26.8.14
A Viagem - Quinta
Uma dor forte no peito. Aquela dor. Um aperto. Doía-lhe todo ser.
Madrinha. Ele já sabe.
Madalena, minha querida. Já sabias que ia ser doloroso. Não podias fazer nada.
Sim, eu sei. Ele vai ficar tão magoado comigo.
Não estava sob teu poder decidires isso. Os conselheiros disseram que se ele soubesse antes de inicar a viagem, vocês não entrariam. Como combinamos com o António, ele só lhe daria a carta depois de inicar o processo de esquecimento, assim ele não terá qualquer hipótese de recuar. Tem fé.
Ele não vai aceitar...
Enquanto Madalena tentava aquietar a dor que sentia, entre alguma culpa por não poder ter contado a Teodoro o que se passara na reunião com os conselheiros…
Nãããããoooo. Como. Eu não aceito isto. Não pode.
Calma. Já sabes que ás vezes os planos mudam.
Não desta forma. Não quero entrar. Vamos voltar para trás. Quero ver a Madalena. Ela não podia aceitar isto.
Não podes voltar atrás agora. Primeiro. Se formos agora para trás, vamos apanhar os seres desprovidos de luz, e não queremo isso pois não. Há caminhos que não se podem fazer de volta. Depois de dares entrada, faremos um caminho de retorno diferente, temos algumas missões a cumprir para que não se desperdice a disponibilidade das pessoas deste grupo.
Mas eu não posso aceit....
Seguuundooo.O teu processo de esquecimento já foi iniciado. Já recebeste dois ciclos de passes para que o processo se desenvolvesse convenientemente. Não podes quebrar isso agora. Ser-te-ia extremamente prejudicial. E para além disso, há muita gente envolvida neste projecto. Tens pessoas à tua espera. Preparadas para a tua entrada. Entrada essa, que também faz parte dos planos delas. Não podes largar tudo e todos assim. Já sabes como é que funciona.
Mas eu não posso aceit....
Seguuundooo.O teu processo de esquecimento já foi iniciado. Já recebeste dois ciclos de passes para que o processo se desenvolvesse convenientemente. Não podes quebrar isso agora. Ser-te-ia extremamente prejudicial. E para além disso, há muita gente envolvida neste projecto. Tens pessoas à tua espera. Preparadas para a tua entrada. Entrada essa, que também faz parte dos planos delas. Não podes largar tudo e todos assim. Já sabes como é que funciona.
António. Como é que isto pode acontecer. Onde está o livre arbítrio. Nós temos uma palavra a dizer sobre isto. Eu, tenho uma palavra a dizer sobre isto. Agora entendo todo aquele nervosismo. Era normal ficarmos agitados antes destas viagens, mas ela estava diferente. Agora é que percebi.
Teodoro, acalma-te amigo. Bebe esta água. Vai-te fazer bem. Está magnetisada.
Teodoro bebeu a água, um tanto ao quanto contrariado. Acalmou-se. Acabou por adormecer, enquanto o curador se preparava para mais um ciclo de passes. Da próxima vez que acordasse, já não se lembraria da carta que lera, as suas lembranças começariam a ficar turvas, e a sua energia começaria a adensar-se para que ficasse pronto. Os Lobos já tinham tudo pronto para continuarem com o transporte, quando ele perdesse a consciência por completo.
Madrinha, tenho algum receio que a minha carta vá prejudicar o processo de esquecimento.
Não te preocupes Lena. Está tudo como devia estar. Está tudo no devido lugar.
Espero que sim madrinha, espero que sim.
25.8.14
Sinto
Sinto
que em minhas veias arde
sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paixões no coração.
Mulheres, por favor,
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.
Federico García Lorca, in 'Poemas Esparsos'
Tradução de Oscar Mendes
22.8.14
Quero - Cartas de Amor #16
Quero beijar-te lentamente. Fechar os olhos e respirar-te. Sentir o teu peito encostado no meu. Calar no teu calor toda a saudade.
Matar e desfazer os fios de tempo, para que nos colemos um no outro e nos transformemos num só.
Quero beijar-te docemente. Fechar os olhos e saborear-te. Sentir nos dedos o recorte do teu rosto. Calar esta ansiedade de te ter longe. Transformar o tempo em recanto nosso.
