15.10.14

Blindness

Oh so blind that I was indeed
So blind that I could not but bleed

With this blindness I blessed my days
Searching for something that could just taste
With this blindness I cursed it all
'cause only with my toutch I could see
how I was about to fall
for those who do not know
for those who can not feel
So this is it, so this is it

Oh so blind that I was indeed
So blind that I could not but bleed

Silêncios - Cartas de Amor #20




Hoje sobram-me silêncios. Faltam-me palavras. Tantas que te queria dizer. E ficam-se por aqui engasgadas na garganta. Entaladas. A meio caminho. Escondidas no silêncio. Nos silêncios. Os que me sobram. Sobram-me. Abundam-me estes silêncios.

Hoje não se constroem. Palavras. Nada me sai a não ser este silêncio.

Hoje sobram-me promessas de te contar contos. Sobram-se por aí, sem que as consiga controlar. 

Sobram-me monólogos incessantes. Silenciosos. Intermináveis.

Hoje não te falo. Olho-te. Isso é o bastante para que te diga tudo. O suficiente para que te ouça.

Silêncio. É o que me sobra. E não há som que o preencha para que te fale.

Mas não nos afastará este silêncio. Pois que no silêncio se contam as mais belas histórias. As que não se podem contar de nenhuma outra forma. Porque palavras seriam demasiadas para as dizer. As histórias.

Já os sentimentos. Esses não precisam de mais nada que não este silêncio que me sobra. Será ele. O silêncio. O melhor meio condutor deles. Os sentimentos.

Hoje sobram-me silêncios. O suficiente para que te fale sem dizer com a boca.

O suficiente para sentir a tua mão na minha.

E isso basta para que no silêncio nos oiçamos.

14.10.14

A verdade esquece-se



No fundo, toda a verdade se esquece.
Restam apenas escombros de sentimentos.
Uns mais fortes que outros.
Mas escombros.
Sempre.

Meras sombras. Sombras das luzes que já projectaram.

No fundo toda a verdade se esfumaça.
Restam apenas impressões.
As mesmas que marcarão conclusões incongruentes.
Qual história esqucida, por tradição contada.
Alterada.

No fundo. Apenas a saudade permanece.
Na memória como que um sonho,
com vontade de repetir-se. Reviver-se.

8.10.14

Paciência




Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é tempo
Que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo
Pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não

Será que é tempo
Que lhe falta pra percebe?
Será que temos esse tempo
Pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não

A vida não para

Composição: Lenine

3.10.14

A força das palavras

Terão as palavras força quando são ditas. Ou estará toda a força contida na intensão de as dizer. Força e palavras. Ditas. Ou por dizer, é mais assim.

Haverá por aí alguma relação entre elas. Falta saber onde se ligam, e onde se conduzem, para que uma possa justificar a outra. Ou melhor, para que uma possa conter a outra. Por qual ordem, falta saber.

Palavras. Ou apenas pseudo palavras balbuciadas, como que numa algaraviada desentendida, sem grande significado. Daí a dúvida. Qual a força. Onde a força. Na palavra. Na intensão de a dizer. Talvez esteja mais na intensão mesma. De as dizer. 

As palavras. Na intensão de as conversar. De as levar na direcção de alguém que esteja disposto a recebê-las. Nas conversas. Recebê-las nas conversas. Profundas ou apenas casuais. Mas assumo, com alguma presunção creio, que nas conversas profundas, se estabelecerá talvez a maior força delas. Das palavras. Que é delas que falo. Com elas.

Ah monólogo incessante. Um tanto ao quanto louco até. Pescadinha de rabo na boca. Dirão alguns. Sexo dos anjos. Dirão outros. 

Mas quebrar-se-ia todo o encanto de dizer palavras, e de as carregar com a força de uma intenção. Poderia dizer, Olá. Apenas. Mas essa simples palavra poderia dizer muito mais que apenas o som que a transporta. Poderia dizer o que ela se diz. Ou poderia dizer mais, carregando dentro dela a ansiedade de um, Pensava que não te voltava a ver. E nisto, a intensão tem de tudo, a maior força. Sim, lá está a força presente. Mas nada seria da força, se não fosse a intensão de a dizer. 

A palavra, neste caso.

1.10.14

Voyeur





Estavas ali. A luz do candeeiro de rua iluminava-te. Quase como que numa denuncia anónima, acusava a tua presença. 

