20.5.15

No Silêncio que Cura




Por vezes, uma presença silenciosa é suficiente para curar uma ferida. Ou muitas. Não é preciso mais nada. Presença. Só isso. Saber que está ali. Aquela pessoa. A nossa força. Uma força de silêncio. Na maioria das vezes, bastante mais forte que todas as outras. 

Como tu sabes. Continuo aqui. Do teu lado, no meu silêncio. A observar-te. E em silêncio te vou curando e amparando. Tu sabes, estou aqui. Como sempre estive. Não é preciso falar, pois que das palavras pouco de útil nos sai. Mas no silêncio, no silêncio tudo se diz, tudo se nos transpira. Perfeito.

E continuo aqui. Sim. Continuo aqui, no meu silêncio. A coser, e a fechar essas chagas que teimam em rebentar em sangramentos por tão pequenas coisas. Não te culpes. Tudo está certo. No devido lugar.

Hoje pensaste-me. Tiveste-me saudades. Wish you were here. Tão bonita essa tua chamada por mim. Sabes que te fui abraçar nesse preciso instante. E também sabes que te tenho sempre nos meus braços. Eu, e todos que cá estamos para ti. Em silêncio.

Porque é neste silêncio que permanecemos fiéis, no cumprir deste pacto que fizemos há milénios. 

Estamos todos aqui. No silêncio que te cura. Sempre.

30.4.15

Escolhas



Tens o poder hoje, de mudar essa mágoa que te sangra no peito. Que te dói mesmo quando não a pensas. Tens o poder hoje, de mudar essa tristeza que te perfura em contínuo movimento.

Tens o poder de mudar essa energia. Se quiseres. Não é difícil. Só precisas querer. Pensar que és mais forte que isso que te magoa. E mudar. Mudar. Mudar.

Ela passa. A sério que passa. Essa dor passa. No instante em que disseres, Eu Sou Feliz, Eu Sou Amor.

Não é essa dor que te define. É a tua escolha.

28.4.15

Malidencências

Sob as sombras das palavras,
escondem-se medos,
que se ofuscam com estórias inventadas ao último segundo.
Sob as sombras das meias verdades meias mentiras,
se movem aqueles que nelas se banham e se alimentam.

Palavras levianas, sem conhecimento algum.
Palavras de tristezas profundas,
que tanto se querem refletir fora.

Nas profundezas dessas sombras,
não se sabem,
quem são e o que fazem.

Tão tristes que são, que se preferem nas estórias de outros.
Tão tristes, que se projectam nas vidas de outros.
Vivem as dos outros, na esperança que a deles se altere.

Nesta ânsia de sanar as dores que os corroem,
lançam ácidos pujantes.
Nesta ânsia de parar os sangramentos,
colocam-se em fuga,
na esperança que o veneno seja a sua cura.

26.3.15

Hoje



Era hoje.
Era hoje que me perdia em ti.
Era hoje que te perdia nos meus olhos.
Era hoje que nos perdiamos no mar.
Era hoje que nos afogavamos.

Hoje, porque o amanhã não vem.
Quero sossegar esta tua falta.
Tem de ser hoje.
É hoje.

Era hoje.

Era hoje que me beijavas pela primeira vez.
Era hoje que me perdia nos teus beijos.
Era hoje que me lias.
Como até hoje te li nos pensamentos,

É hoje. Porque amanhã não vem.
É hoje que me sabes como te sei.
É hoje que te abraço como ninguém.
É hoje que te tenho.
É hoje.

Era hoje. Porque amanhã não vem.

Six Word Story

There was nothing else to do.

23.3.15

Doce Loucura - Cartas de Amor #26

Não me faças perguntas. Fecha os olhos e agarra-me. Prende-me nos teus braços. Não perguntes nada. Deixa-me saborear-te. Cheirar-te. Sentir-te. Conhecer-te com as minhas mãos. Estudar os teus traços. E que traços. Essas linhas tão bem desenhadas.

Danças bem, gosto de te olhar enquanto danças. Mas vem. Vem dançar nos meus braços e não faças perguntas. Deixa que te conduza. Deixa que te beba. Quero beber-te. Toda. Toda a tua essência. Quero absorvê-la.

Não fujas. Deixa-te ficar. Prometo que te cuido.

Por isso vem. Vamos esquecer o mundo. Deixar que tudo não passe de um cenário de fundo. E seremos nós os únicos actores deste palco.

Vamos mexer. Mexe comigo. Faz-me tremer. Deixa-me morrer nos teus braços. Mata-me de prazer.

Doce loucura que me és. Enlouqueço, enquanto me coloco a teus pés.