Quero beijar-te loucamente. Incendiar-nos até que nos tenhamos somente assim.
Quero arrepiar-me-te. Suavemente sentir todo o amor que nos trouxe até hoje.
Quero embarcar na loucura que ninguém entende. Nesta loucura de nos amarmos sem que ninguém saiba ou compreenda. Ninguém compreende. E não interessa que compreenda. É nosso. Só nosso. Este amor que não se explica. Este amor que nos explode do peito. Que nos puxa um para o outro.
Não interessa que ninguém entenda. Não interessa não. Porque palavras, para nós não são precisas.
Sabemo-nos. E é o bastante para que nos amemos.
Todos os dias, até à eternidade.
Meu Amor.
Image from giphy
21.8.14
Há dias assim
Há dias assim. Em que se acorda e se fica a vaguear nos pensamentos. Há dias em que se abre os olhos e se entra no sonho. Dias em que a realidade é mais forte enquanto se estava a dormir.
Há dias em que o coração se sobressalta quando a luz do dia entra pela janela do quarto. Há dias em que a escuridão do sono é bem mais confortável. Estável era ficar lá. Nos sonhos.
Há dias em que o vaguear de zombies se torna insuportável. Em que caminhar por entre estes rebanhos cinzentos se torna arrepiante. Revoltante.
Há dias em que os olhos teimam em fechar. Para lá voltar. Até onde me deixei. Dias em que só há vontade de acordar para a outra realidade. Aquela que nos sabemos verdadeira.
E nestes dias, não vale fazer de conta. Porque nestes dias o azul do céu não há. O verde do campo só está do outro lado da consciência. E nestes dias é melhor sermos como somos. Nestes e em todos os outros, temos de ser como somos. Mas nunca o somos. É. Paradoxo interessante, este de andarmos sempre a tentar parecer aquilo que não somos. Só porque todos os outros acham que devem ser o que não são. Para que aqueles que não se interessam pensem que são aquilo que não são.
Há dias assim. Cheios de insanidades. Pensamentos dissonantes. Passeios pela mente. Monólogos insessantes..
Sim. Há dias assim. Em que ninguém te vê. Embora te mostres como és. Ninguém te quer ver. Porque esperam que te mostres como não és. Para que no conforto do confronto, seja de fácil justificação, e dizerem apenas, Ah, é uma pessoa diferente.
Uma pessoa diferente.
Há dias assim. Em que ninguém me compreende.
Em que sou igual a toda a gente.
20.8.14
Preciso-te - Cartas de Amor #15
Preciso-te. Tanto que te preciso, que se me dói o corpo. Todo ele se me dói.
Preciso de te cheirar. Preciso de sentir o quente do teu abraço, e entranhar-me em ti. Sob todos os poros da tua pele transformar-me. Ser-me-te. Sermo-nos. Apenas nós. Mais nada.
Preciso-te. Preciso de saber que estou dentro de ti. Como te trago.
Preciso do teu olhar no meu. Nadar dentro deles. Nos teus olhos. Nesse oceano calmo. Mergulhar e deixar-me afogar. Deixar-me embarcar nestas lembranças. Doces lembranças.
Preciso-te. Tanto que te preciso. Muito. Tanto que a cada batida do meu coração, uma gota de sangue te lembra longe.
Preciso-te para continuar. Para respirar. Para poder olhar o horizonte. Sem ter de nele te procurar.
Preciso-te meu Amor. Preciso-te. Tanto. Tanto.
Não demores a voltar.
A Viagem - Quarta
Ela sorria. E para ele, aquele sorriso era como um farol aceso, iluminando tudo ao seu redor, inclusive ele. Sorria também.
Estás preparado.
Sim.
O seu coração batia a uma velocidade estonteante. Estou preparado. Eu sei que sim. Pensou.
Vai correr tudo bem, Meu Amor.
A sua voz ficou a fazer eco dentro do peito. Sentia-se feliz. Imensamente feliz. Ela esticou a mão. Ele esticou a dele na sua direcção…
Ah.
Acordou sobressaltado. Sentiu saudades. Uma profunda saudade quebrava-lhe no peito.
Teodoro. Desculpa acordar-te, mas temos de partir. Os Lobos já confirmaram que já podemos seguir viagem, e temos de sair agora, assim não nos atrasamos para a tua entrada.