Fumavas calmamente. E eu observava-te de longe, enquanto encostavas mais uma vez nesses lábios carnudos, a cigarrilha. Sim. Porque tu só fumas cigarrilhas. Eu sei. Eu reparo em tudo sabes. Tudo o que é de ti eu guardo na memória.

Lá fora, a rua continuava deserta. E tu, debaixo daquela luz. Parecia que esperavas alguém, mas não. Estavas. Só. Sempre gostaste de estar assim. Sozinha na noite.

Queria aproximar-me. Mas não queria quebrar aquela visão de ti tão deslumbrante. Era capaz de ficar horas assim, apenas  a observar-te debaixo dessa luz.

E o silêncio. E o resto de toda a noite continuava negra.

Apenas tu.

A cigarrilha.

E a luz do candeeiro.

29.9.14

A Viagem - Sétima



Meu Amor,

Não te poderia dizer estas palavras pessoalmente, sei que nunca concordarias comigo, mas os conselheiros disseram que seria melhor assim. Ainda os interroguei sobre o livre arbítrio, mas eles responderam que tudo está certo, que  tudo seria e correria como era esperado, e que o nosso plano seguiria em frente, a única alteração seria o tempo.

Não nos vamos encontrar nesta vida meu amor, dói-me muito, mas teremos de passar por outras coisas primeiro. Serão mil vidas,, meu amor, mil anos, mil vidas sem ti. Os conselheiros explicaram que para que aquilo que planeamos desse certo, teríamos de passar por outras experiências primeiro, se não seria muito complicado tudo dar certo como planeamos, certo que também te reuniste com eles, mas já sabes que os desígnios de Deus têm sempre os seus mistérios, e sabes sempre que tudo acontece por uma razão, e eu também sei que não irias aceitar tudo isto de bom grado… mas é necessário…

Não nos vamos esquecer totalmente de quem somos, de nós, dar-nos-ão esse presente. Durante o sono saberemos, e vamos lembrar-nos um do outro, para que o nosso amor permaneça forte, como sempre foi. E durante o dia, teremos sempre a serenidade de saber e sentir que somos amados.

Não passará um único dia que não te ame, não passará um único dia em que não caminhe na tua direcção. E o tempo, o tempo será apenas um pormenor na nossa história. Temos todo o tempo do mundo para nós. Todo o tempo para crescermos e continuarmos a nossa caminhada.

Tenho a certeza que tudo correrá bem, está tudo certo meu amor… está tudo certo.

Procurarei por ti, até ao dia em que me voltares a abraçar, nesse dia saberemos, nesse dia teremos a certeza de que somos nós, e que o nosso tempo chegou finalmente.

Amo-te, por todos os dias até à eternidade.

Sempre tua.

Madalena

Teodoro, oh meu caro Teodoro. Agora entendo a tua angústia, não te preocupes, terás todo o tempo do mundo para viveres com a tua Madalena. Este tempo será apenas mais uma prova, das muitas que já passaram. Todo este tempo só vai fortalecer o vosso elo, por muito contrário que pareça. Não temas meu caro amigo, não temas, estará tudo certo.

Teodoro já não ouvia o seu amigo. Estava já em início da fase de condensação, já faltava pouco para chegarem ao ponto de encontro, lá aconteceriam as últimas fases até o processo de entrada estar concluído. Madalena tinha dito a António que lesse a carta depois de Teodoro se esquecer, para poder dar-lhe o apoio necessário na fase final que, por norma, costuma ser a mais crítica.

Enquanto isso, Teodoro sonhava, contorcendo-se e chamando por Madalena… o curador que os acompanhava explicava o que estava a acontecer.

António, estamos a programar o sonho que o ajudará a permanecer em ligação com Madalena, durante este tempo ele chamará muito por ela, mas será normal. Depois de fazer a entrada, só voltará a ter este mesmo sonho no momento planeado. Até lá vão os dois esquecer-se, embora permaneçam ligados. Será mais eficaz assim…


Lena… Meu Amor…

25.9.14

Preciso Mentir Que Te Amo




Preciso mentir que te amo
Te dizer baixinho no ouvido
Te abraçar e fazer de conta
Que nesse amor não duvido

Preciso mentir que te amo
Os teus ombros... à frente
Esquecer que o amor que preciso
É cobarde, é valente.

