31.8.15

Onde



Lá longe na margem do horizonte lembro-te, recordo-te.
Lá longe no horizonte, naquela margem de lembranças pequenas, sem palavras, revejo-te.

Adiante no tempo, não constam sonoridades estranhas, apenas a melodia do teu sorriso.
O compasso do teu abraço apertado, o último, aquele em que tudo ficaria bem, em que tudo estaria como sempre foi.

E não te foste se não que para o meu lado, desse lado da varanda, de onde este horizonte não cabe na memória da carne.

Para onde te foste, levaste-me.

Sei a tua presença, reconheço a tua imagem em qualquer recanto da memória.

Sei de cor cada nota tua. Só não te sei a voz. Essa tua voz que se transformou em melodia de cordas.

Só tu e a tua presença.

Sei que estás. Como prometeste.

26.8.15

Era só teu



Pés descalços,
cabeça erguida
nas ondas, perdida

Cabeça erguida,
pés descalços
sempre a mesma ida

Eras tu com esses olhos
lá ao fundo, no horizonte
Era essa tua força
essa tua fonte

Entre barcas e barquelas,
montanhas de água trespassei,
para nagevar gentilmente
até a ti chegar,
na chávena desta alma,
nos olhos,
no teu olhar

Nesse teu olhar que era só teu,
que me esperava e que me arrumava,
onde só tu me sabias,
onde eu e tu só podiamos ser

Pés rebeldes,
cabeça erguida,
na borda das nossas almas,
onde só tu e eu podiamos ser,
nesse teu olhar que era só teu

5.8.15

Silent Words - Cartas de Amor #27




No silêncio das palavras é onde mais te vejo, é onde mais te conheço. No silêncio delas.

São todas inúteis, mas preciso-as para se me te ligar. Para entrar nessa aura de silêncio exclusiva a nós. 

Palavras de silêncio, são as nossas, as melhores, pois que nelas te reconheço, te encontro e te descubro. 

E é neste silêncio que me reflectes, pois que de ti tudo me é possível.

Contigo basta silêncio. Silêncio e o sentido da tua presença. Da nossa. Do ponto zero.

Porque contigo elas são inúteis. Estas palavras que nos saem, são apenas pequenos acompanhamentos, porque não as precisamos para nos conversarmos.

Porque sem elas nos entendemos melhor, nos vemos melhor, nos sentimos melhor.

E porque é no silêncio das palavras que respiro melhor, que te quero ainda mais.

Silêncio transparente.

Cristalino.

Painting and Title by Duma

15.7.15

A Viagem - Nona - A menina dança

A música apetecia, toda ela lhe reagia. Ele olhava-a, tentando inspirar coragem. Avançou.


A menina dança. Perguntou.


Ela acenou com um sorriso tímido, as bochechas rosadas. E foram os dois. Sentir a música. Deixar que ela os controlasse.


Ele agarrou-a gentilmente, mas com firmeza. Ela nem teve tempo de reagir, já estava de face encostada ao seu peito, quase lhe ouvindo os batimentos cardíacos, apesar do volume a que tocavam a melodia. Fechou os olhos e deixou-se levar naquela viagem. Viagem infinita, quisesse ela que fosse.


Também ele os fechou, os seus olhos.


Oh avô, e depois o que aconteceu.


Bom, depois começamos a ver-nos quase todos os dias. Sempre às escondidas, mas acompanhados, naquela altura, estar junto de uma rapariga sem ela estar acompanhada por alguém mais velho, era uma falta de respeito tremendo.


A sério. Que engraçado.


A Mirinha, que era a dama de companhia dela, estava sempre presente, e ajudava-nos. Até que um dia tive de ganhar coragem e ir pedir autorização para a namorar, e mostrar que era moço sério e que pretendia casamento, naquela altura era o pai quem decidia, e tinha de se fazer um pedido formal e mostrar que era um homem de bem.


Quando tentei falar com o pai dela, fiquei a saber que ela já tinha pretendente, e ainda nem sabia, a pobre. Não pude fazer nada, o pai dela era uma pessoa muito severa, demasiado poderoso. Ameaçou que me matava a mim e à minha família se eu tentasse dizer-lhe, ou se teimasse em encontrar-me com ela.


Então, e o que fez avô.


Não podia por a vida da minha família em risco. Ainda pensei em fugir com ela para bem longe. Naquela época eram normais as viagens para o Brasil, mas se eu fugisse com ela, o resto da minha família continuava a correr perigo, então tive de tomar uma das decisões mais difíceis da minha vida.


Partir sozinho.

25.6.15

Grito

Por um momento,
a Eternidade
Na tua ausência,
fica a saudade
O tempo passa,
fica desfeito

Contra o teu peito, grito a verdade
Na loucura encontro o sentimento
No momento o pensamento

Do fundo do sonho
salta a vontade
de fazer parar o tempo
e guardá-lo com saudade

Do fundo da alma a realidade,
cruel e suspeita,
esmaga a verdade

A vontade de rasgar
A vontade de voar
Por aí...
Ser terra
Ser mar
Tudo que te possa dar

25.5.15

Monólogos Silenciosos



Realidade crua que se me arrepanha a capacidade de entender a dureza do tempo.