Ah, que bom António, ainda bem. Eu já estava acordado.
Teodoro. Sabes que vai começar o teu processo de esquecimento. Vais ter de ter muita força. A partir de agora e até chegares ao ponto de encontro vais sofrer um pouco. Já sabes como funciona.
Sim, sei. É a fase que menos gosto, mas faz parte não é. Vamos a isso.
Ora assim é que se fala meu amigo. Os Lobos já estão prontos para continuarmos o caminho. Também já temos o transporte para quando começares a perder a noção do que te rodeia. Quando chegarmos vais estar no estado perfeito para fazeres a entrada. Quando acordares já estarás do outro lado. Está tudo preparado. Temos um curador conosco que vai iniciar o processo com os passes, e depois vai acompanhar-nos até à tua entrada, podes estar tranquilo, estás bem acompanhado.
Sim. tenho a certeza que vai tudo correr como planeamos, não tenho dúvidas.
Onde estarás tu, meu amor. Pensou. Madalena não lhe saía do coração, mesmo em sonhos. Era sempre difícil separarem-se. Era como que uma pequena morte, lenta e dolorosa. Até ao momento em que se reencontravam. Desta vez ele pediu permissão para que não se esquecesse totalmente, ela não sabia, não podia saber, se não o plano não resultaria. Sabia que iria tê-la sempre por perto, nem que fosse apenas durante o sono, mas ele estaria sempre do lado dela, mesmo sem que ela percebesse. Sabia que ela iria senti-lo. Tinha essa certeza, e isso deixava-o mais descansado.
Vai valer a pena, Madalena. Vai valer a pena.
Acordou sobressaltado. Sentiu saudades. Uma profunda saudade quebrava-lhe no peito.
Teodoro. Desculpa acordar-te, mas temos de partir. Os Lobos já confirmaram que já podemos seguir viagem, e temos de sair agora, assim não nos atrasamos para a tua entrada.
Ah, que bom António, ainda bem. Eu já estava acordado.
Teodoro. Sabes que vai começar o teu processo de esquecimento. Vais ter de ter muita força. A partir de agora e até chegares ao ponto de encontro vais sofrer um pouco. Já sabes como funciona.
Sim, sei. É a fase que menos gosto, mas faz parte não é. Vamos a isso.
Ora assim é que se fala meu amigo. Os Lobos já estão prontos para continuarmos o caminho. Também já temos o transporte para quando começares a perder a noção do que te rodeia. Quando chegarmos vais estar no estado perfeito para fazeres a entrada. Quando acordares já estarás do outro lado. Está tudo preparado. Temos um curador conosco que vai iniciar o processo com os passes, e depois vai acompanhar-nos até à tua entrada, podes estar tranquilo, estás bem acompanhado.
Sim. tenho a certeza que vai tudo correr como planeamos, não tenho dúvidas.
Onde estarás tu, meu amor. Pensou. Madalena não lhe saía do coração, mesmo em sonhos. Era sempre difícil separarem-se. Era como que uma pequena morte, lenta e dolorosa. Até ao momento em que se reencontravam. Desta vez ele pediu permissão para que não se esquecesse totalmente, ela não sabia, não podia saber, se não o plano não resultaria. Sabia que iria tê-la sempre por perto, nem que fosse apenas durante o sono, mas ele estaria sempre do lado dela, mesmo sem que ela percebesse. Sabia que ela iria senti-lo. Tinha essa certeza, e isso deixava-o mais descansado.
Vai valer a pena, Madalena. Vai valer a pena.
13.8.14
A Viagem - Terceira
O vosso projecto é ambicioso.
Tinha de ser. É um plano um tanto ao quanto complexo, mas temos tudo preparado para que resulte.
E ela, estava ansiosa com a tua partida, deu para sentir do portão, quando saíste.
Sim. Ela costuma vir sempre na frente. É a primeira vez que faço este caminho. E como é um caminho mais difícil, ela ficou nervosa.
Ela vai fazer o caminho do costume.
Sim.
Vais ver que quando voltarem, vão estar ainda mais limpos. Gostava de ter a coragem de fazer essas escolhas.
Oh meu caro amigo, podes sempre faze-las, para a tua evolução.