Acordar de manhã
E fazer um café p'rá você
Abraçar-te com cuidado
E depois adormecer-te no meu porto

Dizer que só a teu lado
É onde não durmo sozinho
Olha me mostra o caminho
Pois ri que me amas

Preciso agora de um bem
Pode ser que amanha eu me esqueça
E a olhar da janela de um trém
Um novo amor me apareça

Acordar de manhã
E fazer um café p'rá você
Abraçar-te com cuidado
E depois adormecer-te no meu porto

Preciso mentir que te amo
Te dizer baixinho no ouvido
Te abraçar e fazer de conta
Que nesse amor não duvido

Eu preciso agora de um bem
Pode ser que amanha eu me esqueça
E a olhar da janela de um trém
Um novo amor me apareça

Acordar de manhã
E fazer um café p'rá você
Abraçar-te com cuidado
E depois adormecer-te no meu porto

Letra - Pierre Aderne
Música - Jorge Palma

24.9.14

Six Word Sotry

With you, I want it all.

Always In My Head









I think of you
I haven't slept
I think I do
But, I don't forget
My body moves
Goes where I will
But though I try my heart stays still
It never moves
Just won't be led

And so my mouth waters, to be fed
And you're always in my head

You're always in my head
You're always in my head
You're always in my head

You're always in my head
Always in my...
Always in my...

This, I guess, is to tell you you're chosen out from the rest...

Song by Coldplay

16.9.14

Realidade - Cartas de Amor #19

De dentro desta serenidade, reconheço-te. Amo-te profundamente, e aparentemente, não te tenho.

Amar é deixar partir, sem ir atrás. O amor que nos une é mais que uma mera distância, essa, a mera distância, é apenas um pequeno pormenor. Não será nem a distância, nem o tempo que nos falhará.

E sim, não tenho medo de dizer que te amo, e vou dizê-lo as vezes que o sentir a estalar-me de dentro do peito, as vezes que se expandir e me levar até ti. Mesmo que não o ouças. Mesmo que não o saibas. Ou penses que não o sabes. Porque tu sabes. Sabes bem a força do que nos une. Melhor do que eu até. Muito mais lucidamente que eu, sim.

Por isso não me dói, não te ter. Não és meu. Não sou tua.

Sabemo-nos. Pertencemo-nos.

Não será diferente do que tiver que ser.

A vida encarregar-se-á de o fazer acontecer.


Madalena

11.9.14

A qualquer instante

Pressinto o respirar da tua consciência.
Sinto cada toque do teu pensamento,
cá dentro,
onde estás.

Viajo para o nosso tempo,
e respiro a magia que me trás,
eu sei…
a qualquer instante voltarás.

10.9.14

A Viagem - Sexta

Silêncio. Silêncio suave. Era deste silêncio que Teodoro gostava. Uma imensidão de paz e silêncio.

Bater de asas, ouvia apenas isso. Voava agora nas costas de um dragão alado. Sorria. Sentia-se em paz. Era livre. Madalena voava ao lado dele, as suas asas brancas brilhantes eram gigantescas, faziam-na parecer um anjo. Ela sorria também. E do seu sorriso podia ler-se um, Amo-te. Tranquilo e sereno. Voaram sobre vales e montes, lagos tão calmos que eram espelhos autênticos. Neles viram todas as vidas. Todos os momentos em que se conheceram pela primeira vez. Todos os sorrisos. Todas as lágrimas. Todos os abraços. Todos os Amo-te.

De repente, Teodoro começou a cair, o dragão desaparecera. Madalena voava na sua direcção de braços estendidos, tentava agarrar-lhe as mãos. Pareciam tão próximas e ao mesmo tempo tão difíceis de alcançar…

Teo. Agarra as minhas mãos. Teo. Meu amor. Olha para cima. Agarra as minhas mãos.

Mas Teodoro não reagia. Parecia ter perdido a consciência. E Madalena batia as suas asas com toda a força que tinha, na esperança de conseguir amparar o seu amor.

TEO. TEO. AGARRA…

Calma Lena, foi só um sonho querida.

Madrinha. Que sonho mais estranho. Ele estava a voar em cima de um dragão, e depois eu tinha umas asas brancas gigantes. Mas ele começou a cair, e eu não o conseguia agarrar…

Calma, respira fundo. Foi só um sonho. Estás ansiosa com toda a viagem, é normal que tenhas esse tipo de sonhos. Principalmente depois das alterações que fizeram aos vossos planos.

