13.8.14

A Viagem - Terceira




O vosso projecto é ambicioso.

Tinha de ser. É um plano um tanto ao quanto complexo, mas temos tudo preparado para que resulte.

E ela, estava ansiosa com a tua partida, deu para sentir do portão, quando saíste.

Sim. Ela costuma vir sempre na frente. É a primeira vez que faço este caminho. E como é um caminho mais difícil, ela ficou nervosa.

Ela vai fazer o caminho do  costume. 

Sim.

Vais ver que quando voltarem, vão estar ainda mais limpos. Gostava de ter a coragem de fazer essas escolhas.

Oh meu caro amigo, podes sempre faze-las, para a tua evolução.

Ah sim, claro que posso, mas é preciso uma boa dose de coragem. Eu não sei se conseguiria tanto de uma só vida.

António, os Lobos deram o alerta. Temos de desviar para o abrigo, e tem de ser agora, se não vamos ser apanhados.

Os guardiões que se encontravam mais à frente, voltaram para trás, António e Teodoro estavam mais reservados para poderem conversar. Teodoro ficou agitado. O guardião parecia preocupado.

Que se passa. 

Perguntou.

Vamos para o abrigo, logo veremos o que os Lobos nos dizem. Ainda temos tempo.

A longe no horizonte, via-se uma mancha negra. Aproximava-se rapidamente, como uma tempestade. Teodoro pensava em Madalena. Pelo menos o caminho dela era menos perigoso. Isso tranquilizava-o.

Desviaram do caminho principal, escoltados pelos Lobos seguiram rapidamente. De repente, pelo meio da vegetação apareceu uma espécie fortaleza de pedra. Não tinha tamanho definido, ele só lhe via os dois grandes portões que se abriram mal se aproximaram.

Assim que os portões fecharam, os Lobos comunicaram.

Vêm a caminho seres desprovidos de luz, não nos podemos cruzar com eles, seria demasiado nocivo para todos, principalmente para ti Teodoro, que é a primeira vez que passas por este lado e ainda não tens força suficiente para te protegeres. Mesmo para nós que temos experiência seria perigoso.

Vai demorar muito tempo.

Não te conseguimos dizer. Pode ser rápido. Mas também pode demorar muito tempo. Estas criaturas são imprevisíveis. Lamentamos muito dizer-te, mas não sabemos se te conseguimos deixar no ponto de encontro, a tempo de dar certo a tua entrada.

A Lena tinha razão… Se eu não entro ela vai ter uma passagem sozinha. Era o que eu menos queria…

Que foi Madalena.

Não sei. Tive um pressentimento. Um aperto no peito. Espero que a viagem do Teo esteja a correr bem.

Não te preocupes querida, isso é tudo ansiedade, vais ver que ele vai chegar ao ponto de encontro conforme está planeado.

Espero que sim madrinha, espero que sim…

Image from movie "Nosso Lar"

Kyo Dake Wa - Cartas de Amor #14



Só por hoje.

Só por hoje vamos abandonar a realidade. Só por hoje vamos deixar que as nossa almas se reconheçam e se reencontrem.

Só por hoje vamos abandonar o tempo e deixar que o espaço seja o que sempre foi. O nosso.

Porque só tu sabes o quanto te amo. Só eu sei o quanto me amas. Só. Apenas nós.

É este o nosso segredo. Saber que nos amamos. Sem tempo. Sem espaço. Sem amarras. Sem preconceitos. Somos livres em nós. Somos livres no nosso amor. É este o nosso alimento. É esta a nossa cura.

Só por hoje vamos deixar que as memórias nos venham relembrar dos tempos ancestrais em que nos amamos felizes. Só por hoje vamos trazer essa felicidade de novo a nós. Vamos respirá-la, reinventá-la, transformá-la. 

Só por hoje vamos ser Vida.

Só por hoje vamos anular tudo e vamos apenas ser o que somos. O que fomos, e o que seremos sempre.

Amo-te todos os dias até à eternidade. Meu Amor.

11.8.14

A Viagem - Segunda




Estás pronta Lena.

Sim.

Então é agora. Vamos.

Estou outra vez com aquela sensação sabes.