Ah sim, claro que posso, mas é preciso uma boa dose de coragem. Eu não sei se conseguiria tanto de uma só vida.
António, os Lobos deram o alerta. Temos de desviar para o abrigo, e tem de ser agora, se não vamos ser apanhados.
Os guardiões que se encontravam mais à frente, voltaram para trás, António e Teodoro estavam mais reservados para poderem conversar. Teodoro ficou agitado. O guardião parecia preocupado.
Que se passa.
Perguntou.
Vamos para o abrigo, logo veremos o que os Lobos nos dizem. Ainda temos tempo.
A longe no horizonte, via-se uma mancha negra. Aproximava-se rapidamente, como uma tempestade. Teodoro pensava em Madalena. Pelo menos o caminho dela era menos perigoso. Isso tranquilizava-o.
Desviaram do caminho principal, escoltados pelos Lobos seguiram rapidamente. De repente, pelo meio da vegetação apareceu uma espécie fortaleza de pedra. Não tinha tamanho definido, ele só lhe via os dois grandes portões que se abriram mal se aproximaram.
Assim que os portões fecharam, os Lobos comunicaram.
Vêm a caminho seres desprovidos de luz, não nos podemos cruzar com eles, seria demasiado nocivo para todos, principalmente para ti Teodoro, que é a primeira vez que passas por este lado e ainda não tens força suficiente para te protegeres. Mesmo para nós que temos experiência seria perigoso.
Vai demorar muito tempo.
Não te conseguimos dizer. Pode ser rápido. Mas também pode demorar muito tempo. Estas criaturas são imprevisíveis. Lamentamos muito dizer-te, mas não sabemos se te conseguimos deixar no ponto de encontro, a tempo de dar certo a tua entrada.
A Lena tinha razão… Se eu não entro ela vai ter uma passagem sozinha. Era o que eu menos queria…
Que foi Madalena.
Não sei. Tive um pressentimento. Um aperto no peito. Espero que a viagem do Teo esteja a correr bem.
Não te preocupes querida, isso é tudo ansiedade, vais ver que ele vai chegar ao ponto de encontro conforme está planeado.
Espero que sim madrinha, espero que sim…
Image from movie "Nosso Lar"
Kyo Dake Wa - Cartas de Amor #14
Só por hoje.
Só por hoje vamos abandonar a realidade. Só por hoje vamos deixar que as nossa almas se reconheçam e se reencontrem.
Só por hoje vamos abandonar o tempo e deixar que o espaço seja o que sempre foi. O nosso.
Porque só tu sabes o quanto te amo. Só eu sei o quanto me amas. Só. Apenas nós.
É este o nosso segredo. Saber que nos amamos. Sem tempo. Sem espaço. Sem amarras. Sem preconceitos. Somos livres em nós. Somos livres no nosso amor. É este o nosso alimento. É esta a nossa cura.
Só por hoje vamos deixar que as memórias nos venham relembrar dos tempos ancestrais em que nos amamos felizes. Só por hoje vamos trazer essa felicidade de novo a nós. Vamos respirá-la, reinventá-la, transformá-la.
Só por hoje vamos ser Vida.
Só por hoje vamos anular tudo e vamos apenas ser o que somos. O que fomos, e o que seremos sempre.
Amo-te todos os dias até à eternidade. Meu Amor.
11.8.14
A Viagem - Segunda
Estás pronta Lena.
Sim.
Então é agora. Vamos.
Estou outra vez com aquela sensação sabes.
Não fiques, já sabes como é que isto funciona. Não podes estar com pensamentos negativos. Lembra-te, atrais aquilo que pensas. E aqui tens a vantagem de te poderes preparar de modo consciente para o que vais viver. Prepara-te para que o teu subconsciente seja forte durante a tua estadia. Limpa tudo muito bem, e deixa terreno fértil preparado e bem protegido, para quando o voltares a encontrar. Assim garantes que esse cantinho do teu coração ficará intacto até que te cruzes com ele, e não haverá perigo de falharem o que decidiram.
Sim , tens razão. Ás vezes fico a pensar como é que ele estará. Se a viagem com os guardiões está a correr bem.
Não temas. Já sabes que é sempre um pouco atribulada. Mas corre sempre bem. E para além disso, desta vez os Lobos estão com eles. Qualquer coisa que seja preciso eles actuam primeiro, sentem muito antes que nós.