Madrinha, tenho medo de não conseguir. Vou esquecer-me. Como vou aguentar isso. Será que fiz bem em aceitar este plano…

O vosso amor é mais forte que tudo. Nunca nos é dado nada que exceda as nossas capacidades. E só te vais esquecer através do corpo. O resto permanecerá intacto. E tenho a certeza que ele te vai amparar minha querida. E para além disso, vou interceder por vós, para que possam ter alguns momentos de lucidez pelo caminho. Assim terão mais garantias que tudo corre como planeado.

Sim. Ele nunca me abandonou. Mesmo quando pensava que estava desamparada e sozinha. Ele esteve sempre do meu lado. Nunca foram precisas explicações para o nosso amor. Era apenas estar lá. Do lado.

Vês. Acabaste de te responder. Ele ama-te. Não tenhas receio de nada. Ele não te vai abandonar. Vai ficar do teu lado como sempre esteve. E agora vamos preparar-nos. Temos algum tempo de caminho até chegarmos ao centro de apoio. Temos algum trabalho a fazer por lá. Enquanto descansavas recebi a mensagem de que necessitam da nossa ajuda.

Ainda bem. Pelo menos vou ficar um pouco aliviada desta ansiedade. 

Pelo caminho, Madalena pensava em Teodoro. Colocou as mãos sobre o coração e com toda a sua força enviou-lhe o seu amor, para que a sua entrada fosse o mais suave possível. Em simultâneo enviava-lhe pensamentos…

Até à eternidade Meu Amor… até à eternidade. Esta vai ser apenas mais uma etapa. Amo-te.

4.9.14

Ausência - Cartas de Amor #18

Não te sinto ausência. Pois ouço-te no teu silêncio. Não te sinto longe. Carrego-te. Dentro.

Por quantas palavras viajamos até que nos tocássemos. E agora. Não importa mais. Já nos temos. Já nos somos. Não é preciso mais caminhar. Nem preciso é, olhar para longe na esperança de te encontrar. Estás aqui do meu lado. Isso me basta. Não são precisas sílabas que se juntem, nem som que se comunique com elas. Basta sentir-te assim. Como agora.  E tudo está certo.

No lugar. No lugar onde deveria estar. Tudo. Ordenadamente correcto. Dentro de toda a harmonia exacta, dentro deste caos de loucura que nos embala.

Sabes-me. Sei-te. Tens-me. Tenho-te.

Agora. E sempre.


28.8.14

Serena



Gosto de te ver, pele ao sol,
salgado corpo que te moves
Areia morna
pés molhados

Gosto quando choves em mim
e de mim fazes o que idealizas

Gosto de te ver, pele morena
gosto de te ter para mim
Arrepia no toque da água fresca
delícia...
serena...

Drawing by Duma

27.8.14

Certezas - Cartas de Amor #17



Procurei-te por tantas vidas. Procurei-te desde que nasci. Procurei-te em todas as pessoas que se me cruzaram na vida. Na esperança de que fosses tu. Procurei-te. Por entre medos e dores. Esperanças escondidas.

Vai aparecer, não desistas de procurar. Esta voz. Não se calou nunca.

Procurei-te sempre. Todos os dias. Na certeza de que um dia te revelarias, mais perto. Muito perto.

Vou continuar a caminhar na tua direcção. Sei onde me esperas.

Tudo o que quisemos que fosse. Será. No exacto ponto do tempo e do espaço.

Vou continuar a caminhar na tua direcção. Na certeza que te encontrarei no lugar que marcamos. Na certeza de que quando nos abraçarmos, não haverá mais dúvidas. Nada. Ninguém. Nem mesmo os astros do universo nos tirarão essa certeza.

Por quantos olhares mergulhei em apneia, na esperança de te saber. Por quantas peles cheirei, na esperança de te reconhecer. Quantas histórias contei para mim, nas certeza de que serias tu.

Caminharei para ti. Sempre.

Meu Amor.

Image from Pinterest

26.8.14

Six Word Story

There was hope. It was beginning.

A Viagem - Quinta




Uma dor forte no peito. Aquela dor. Um aperto. Doía-lhe todo ser.

Madrinha. Ele já sabe.

