Vai, minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade, a realidade
É que sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza, e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços
Hão de ser milhões de abraços apertado assim
Colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De viver longe de mim
Não quero mais esse negócio
De você viver assim
Vamos deixar desse negócio
De você viver sem mim
Como pudeste tu cometer o crime da felicidade
quando todos estão na lama.
Nesta lama de destino e saudade.
Saudade de um
tempo que ainda não aconteceu.
De um tempo que já lá vai,
longe demais.
Como pudeste tu cometer este crime e sorrires,
quando os que te olham só têm água que lhes saia dos olhos. Como podes tu sentires-te feliz, que atrocidade. Não há cidade que te recolha tamanho é o teu crime.
Subscrevo as palavras que disseste. Nem uma vírgula mais. Nem um ponto final menos. Que por menor capacidade de expressão não o saberia dizer melhor do que o fizeste.
O que me deste. E agora trago. É teu. Ainda. Deste-mo, é certo, mas tu vieste com ele para dentro do meu. E agora tento explicar aquilo que não tem descrição. Como posso eu exteriorizar isto que não tem forma nem volume. Que não há maneira de agarrar, embora seja mais sólido que todos os sólidos mais densos.
Era isto que procurava sabes. Era disto que muitas vezes te falava. Não, não falava. Não há forma de falar sobre isto. Esta, esta, esta coisa que se sente e não se sente. Que prende e ao mesmo tempo liberta. Isto que não tem explicação.
Era por isto que te queria. Por este pedacinho de sentimento que não se descreve, e no entanto faz toda a diferença. Diferença de te querer sempre e para sempre do meu lado.
Não entendo
não me contento em ver-te
quero ter-te
quero perder-me em ti
e em tudo que seja teu
quero saborear
esse sal que trazes nos lábios
Essa loucura controlada
quero desamarra-la
derrubar esse muro que nos separa
condensar-nos no interior duma muralha
Gaurda-me dentro desses afectos
para que nunca mais te falte.
Deseja-me ardentemente
para que o fogo não se apague.
Respira-me intensamente
para que o ar não falte
e o peito não te aperte.
Seria hoje que me perderia em ti
nada feito
deste jeito não voltará o tempo
esse que ficou suspenso
naquele beijo
naquele olhar
Naquela varanda sobre o mar
pôr do sol morno
sentimento de retorno
Não posso deixar
que este sol se apague
por mais que a noite venha
e a lua se apodere do céu
Não deixarei que este luar
ilumine menos que o sol
que se deitou sobre o mar.
Ouvi o texto muito ao longe
era o teu corpo na demanda
não me parecia escrito hoje
mas hoje quis tarefa branda
a de curar a ferida ao sol
no claro-escuro da varanda.
E só depois
para já depois, ao certo
mas fiz ao corpo teu por perto
ouvindo o texto muito ao longe
escrevinhando o sol bate hoje
cartas de amor como o sol manda
vermelho caixa aço pintado
destinatário demasiado
na virtual ida ao deserto.
Escrevi ao corpo teu por perto
na quente pelo como o sol manda
real regresso do deserto
a tua pele muito ao de longe
era o meu texto na demanda
não me parecia escrito hoje.
Ouvi o texto muito ao longe
não me parecia escrito hoje.
Sabes que me assustas quando olhas com essa profundidade em mim. Não há nada que me assuste mais.
Porque é nesse momento que me prendes para sempre. É nesse momento que me tens eterno.
Assusta-me a luz com que ficas depois de fazermos amor. Também eu a sinto dentro de mim. Levo sempre um pedaço dela quando me vou. Assusta-me isso. Assusta-me como ficas impregnada nas minhas narinas, como a marca do teu corpo se permanece nas palmas das minhas mãos. Assusta-me como te ficas debaixo da pele.
E mais ainda. Assusta-me como me prendes sem que me amarres. Sou livre mas eternamente teu escravo. Farias de mim aquilo que quisesses. Ainda fazes se o disseres.
Assusta-me ainda mais agora. Agora que acordo e te sinto falta. Agora que abro os olhos na esperança de te ver ao meu lado. Agora que me deito na esperança de me cruzar contigo algures fora deste espaço. Agora que não durmo. Agora que as noites são demasiado longas, depois daquela, demasiado curta.
Sentes. É este calor que quero que te lembres
quando não estiver dentro de ti. Fica mais um pouco. Sente. Sente até não
conseguires entender mais nada, e seres apenas o que sentes. Sente até que esse
tremor te tome por completo. Sim, perde o controlo, todo.
Treme nos meus braços. Baloiça nestas
lembranças.
Dá-me a tua mão. Fecha os olhos.
