Sabes, ás vezes fico a olhar para o infinito. Sem saber muito bem como me perdi, ou quando me perdi.
Talvez saiba. Sei. Sim. Claro que sei quando me perdi. Foi no dia em que te vi pela primeira vez. Foi esse o dia do início da minha perdição. Do meu pecado. Tu.
Foi no preciso momento em que os teus olhos bateram em mim, qual arma mortífera apontada ao seu alvo. Invariavelmente caí. Acho que ainda não me levantei. Acho não. Sei que não me levantei. Nem nesse dia, nem em todos os que se seguiram. Neles, rastejei até te conseguir apanhar. Sim. Apanhei-te. E prendi-te na minha rede.
Resgatei-te desse mar em que te via à deriva. E prendi-te. Envolvi-te o mais que pude. Saboreei-te. Consumi-te o mais que consegui. Até entrar em overdose. Mas não era suficiente. Overdose era pouco para tanta vontade. Desejo. Consumi-te até rebentar. Sempre. Muito.
Tu. Muito. É isso que tu és. Tu és sempre muito. Tudo muito. Absurdamente muito. Overdose. Mais que muito.
E agora. Continuas a ser muito. A estar muito. Longe.
A esticar esta corda que se me sai do peito até ti. Muito. Esticada até à exaustão da dor. Muita. A dor. E ela consome-me. A dor. Corrói-me. Essa maldita dor. Que ficou. Quando te foste. Esta dor que não me larga. Que me amarga a boca sempre que te penso.
Agora que faço. Se não te voltas mais para este lado. Se os teus olhos já não encontram em mim um alvo. Gostava de o ser sabes. Alvo. Pronto a ser perfurado por esse olhar terrível que eu tanto adoro.
Ainda sim. Falo no presente. Porque é a minha verdade. A tua presença ainda aqui está. Todas as noites que me deito. Ao lado dela. Não a sinto. Mas a ti. Tu. Estás mais do que aqui. Entranhada em mim de tal modo, que não me contenho em te gritar. Para dentro. Grito-te para dentro. Muito. Como tu. Na esperança de que um dia me ouças. E me possas voltar a abater com esses olhos.
Olhos que queimam como cigarros. Eu sei que eles continuam iguais. Faz com que eles se voltem para mim. Só mais uma vez.
E que me possam abater. Sim. Que me possa incendiar. E que neles, possa eu morrer.
Para que nunca mais precise de cá voltar.