Sim, é verdade. Os nossos guardiões chegaram, olha. Já estão no portão. Vamos então.
Lena, minha querida. Vai ser uma honra fazer esta caminhada contigo, convosco.
A honra será toda minha, madrinha.
Partiram.
7.8.14
A Viagem - Primeira
É agora. Tenho medo. Isto é tão assustador. Abraça-me.
É preciso. Já sabes o plano direitinho, não sabes.
De trás para a frente.
Pronto, então tudo certo. Não fiques com essa cara, se não é mais difícil. Tem de ser assim desta vez, já analisamos isto, lembras-te. Agora já não podemos voltar atrás. Eu vou na frente. Depois tu também desces. É logo a seguir.
Eu sei meu amor. Eu sei. Mas ainda vai demorar até nos cruzarmos. E se acontece alguma coisa. Basta uma coisa. Uma pequenina coisa.
Não tenhas medo. Já sabes como isto funciona. Já não é a primeira vez que o fazemos. Tudo está perfeitamente sincronizado. Não tenho dúvidas de que te vou reconhecer.
Então e se eu não te reconhecer.
Ah. Não te preocupes. Achas mesmo que eu me vou conter quando te vir. Ainda não dei um passo na direcção oposta de ti, e já te sinto tantas saudades. No dia em que os meus olhos cruzarem os teus, vou ter a certeza, e não vou descansar enquanto não te acordar. Está tudo certo meu amor. Vai parecer tudo muito doido. Mas tenho a certeza que vais acordar. Acordaste sempre. Confia.
Confio… Faz boa passagem. Encontramo-nos do outro lado. Meu Amor.
Os guardiões já se encontravam na entrada, à espera, mesmo do lado de fora da cancela. Ela não conseguiu conter as lágrimas. Já o tinham feito vezes sem conta, mas ficava sempre de peito apertado. Ele iria na frente, ao contrário do costume, era necessário que assim fosse desta vez. Ele abraçou-a, respirou fundo e sussurrou-lhe ao ouvido…
Amo-te todos os dias até à eternidade. Meu Amor.
E partiu.
30.7.14
Mil Anos Mil Vidas - Cartas de Amor #13
De dentro da pele nasce aquele aperto que já sabes. Passaram-se mil anos desde que nos amamos. E agora uma hora é mais eterna que todas as vidas que nos separaram.
Preciso daquele abraço. Aquele. Aquele que só tu sabes. Aquele me davas para respirarmos fundo. Aquele fundo. Aquele que só nós conhecíamos. Sabíamos.
Saboreávamo-nos. Naquele nosso sabor. Ainda o sinto na língua. Ainda te cheiro. E as minhas mãos ainda te sabem de cor.
Sob a pele ainda tenho vestígios das cinzas que o nosso fogo deixou. Sob ela ainda se sente o calor. Sob ela ainda vivem aqueles pedacinhos de ti. Guardados. Religiosamente guardados.
Não te esqueço. Não te esqueci nunca. Nunca. Não te esquecerei jamais. Mais mil poderão vir. Oceanos de tempos e saudades. Que o meu espírito saberá sempre. Sentirá sempre o toque desse teu quente.
Tu. E só tu. Meu Amor.
Madalena.
10.7.14
Palavras - Cartas de Amor #12
Hoje não me apetece escrever. Apetece-me ver-te. As palavras continuam cá, para ti, não querem escrever-se. Querem cantar-se. Querem sair directamente da minha boca, para o teu ouvido. Querem meus lábios conhecer os teus, para que deles possam beber todas as letras que se guardam para ti.
Hoje não quero dizer com os dedos. Hoje quero falar com a língua. Na tua. Sem que para isso precise de as dizer. Palavras.
Palavras. Não as precisamos. Elas já são nossas. Na fusão das nossas energias elas já nos pertencem.
No reconhecimento de séculos vividos, entre tantas e tantas melodias. A nossa. Inconfundível. Apenas ela exprime a força que nos transforma no que somos hoje.
Assim. Hoje. Somos assim. E não importa o amanhã. Porque saberei que o seremos. Como sempre fomos.