Deixa-me imprimir na memória do teu tacto, a
forma do meu corpo. Sentes. Não deixes que as tuas mãos se esqueçam.
Deixa-me sentir-te. Deixa que as minhas mãos
naveguem nesse teu mar ondulante. Deixa que elas percorram todo e cada pedaço
da tua pele.
Agora respira. Não te esqueças. Este é o nosso
cheiro. O cheiro do sexo. O cheiro do nós. O que somos está nessa essência. Não
te esqueças.
Sente. Guarda esse arrepio que a minha língua
te provoca. Guardo eu o sabor da tua boca.
E agora adormece. Deixa que te embale. Para que
nos possamos permanecer eternos.
Não tenhas medo. Vou estar sempre aqui, do teu
lado. Serei o teu guardião alado.
Hoje acordei com sede. Sede de nós, quando nos encontrávamos às escondidas, para que não nos julgassem, para que não nos acusassem daquilo que nós éramos.
Acordei com o corpo dormente. Passado tanto tempo ainda te ressaco, ressaca que faz doer o corpo, mas ainda mais a alma. A dor da alma é a pior de todas.
Continua a custar respirar, como se tivesse fumado 50 cigarros de uma vez. O peito ainda se me aperta. E neste aperto é que acordei. Nos lençóis ensopados naquilo que foi o nosso encontro.
Hoje acordei recortada, com a falta do teu corpo no meu, com a marca detalhada das tuas mãos em cada centímetro de pele por onde passaram.
Que faço com isto. E agora, que faço eu com isto. Mastigo. Engulo. Cuspo. Regurgito.
Retorno. Devolvo-te. Entrego-te isto que me deixaste, não quero nem preciso.
Fica, podes voltar a precisar de a usar. Esta droga não se esgota, estás à vontade. Eu é que não a quero mais, já bebi o suficiente. Já tive a pedra suficiente para que me baste.
Vou-me. A reabilitação está concluída. Porque a sede com que me acordaste, já não existe mais.
Ela tinha a cabeça às voltas, não conseguia pensar, não dava para organizar os pensamentos, sentia-se como se estivesse no meio de uma tempestade, tudo vinha ao mesmo tempo e nada fazia sentido, aquela sensação de euforia misturada com uma apatia descontrolada, não conseguia reagir.
O que é que estou a fazer, por que caminho me estou a meter, isto vai correr mal... isto vai correr muito mal... E o que é que ele tem na cabeça para me fazer isto. Ele sabe os riscos que corremos. Estou a perder-me. E agora o que é que eu faço com isto.
Ele abraçou-a, ela gelou, não conseguia controlar a respiração, quase entrou em pânico, as pernas tremiam, o coração explodiu de palpitação, mas deixou-se ficar naquele abraço, sabia tão bem estar nos braços dele.
Ele olhou-a nos olhos, com os dedos puchou uma madeixa de cabelo para o lado. Olhou-a novamente e aproximou-se em direcção da sua boca, ela conseguiu desviar a tempo. Abraçaram-se ainda com mais força e ela petrificou por completo, não se mexia nem um milimetro, embora tivesse tremor de terra no peito (mas ele não podia saber).
Chovia. Ficaram debaixo do guarda chuva por momentos, como se o tempo estivesse suspenso, à sua volta as pessoas continuavam a passar apressadas, sem que dessem conta da revolução que acontecia mesmo ali do lado, entre aqueles dois desconhecidos que se abraçavam como se despedissem.
Ela olhou-o com esforço para não chorar.
O mundo pode acabar amanhã. Disse ele novamente tentando beija-la. Ela afastou-o.
Não te quero voltar a ver. E fugiu. Andou horas pela cidade, sozinha, até encontrar um banco. Sentou-se, mesmo no molhado, não se importou, o seu mundo tinha acabado.
Alvorada que me corta, que me arranca do peito o coração. Este que já não é meu desde que me cruzei com essas amêndoas negras. Negras. Negras são minhas noites por não poder ter-te em mim.
Somente a lembrança do calor desse teu peito. Montanhas quentes em que me deitei.
Voltarás tu, oh minha Musa. Minha Deusa. Minha Afrodite. Não te esqueço mais. Não importa o tempo que se passe em mim. Não te perco mais. Não importa, não se apaga a tua memória na minha pele.
Pele. Esta pele que te pede ainda. Por dentro, toda ela se forma em ti, para sentir-te. Absorvi-te. Minha Deusa, minha Afrodite. Dissolveste-te na minha essência.
Formaram-se todas as noites numa só. Naquela. Numa. A nossa. Formaram-se todos os sentidos. Deixou-se existir a eternidade, apenas sentida, suspensa. E nela nos abandonamos para sempre, que sempre a ela pertencemos.