Não fiques, já sabes como é que isto funciona. Não podes estar com pensamentos negativos. Lembra-te, atrais aquilo que pensas. E aqui tens a vantagem de te poderes preparar de modo consciente para o que vais viver. Prepara-te para que o teu subconsciente seja forte durante a tua estadia. Limpa tudo muito bem, e deixa terreno fértil preparado e bem protegido, para quando o voltares a encontrar. Assim garantes que esse cantinho do teu coração ficará intacto até que te cruzes com ele, e não haverá perigo de falharem o que decidiram.

Sim , tens razão. Ás vezes fico a pensar como é que ele estará. Se a viagem com os guardiões está a correr bem.

Não temas. Já sabes que é sempre um pouco atribulada. Mas corre sempre bem. E para além disso, desta vez os Lobos estão com eles. Qualquer coisa que seja preciso eles actuam primeiro, sentem muito antes que nós.

Sim, é verdade. Os nossos guardiões chegaram, olha. Já estão no portão. Vamos então.

Lena, minha querida. Vai ser uma honra fazer esta caminhada contigo, convosco.

A honra será toda minha, madrinha.

Partiram.

7.8.14

A Viagem - Primeira




É agora. Tenho medo. Isto é tão assustador. Abraça-me.

É preciso. Já sabes o plano direitinho, não sabes.

De trás para a frente.

Pronto, então tudo certo. Não fiques com essa cara, se não é mais difícil. Tem de ser assim desta vez, já analisamos isto, lembras-te. Agora já não podemos voltar atrás. Eu vou na frente. Depois tu também desces. É logo a seguir.

Eu sei meu amor. Eu sei. Mas ainda vai demorar até nos cruzarmos. E se acontece alguma coisa. Basta uma coisa. Uma pequenina coisa.

Não tenhas medo. Já sabes como isto funciona. Já não é a primeira vez que o fazemos. Tudo está perfeitamente sincronizado. Não tenho dúvidas de que te vou reconhecer.

Então e se eu não te reconhecer.

Ah. Não te preocupes. Achas mesmo que eu me vou conter quando te vir. Ainda não dei um passo na direcção oposta de ti, e já te sinto tantas saudades. No dia em que os meus olhos cruzarem os teus, vou ter a certeza, e não vou descansar enquanto não te acordar. Está tudo certo meu amor. Vai parecer tudo muito doido. Mas tenho a certeza que vais acordar. Acordaste sempre. Confia.

Confio… Faz boa passagem. Encontramo-nos do outro lado. Meu Amor.

Os guardiões já se encontravam na entrada, à espera, mesmo do lado de fora da cancela. Ela não conseguiu conter as lágrimas. Já o tinham feito vezes sem conta, mas ficava sempre de peito apertado. Ele iria na frente, ao contrário do costume, era necessário que assim fosse desta vez. Ele abraçou-a, respirou fundo e sussurrou-lhe ao ouvido…

Amo-te todos os dias até à eternidade. Meu Amor.

E partiu.

30.7.14

Mil Anos Mil Vidas - Cartas de Amor #13



De dentro da pele nasce aquele aperto que já sabes. Passaram-se mil anos desde que nos amamos. E agora uma hora é mais eterna que todas as vidas que nos separaram.
Preciso daquele abraço. Aquele. Aquele que só tu sabes. Aquele me davas para respirarmos fundo. Aquele fundo. Aquele que só nós conhecíamos. Sabíamos.

Saboreávamo-nos. Naquele nosso sabor. Ainda o sinto na língua. Ainda te cheiro. E as minhas mãos ainda te sabem de cor. 

Sob a pele ainda tenho vestígios das cinzas que o nosso fogo deixou. Sob ela ainda se sente o calor. Sob ela ainda vivem aqueles pedacinhos de ti. Guardados. Religiosamente guardados.

Não te esqueço. Não te esqueci nunca. Nunca. Não te esquecerei jamais. Mais mil poderão vir. Oceanos de tempos e saudades. Que o meu espírito saberá sempre. Sentirá sempre o toque desse teu quente.

Tu. E só tu. Meu Amor.

Madalena.

10.7.14

Palavras - Cartas de Amor #12




Hoje não me apetece escrever. Apetece-me ver-te. As palavras continuam cá,  para ti, não querem escrever-se. Querem cantar-se. Querem sair directamente da minha boca, para o teu ouvido. Querem meus lábios conhecer os teus, para que deles possam beber todas as letras que se guardam para ti. 

Hoje não quero dizer com os dedos. Hoje quero falar com a língua. Na tua. Sem que para isso precise de as dizer. Palavras.