Basta apenas um olhar, um sorriso e um abraço. E será toda a verdade docemente relembrada, sempre nossa.
Para sempre nossa.
Como sempre foi.
Photo from Wikimedia
9.7.14
Chega de Saudade
Vai, minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade, a realidade
É que sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza, e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços
Hão de ser milhões de abraços apertado assim
Colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De viver longe de mim
Não quero mais esse negócio
De você viver assim
Vamos deixar desse negócio
De você viver sem mim
Composição: António Carlos Jobim
7.7.14
Crime da Felicidade
Nesta lama de destino e saudade.
Saudade de um
tempo que ainda não aconteceu.
De um tempo que já lá vai,
longe demais.
Como pudeste tu cometer este crime e sorrires,
quando os que te olham só têm água que lhes saia dos olhos.
Como podes tu sentires-te feliz,
que atrocidade.
Não há cidade que te recolha
tamanho é o teu crime.
Como podes tu sentires-te feliz,
que atrocidade.
Não há cidade que te recolha
tamanho é o teu crime.
Photography: Peter Herbert
1.7.14
Não se explica - Cartas de Amor #11
Subscrevo as palavras que disseste. Nem uma vírgula mais. Nem um ponto final menos. Que por menor capacidade de expressão não o saberia dizer melhor do que o fizeste.
O que me deste. E agora trago. É teu. Ainda. Deste-mo, é certo, mas tu vieste com ele para dentro do meu. E agora tento explicar aquilo que não tem descrição. Como posso eu exteriorizar isto que não tem forma nem volume. Que não há maneira de agarrar, embora seja mais sólido que todos os sólidos mais densos.
Era isto que procurava sabes. Era disto que muitas vezes te falava. Não, não falava. Não há forma de falar sobre isto. Esta, esta, esta coisa que se sente e não se sente. Que prende e ao mesmo tempo liberta. Isto que não tem explicação.
Era por isto que te queria. Por este pedacinho de sentimento que não se descreve, e no entanto faz toda a diferença. Diferença de te querer sempre e para sempre do meu lado.
Aqui.
Eternamente.
Aqui.
Eternamente.
Drawing by Duma
26.6.14
Paredes
Não entendo
não me contento em ver-te
quero ter-te
quero perder-me em ti
e em tudo que seja teu
quero saborear
esse sal que trazes nos lábios
Essa loucura controlada
quero desamarra-la
derrubar esse muro que nos separa
condensar-nos no interior duma muralha
25.6.14
Just
I don’t know where I belong
Just wanna stay here, let me be
Be like no one
stay like nothing more
Today I don’t know myself
just don’t know where my soul is
Let me be here
let me stay
Just
Say nothing
feel nothing
be nothing
I hope
this pain to pass away
I hope
that fast
ends this day
nothing more
nothing less
just let me be
let me be
just
23.6.14
Guarda-me
Gaurda-me dentro desses afectos
para que nunca mais te falte.
Deseja-me ardentemente
para que o fogo não se apague.
Respira-me intensamente
para que o ar não falte
e o peito não te aperte.
Seria hoje que me perderia em ti
nada feito
deste jeito não voltará o tempo
esse que ficou suspenso
naquele beijo
naquele olhar
Naquela varanda sobre o mar
pôr do sol morno
sentimento de retorno
Não posso deixar
que este sol se apague
por mais que a noite venha
e a lua se apodere do céu
Não deixarei que este luar
ilumine menos que o sol
que se deitou sobre o mar.
Painting by Duma
Ouvi o texto muito ao longe
Ouvi o texto muito ao longe
era o teu corpo na demanda
não me parecia escrito hoje
mas hoje quis tarefa branda
a de curar a ferida ao sol
no claro-escuro da varanda.
E só depois
para já depois, ao certo
mas fiz ao corpo teu por perto
ouvindo o texto muito ao longe
escrevinhando o sol bate hoje
cartas de amor como o sol manda
vermelho caixa aço pintado
destinatário demasiado
na virtual ida ao deserto.
Escrevi ao corpo teu por perto
na quente pelo como o sol manda
real regresso do deserto
a tua pele muito ao de longe
era o meu texto na demanda
não me parecia escrito hoje.
Ouvi o texto muito ao longe
não me parecia escrito hoje.
Letra Sérgio Godinho
Voz Camané
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