18.3.15

Minutos Submersos #1


O coração batia com tanta força, que parecia que lhe ia rasgar o peito, partir as costelas e estourar no ar, mesmo em frente dela. Respirou fundo para entender se ainda estaria a dormir. Não. Estava acordada, tinha sido um sonho. Um sonho não. O ar espesso do quarto confirmava-lhe a presença de um pesadelo. Daqueles pesadelos que não são, nem pesadelos, nem sonhos. São algo real que acontece em algum lugar suspenso.

O quarto continuava às escuras, tudo estava coberto em veludo negro. O quarto continuava sem um único som, tudo era envolvência de um abismo de silêncio. Foi só um pesadelo, pensou.

Tentou lembrar-se. Era confuso. O coração parecia que respondia por si, qual animal assustado. Disparou novamente.

No silêncio, uma respiração. Não era a sua. Algo a observava. Não se conseguia mover. O corpo permanecia rígido. Pedra. Ela ordenava, incessantemente, mas não havia movimento.

De novo aquela respiração. De novo aquela coisa. Agora movia-se. Ela sentia o movimento pendular daquela presença que respirava cada vez mais alto.

Continuava a ordenar ao corpo que se movesse. Abriu a boca, tentou falar. Nada. Queria gritar. Não saíu um único som. Ela fazia-o com toda a força que tinha. Nada saía. Exausta. Toda ela exausta. E aquela coisa continuava a aproximar-se. Uma escuridão viscosa, buraco negro em movimento. Na sua direcção. Outra vez. E outra. A respiração. O coração acelerado, acelerou ainda mais. E mais. Ela já não conseguia ouvir mais nada a não ser aquela respiração. Aquela coisa quase a tocar-lhe no rosto. O desespero de não conseguir mover-se, de não conseguir expelir num único som. E de repente…

Abriu os olhos. A respiração ofegante. Nada no quarto. Na cortina podia ver refletida a pequena luz, mortiça, que atravessava as pequenas fissuras da persiana. Do outro lado da parede, o ressonar de um vizinho com peso a mais. Mexeu-se finalmente. Alívio.

Esperou uns minutos. Nada aconteceu.

Respirou fundo para entender se ainda estaria a dormir. Não. Estava acordada, tinha sido um sonho. Um sonho não. Um pesadelo.

Voltou a respirar fundo. Esticou o braço, ligou a luz do candeeiro, olhou para o lado.


Não estava sozinha. 





10.3.15

Sacra





Sagrada tua mão que se estende em meu auxílio.
Sagrado teu ventre que me carrega.
Sagrado manto que me transporta todas as dores.
Sagrados olhos que me iluminam.
Sagrados pés que me caminham.
Sagrada toda tu oh mãe.
Minha mãe.

Sagradas todas as mulheres de quem nasci.
Pois que de vós se vos bebi toda a essência de quem sou.
Sagradas vós minhas antecessoras e sucessoras.
Sagradas vós minhas contemporâneas.
Pois que de vós se me vem a minha força.
Toda a força de caminhar ao encontro da fonte.

Sagradas todas as mulheres,
Pois que delas são mastigadas todas as dores deste mundo.

Sagradas pois,
Vós!
Cálices de vida.

4.3.15

3.3.15

A Viagem - Oitava

Ela sorria. E para ele, aquele sorriso era como um farol aceso, iluminando tudo ao seu redor, inclusive ele. Sorria também.

Estás preparado.

Sim.

O seu coração batia a uma velocidade estonteante. Estou preparado. Pensou. Mas para quê.

Vai correr tudo bem, Meu Amor. Tenho a certeza que tudo correrá bem, está tudo certo… está tudo certo.

A sua voz ficou a fazer eco dentro do peito. Sentia-se feliz. Imensamente feliz. Ela esticou a mão. Ele esticou a dele na sua direcção…

Acordou. Respiração ofegante. O coração descompassado...

Mas que raio. Já é a segunda vez que sonho com isto.

Teodoro não sabia, mas sentia que algo estava na eminência de acontecer. Quem era ela. Estranhamente familiar. Ela. Era Ela.

Eu sei que és tu. Pensou. Mas quem és "tu", que eu sei que és... Tenho que falar com o Justino. Isto não pode ser só um sonho.

23.2.15

Preso



Desceste aquela rua toda aperaltada. Querias que te vissem. Querias que te olhassem. E viam. E olhavam-te com atenção. Pois que nela tu te passeavas. Qual pavão de cauda aberta.

Soberba descida da calçada, digo-te. Soberba passada sobre essas alturas que te mantinham lá no cimo da vaidade. Sublime.