Palavras. Não as precisamos. Elas já são nossas. Na fusão das nossas energias elas já nos pertencem.

No reconhecimento de séculos vividos, entre tantas e tantas melodias. A nossa. Inconfundível. Apenas ela exprime a força que nos transforma no que somos hoje.

Assim. Hoje. Somos assim. E não importa o amanhã. Porque saberei que o seremos. Como sempre fomos.

Basta apenas um olhar, um sorriso e um abraço. E será toda a verdade docemente relembrada, sempre nossa.

Para sempre nossa.

Como sempre foi.

Photo from Wikimedia

9.7.14

Chega de Saudade




Vai, minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade, a realidade
É que sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza, e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços
Hão de ser milhões de abraços apertado assim
Colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De viver longe de mim
Não quero mais esse negócio
De você viver assim
Vamos deixar desse negócio
De você viver sem mim

Composição: António Carlos Jobim

7.7.14

Crime da Felicidade




Como pudeste tu cometer o crime da felicidade quando todos estão na lama. 
Nesta lama de destino e saudade. 
Saudade de um tempo que ainda não aconteceu.
De um tempo que já lá vai,
longe demais.


Como pudeste tu cometer este crime e sorrires, 
quando os que te olham só têm água que lhes saia dos olhos.
Como podes tu sentires-te feliz,
que atrocidade.
Não há cidade que te recolha
tamanho é o teu crime.

Photography: Peter Herbert

1.7.14

Não se explica - Cartas de Amor #11





Subscrevo as palavras que disseste. Nem uma vírgula mais. Nem um ponto final menos. Que por menor capacidade de expressão não o saberia dizer melhor do que o fizeste.

O que me deste. E agora trago. É teu. Ainda. Deste-mo, é certo, mas tu vieste com ele para dentro do meu. E agora tento explicar aquilo que não tem descrição. Como posso eu exteriorizar isto que não tem forma nem volume. Que não há maneira de agarrar, embora seja mais sólido que todos os sólidos mais densos.

Era isto que procurava sabes. Era disto que muitas vezes te falava. Não, não falava. Não há forma de falar sobre isto. Esta, esta, esta coisa que se sente e não se sente. Que prende e ao mesmo tempo liberta. Isto que não tem explicação.

Era por isto que te queria. Por este pedacinho de sentimento que não se descreve, e no entanto faz toda a diferença. Diferença de te querer sempre e para sempre do meu lado.

Aqui.

Eternamente.

Drawing by  Duma

26.6.14

Paredes



Não entendo
não me contento em ver-te
quero ter-te
quero perder-me em ti
e em tudo que seja teu

quero saborear
esse sal que trazes nos lábios
Essa loucura controlada
quero desamarra-la
derrubar esse muro que nos separa
condensar-nos no interior duma muralha

25.6.14

Just




I don’t know where I belong
Just wanna stay here, let me be
Be like no one
stay like nothing more

Today I don’t know myself
just don’t know where my soul is
Let me be here
let me stay
Just

Say nothing
feel nothing
be nothing

I hope
this pain to pass away
I hope
that fast
ends this day

nothing more
nothing less
just let me be
let me be
just

23.6.14

Guarda-me



Gaurda-me dentro desses afectos
para que nunca mais te falte.
Deseja-me ardentemente
para que o fogo não se apague.
Respira-me intensamente
para que o ar não falte
e o peito não te aperte.

Seria hoje que me perderia em ti
nada feito
deste jeito não voltará o tempo
esse que ficou suspenso
naquele beijo
naquele olhar

Naquela varanda sobre o mar
pôr do sol morno
sentimento de retorno

Não posso deixar
que este sol se apague
por mais que a noite venha
e a lua se apodere do céu

Não deixarei que este luar
ilumine menos que o sol
que se deitou sobre o mar.

Painting by Duma

Ouvi o texto muito ao longe




Ouvi o texto muito ao longe
era o teu corpo na demanda
não me parecia escrito hoje
mas hoje quis tarefa branda
a de curar a ferida ao sol
no claro-escuro da varanda.

E só depois
para já depois, ao certo
mas fiz ao corpo teu por perto
ouvindo o texto muito ao longe
escrevinhando o sol bate hoje
cartas de amor como o sol manda
vermelho caixa aço pintado
destinatário demasiado
na virtual ida ao deserto.
Escrevi ao corpo teu por perto
na quente pelo como o sol manda
real regresso do deserto
a tua pele muito ao de longe
era o meu texto na demanda
não me parecia escrito hoje.