Madalena, minha querida. Já sabias que ia ser doloroso. Não podias fazer nada.

Sim, eu sei. Ele vai ficar tão magoado comigo.

Não estava sob teu poder decidires isso. Os conselheiros disseram que se ele soubesse antes de inicar a viagem, vocês não entrariam. Como combinamos com o António, ele só lhe daria a carta depois de inicar o processo de esquecimento, assim ele não terá qualquer hipótese de recuar. Tem fé.

Ele não vai aceitar...

Enquanto Madalena tentava aquietar a dor que sentia, entre alguma culpa por não poder ter contado a Teodoro o que se passara na reunião com os conselheiros…

Nãããããoooo. Como. Eu não aceito isto. Não pode.

Calma. Já sabes que ás vezes os planos mudam.

Não desta forma. Não quero entrar. Vamos voltar para trás. Quero ver a Madalena. Ela não podia aceitar isto.

Não podes voltar atrás agora. Primeiro. Se formos agora para trás, vamos apanhar os seres desprovidos de luz, e não queremo isso pois não. Há caminhos que não se podem fazer de volta. Depois de dares entrada, faremos um caminho de retorno diferente, temos algumas missões a cumprir para que não se desperdice a disponibilidade das pessoas deste grupo.

Mas eu não posso aceit....

Seguuundooo.O teu processo de esquecimento já foi iniciado. Já recebeste dois ciclos de passes para que o processo se desenvolvesse convenientemente. Não podes quebrar isso agora. Ser-te-ia extremamente prejudicial. E para além disso, há muita gente envolvida neste projecto. Tens pessoas à tua espera. Preparadas para a tua entrada. Entrada essa, que também faz parte dos planos delas. Não podes largar tudo e todos assim. Já sabes como é que funciona.

António. Como é que isto pode acontecer. Onde está o livre arbítrio. Nós temos uma palavra a dizer sobre isto. Eu, tenho uma palavra a dizer sobre isto. Agora entendo todo aquele nervosismo. Era normal ficarmos agitados antes destas viagens, mas ela estava diferente. Agora é que percebi.

Teodoro, acalma-te amigo. Bebe esta água. Vai-te fazer bem. Está magnetisada.

Teodoro bebeu a água, um tanto ao quanto contrariado. Acalmou-se. Acabou por adormecer, enquanto o curador se preparava para mais um ciclo de passes. Da próxima vez que acordasse, já não se lembraria da carta que lera, as suas lembranças começariam a ficar turvas, e a sua energia começaria a adensar-se para que ficasse pronto. Os Lobos já tinham tudo pronto para continuarem com o transporte, quando ele perdesse a consciência por completo.

Madrinha, tenho algum receio que a minha carta vá prejudicar o processo de esquecimento.

Não te preocupes Lena. Está tudo como devia estar. Está tudo no devido lugar.

Espero que sim madrinha, espero que sim.

25.8.14

Sinto



Sinto
que em minhas veias arde
sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paixões no coração.

Mulheres, por favor,
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.


Federico García Lorca, in 'Poemas Esparsos' 
Tradução de Oscar Mendes

22.8.14

Quero - Cartas de Amor #16



Quero beijar-te lentamente. Fechar os olhos e respirar-te. Sentir o teu peito encostado no meu. Calar no teu calor toda a saudade.

Matar e desfazer os fios de tempo, para que nos colemos um no outro e nos transformemos num só. 

Quero beijar-te docemente. Fechar os olhos e saborear-te. Sentir nos dedos o recorte do teu rosto. Calar esta ansiedade de te ter longe. Transformar o tempo em recanto nosso.

Quero beijar-te loucamente. Incendiar-nos até que nos tenhamos somente assim.

Quero arrepiar-me-te. Suavemente sentir todo o amor que nos trouxe até hoje.

Quero embarcar na loucura que ninguém entende. Nesta loucura de nos amarmos sem que ninguém saiba ou compreenda. Ninguém compreende. E não interessa que compreenda. É nosso. Só nosso. Este amor que não se explica. Este amor que nos explode do peito. Que nos puxa um para o outro.

Não interessa que ninguém entenda. Não interessa não. Porque palavras, para nós não são precisas. 

Sabemo-nos. E é o bastante para que nos amemos. 

Todos os dias, até à eternidade.

Meu Amor.

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