As peixeiras comentavam, mandavam bocas, Olha a vaidosa, deves querer pouco deves. Mas a ti essas palavras só te inchavam ainda mais. Crescias a cada passo. A rua inteira parava para te olhar. As peixeiras davam encontrões aos maridos, nos intervalos das bocas e dos pregões.

E essa saia. E essas pernas destapadas. Que rasgos de loucura andante.


Fiquei preso. Claro. Toda a gente ficou... 

17.2.15

Para Sempre - Cartas de Amor #25



Quero-te mais quando te sei. Quando te sinto. Quando te cheiro
Quero-te mais quando te vejo. Quando te encontro. Quando te navego.
Quero-te. Mais. Sempre mais. Sempre muito. Muito.
Quero-te. Porque te perdi mil vezes. E mil vezes te voltei a encontrar.
Porque mil vezes te esqueci. E mil vezes te voltei a conhecer.
Mil vezes morri. E mil vezes voltei a ressuscitar.

Porque enquanto me souber existir. Renascerei.
Pelos séculos dos séculos. Enquanto o tempo persistir.
Por todas as vidas que passámos. Por todas as mortes que enfrentamos.
Por todos os encontros que nos juntaram.
Por todas as palavras que nos separaram.

Mill vezes as mil vezes mais felizes que vivemos.
Por todas as músicas que nos fizemos. Por todas as notas que tocaste.
De todas as cordas que vibraram, de todos os acordes que ressoaram.
Ressoam ainda e para sempre. No sempre que sempre tivemos.
Na eternidade dos momentos que fizemos.

Porque sei que também me sabes. Porque sei que também me pensas.
Porque sei que também me queres. Quando me encontras. Quando me navegas.
Quando me queres muito.
Quando me foges.

Porque me perdeste mil vezes. E mil vezes me voltaste a encontrar.
Porque nunca desististe de me procurar.
Porque o nosso pacto é maior que todas as vidas terrestres.

E por isso
Amo-te. E é quando te amo que te quero.
E é quando te quero que mais te amo.
Sempre.
Por todos os dias, Até à eternidade.
Meu Amor.

30.1.15

Hoje é dia de Saudade



Sinto-vos saudade porque me permanecem desde do último instante na matéria..
Permanecem-me nas emoções as lições e gargalhadas que demos
Permanecem-me vossos sorrisos e olhares ternurentos
Permanecem-me os abraços e os colos que me deram...
As lágrimas que me secaram
Permanecem-me na vossa presença
Até que nos voltemos a abraçar
Sinto-vos
Saudade

29.1.15

Sinto-te

Sei que há estrelas que me dizem o teu nome a toda a hora
Nas horas suspensas, e no ar da maresia
São elas que me contam por onde andas
Fazem-me elas essa cortesia

Sei que há noites em que o luar se me reflete a tua imagem
Na bruma fina da noite
Deixa-me claro por onde te moves
É ela que se me te mostra
É ela que me diz, Não chores corajosa
Não chores
Pois que o teu amor por ti também suspira

Sei que há sonhos em que te toco
Na imparcialidade de um tempo que não existe
Que me abandona, que me persiste nesta demora em voltar a cheirar-te
Nesta demora em voltar a aninhar-me no teu peito
Em lá ficar e fechar os olhos
Parar o tempo e torná-lo perfeito

Sei que há horas em que me pensas
Porque nessas horas te sinto e te penso também
Porque nessas horas não há mais ninguém
Porque é nesse momento, quando te consigo tocar
Nessa película fina que apenas separa a nossa troca de olhares
O nosso
Naquele aplauso a nós
Poderoso

Sinto-te
Falta

Gosto - Cartas de Amor #24

Gosto quando sorris para mim. Assim como quem disfarça uma certa timidez. Gosto-te assim. Nem muito salgada, nem muito insossa. Assim como és está bom.

Gosto de te olhar quando não me sabes por perto. É quando és mais tu. É quando te vejo por dentro. É quando não me sabes, que eu te sei, por certo.

E gosto de te saborear. Já te disse. Não. Então digo-te agora. Gosto de te saborear. Gosto de ter na minha boca, cada pedaço do teu sabor. Tê-lo todo em meu redor. Embriagar-me nele, esse sabor tão teu. Tão tu.

E gosto quando me perfuras com esses olhos. Naquele exato momento morro. Para que me vejas. É quando eu sou mais eu. É quando me entras pela alma adentro, sem pedir licença. E abres aquela porta. Aquela. Que só tu sabes. Que só tu vês. Aquela. Da qual apenas tu tens a chave. Deixo-te abri-la.