Ouvi o texto muito ao longe
não me parecia escrito hoje.

Letra Sérgio Godinho
Voz Camané

20.6.14

Agora



Sabes que me assustas quando olhas com essa profundidade em mim. Não há nada que me assuste mais. 

Porque é nesse momento que me prendes para sempre. É nesse momento que me tens eterno.

Assusta-me a luz com que ficas depois de fazermos amor. Também eu a sinto dentro de mim. Levo sempre um pedaço dela quando me vou. Assusta-me isso. Assusta-me como ficas impregnada nas minhas narinas, como a marca do teu corpo se permanece nas palmas das minhas mãos. Assusta-me como te ficas debaixo da pele.

E mais ainda. Assusta-me como me prendes sem que me amarres. Sou livre mas eternamente teu escravo. Farias de mim aquilo que quisesses. Ainda fazes se o disseres. 

Assusta-me ainda mais agora. Agora que acordo e te sinto falta. Agora que abro os olhos na esperança de te ver ao meu lado. Agora que me deito na esperança de me cruzar contigo algures fora deste espaço. Agora que não durmo. Agora que as noites são demasiado longas, depois daquela, demasiado curta. 

Agora que a vida se faz demasiado longe de ti.

Agora que te perdi.

Photo from HuffingtonPost

Poema dos olhos da amada




Oh, minha amada
Que os olhos teus

São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus

Ah, minha amada
De olhos ateus

Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus

Composição: Paulo Soledade / Vinícius de Moraes
Versão: António Zambujo

18.6.14

Evenin' - Cartas de Amor #10



Sentes. É este calor que quero que te lembres quando não estiver dentro de ti. Fica mais um pouco. Sente. Sente até não conseguires entender mais nada, e seres apenas o que sentes. Sente até que esse tremor te tome por completo. Sim, perde o controlo, todo.

Treme nos meus braços. Baloiça nestas lembranças.

Dá-me a tua mão. Fecha os olhos.

Deixa-me imprimir na memória do teu tacto, a forma do meu corpo. Sentes. Não deixes que as tuas mãos se esqueçam.

Deixa-me sentir-te. Deixa que as minhas mãos naveguem nesse teu mar ondulante. Deixa que elas percorram todo e cada pedaço da tua pele.

Agora respira. Não te esqueças. Este é o nosso cheiro. O cheiro do sexo. O cheiro do nós. O que somos está nessa essência. Não te esqueças.

Sente. Guarda esse arrepio que a minha língua te provoca. Guardo eu o sabor da tua boca.

E agora adormece. Deixa que te embale. Para que nos possamos permanecer eternos.

Não tenhas medo. Vou estar sempre aqui, do teu lado. Serei o teu guardião alado.


Prometo. Não deixarei o teu coração destroçado.

Six Word Story

Then the world was not enough.

Sede


Hoje acordei com sede. Sede de nós, quando nos encontrávamos às escondidas, para que não nos julgassem, para que não nos acusassem daquilo que nós éramos.

Acordei com o corpo dormente. Passado tanto tempo ainda te ressaco, ressaca que faz doer o corpo, mas ainda mais a alma. A dor da alma é a pior de todas.

Continua a custar respirar, como se tivesse fumado 50 cigarros de uma vez. O peito ainda se me aperta. E neste aperto é que acordei. Nos lençóis ensopados naquilo que foi o nosso encontro.

Hoje acordei recortada, com a falta do teu corpo no meu, com a marca detalhada das tuas mãos em cada centímetro de pele por onde passaram.

Que faço com isto. E agora, que faço eu com isto. Mastigo. Engulo. Cuspo. Regurgito.

Retorno. Devolvo-te. Entrego-te isto que me deixaste, não quero nem preciso.

Fica, podes voltar a precisar de a usar. Esta droga não se esgota, estás à vontade. Eu é que não a quero mais, já bebi o suficiente. Já tive a pedra suficiente para que me baste.

Vou-me. A reabilitação está concluída. Porque a sede com que me acordaste, já não existe mais.

Matei-a para sempre.
Image from Pinterest

17.6.14

Misunderstandings




“I shall look at you out of the corner of my eye, and you will say nothing. Words are the source of misunderstandings." -from the Fox-”
Antoine de Saint-Exupéry, The Little Prince