgulho ferido, tanta paz por vencer.
Às vezes detesto o que resta de mim,
Sempre longe do mundo, sempre perto do fim.
Eu só quero que tu saibas quem sou,
Ter a certeza que o meu tempo chegou,
Quero que me digas para partir ou ficar.

Se eu voltar atras
Sera que dizes que sim outra vez,
Tomas conta de mim de vez em quando,
Se eu voltar.

Ja cantei as palavras, e as pedras do chao,
Pelas ruas estreitas vendi toda a razao.
Ja te disse poemas que nao quis escrever,
Foram gritos apenas que nao soube conter.
Eu só quero que tu saibas quem sou,
Ter a certeza que o meu tempo chegou.
Quero que me digas para partir ou ficar.

Composição: Pedro Abrunhosa

Fairy



Counting healthy peaces
counting empty spaces
from the soul

 surrounded by full
apathy
no space behind

 growing strength from
nothing
glimpses of light in
darkness

 this is the entire
story
of a fairy
harmless

Image from appszoom