Já me sabes. Já me conheces. Mais ninguém. Apenas tu me sabes. Todos os recantos. Todos aqueles que ninguém imagina que me existem. Tu sabe-los todos. Não te escapa um. 

E eu gosto tanto. Tanto. Gosto muito de ti. Gosto muito de sermos um. Num tempo, em que apenas o tempo nos sabe. Somos apenas nós assim. Até ao infinito. 

Por todos os dias até à eternidade.

27.1.15

Só mais uma vez - Cartas de Amor #23



Sabes, ás vezes fico a olhar para o infinito. Sem saber muito bem como me perdi, ou quando me perdi.

Talvez saiba. Sei. Sim. Claro que sei quando me perdi. Foi no dia em que te vi pela primeira vez. Foi esse o dia do início da minha perdição. Do meu pecado. Tu.

Foi no preciso momento em que os teus olhos bateram em mim, qual arma mortífera apontada ao seu alvo. Invariavelmente caí. Acho que ainda não me levantei. Acho não. Sei que não me levantei. Nem nesse dia, nem em todos os que se seguiram. Neles, rastejei até te conseguir apanhar. Sim. Apanhei-te. E prendi-te na minha rede.

Resgatei-te desse mar em que te via à deriva. E prendi-te. Envolvi-te o mais que pude. Saboreei-te. Consumi-te o mais que consegui. Até entrar em overdose. Mas não era suficiente. Overdose era pouco para tanta vontade. Desejo. Consumi-te até rebentar. Sempre. Muito. 

Tu. Muito. É isso que tu és. Tu és sempre muito. Tudo muito. Absurdamente muito. Overdose. Mais que muito.

E agora. Continuas a ser muito. A estar muito. Longe.

A esticar esta corda que se me sai do peito até ti. Muito. Esticada até à exaustão da dor. Muita. A dor. E ela consome-me. A dor. Corrói-me. Essa maldita dor. Que ficou. Quando te foste. Esta dor que não me larga. Que me amarga a boca sempre que te penso.

Agora que faço. Se não te voltas mais para este lado. Se os teus olhos já não encontram em mim um alvo. Gostava de o ser sabes. Alvo. Pronto a ser perfurado por esse olhar terrível que eu tanto adoro.

Ainda sim. Falo no presente. Porque é a minha verdade. A tua presença ainda aqui está. Todas as noites que me deito. Ao lado dela. Não a sinto. Mas a ti. Tu. Estás mais do que aqui. Entranhada em mim de tal modo, que não me contenho em te gritar. Para dentro. Grito-te para dentro. Muito. Como tu. Na esperança de que um dia me ouças. E me possas voltar a abater com esses olhos.

Olhos que queimam como cigarros. Eu sei que eles continuam iguais. Faz com que eles se voltem para mim. Só mais uma vez.

E que me possam abater. Sim. Que me possa incendiar. E que neles, possa eu morrer.

Para que nunca mais precise de cá voltar.

24.1.15

Era Ela



Se ela não tivesse acontecido não haveria palavras que a contassem, e mesmo assim ela repetia-se a si mesma, vezes sem conta, até ter a certeza de que era ela a rosa que sangrava nas lágrimas, e que lutava com os seus espinhos. Que se reduzia a cinzas todas as noites, e que acordava todas as madrugadas em chamas.

Era ela sim, era ela que continuava a acontecer como sempre.

22.1.15

Perdido

Chorei,
Sem deixar saber
O que me doía
Gritei,
E no silêncio
Já ninguém me ouvia

Da dor
E dos ouvintes
Viajantes e pedintes

Já não durmo, já não como
Já não sei por onde ando

Crucificado
Neste castigo
Qual mendigo
Estarrecido
Me perdi

21.1.15

Canção de Amigo

Chegaste como quem não quer
Nessa tua dança ardente
Fazes de conta que não vês
E provocas toda a gente
 
Já me segurei p'ra não dizer
Como te quero ter nas mãos
E agora o que é que eu vou fazer
P’ra conseguir a tua atenção
 
E agora o que é que eu vou fazer
Com isto tudo a acontecer
Quero-te fazer escutar
O que tenho p’ra dizer
 
Longe de mim querer brincar,
Mas matas-me com esse teu olhar,
Já não consigo ter razão
Nem pés assentes no chão
 
Passos os dias a sonhar
E à noite acordado
Fico longe e sem saber
Onde caí ancorado
 
E agora o que é que eu vou fazer
Com isto tudo a acontecer
Quero-te fazer escutar
O que tenho p’ra dizer