Image from Vimeo

21.5.15

Quando se nos morre alguém



O que fazer quando alguém se nos morre sem aviso. O que fazer com aquela vontade incontornável de gritar a essa mesma pessoa que não podia partir, assim, sem mais nem menos. Sem ao menos nos dizer um, Adeus, Até já.

O que fazer com a revolta da sensação de impotência perante a força da vida. A morte. O que fazer para que a sensação de pequenez se vá. O que fazer para calar o vazio que se faz apertar no peito. O que fazer para calar o silêncio que fica da falta de quem se foi.

Morrem-se-nos pessoas num instante. E nós que continuamos por cá, ficamos sem saber o que fazer. Meios sem norte. Porque de repente alguém deixou de se ver. Porque de repente alguém se nos deixou de sorrir...

O que fazer com tudo isso.

Não sei. 

Amanhã é outro dia.

20.5.15

No Silêncio que Cura




Por vezes, uma presença silenciosa é suficiente para curar uma ferida. Ou muitas. Não é preciso mais nada. Presença. Só isso. Saber que está ali. Aquela pessoa. A nossa força. Uma força de silêncio. Na maioria das vezes, bastante mais forte que todas as outras. 

Como tu sabes. Continuo aqui. Do teu lado, no meu silêncio. A observar-te. E em silêncio te vou curando e amparando. Tu sabes, estou aqui. Como sempre estive. Não é preciso falar, pois que das palavras pouco de útil nos sai. Mas no silêncio, no silêncio tudo se diz, tudo se nos transpira. Perfeito.

E continuo aqui. Sim. Continuo aqui, no meu silêncio. A coser, e a fechar essas chagas que teimam em rebentar em sangramentos por tão pequenas coisas. Não te culpes. Tudo está certo. No devido lugar.

Hoje pensaste-me. Tiveste-me saudades. Wish you were here. Tão bonita essa tua chamada por mim. Sabes que te fui abraçar nesse preciso instante. E também sabes que te tenho sempre nos meus braços. Eu, e todos que cá estamos para ti. Em silêncio.

Porque é neste silêncio que permanecemos fiéis, no cumprir deste pacto que fizemos há milénios. 

Estamos todos aqui. No silêncio que te cura. Sempre.

30.4.15

Escolhas



Tens o poder hoje, de mudar essa mágoa que te sangra no peito. Que te dói mesmo quando não a pensas. Tens o poder hoje, de mudar essa tristeza que te perfura em contínuo movimento.

Tens o poder de mudar essa energia. Se quiseres. Não é difícil. Só precisas querer. Pensar que és mais forte que isso que te magoa. E mudar. Mudar. Mudar.

Ela passa. A sério que passa. Essa dor passa. No instante em que disseres, Eu Sou Feliz, Eu Sou Amor.

Não é essa dor que te define. É a tua escolha.

28.4.15

Malidencências

Sob as sombras das palavras,
escondem-se medos,
que se ofuscam com estórias inventadas ao último segundo.
Sob as sombras das meias verdades meias mentiras,
se movem aqueles que nelas se banham e se alimentam.

Palavras levianas, sem conhecimento algum.
Palavras de tristezas profundas,
que tanto se querem refletir fora.

Nas profundezas dessas sombras,
não se sabem,
quem são e o que fazem.

Tão tristes que são, que se preferem nas estórias de outros.
Tão tristes, que se projectam nas vidas de outros.
Vivem as dos outros, na esperança que a deles se altere.

Nesta ânsia de sanar as dores que os corroem,
lançam ácidos pujantes.
Nesta ânsia de parar os sangramentos,
colocam-se em fuga,
na esperança que o veneno seja a sua cura.

26.3.15

Hoje



Era hoje.
Era hoje que me perdia em ti.
Era hoje que te perdia nos meus olhos.
Era hoje que nos perdiamos no mar.
Era hoje que nos afogavamos.

Hoje, porque o amanhã não vem.
Quero sossegar esta tua falta.
Tem de ser hoje.
É hoje.

Era hoje.

Era hoje que me beijavas pela primeira vez.
Era hoje que me perdia nos teus beijos.
Era hoje que me lias.
Como até hoje te li nos pensamentos,

É hoje. Porque amanhã não vem.
É hoje que me sabes como te sei.
É hoje que te abraço como ninguém.
É hoje que te tenho.
É hoje.

Era hoje. Porque amanhã não vem.

Six Word Story

There was nothing else to do.

23.3.15

Doce Loucura - Cartas de Amor #26

Não me faças perguntas. Fecha os olhos e agarra-me. Prende-me nos teus braços. Não perguntes nada. Deixa-me saborear-te. Cheirar-te. Sentir-te. Conhecer-te com as minhas mãos. Estudar os teus traços. E que traços. Essas linhas tão bem desenhadas.

Danças bem, gosto de te olhar enquanto danças. Mas vem. Vem dançar nos meus braços e não faças perguntas. Deixa que te conduza. Deixa que te beba. Quero beber-te. Toda. Toda a tua essência. Quero absorvê-la.

Não fujas. Deixa-te ficar. Prometo que te cuido.

Por isso vem. Vamos esquecer o mundo. Deixar que tudo não passe de um cenário de fundo. E seremos nós os únicos actores deste palco.

Vamos mexer. Mexe comigo. Faz-me tremer. Deixa-me morrer nos teus braços. Mata-me de prazer.

Doce loucura que me és. Enlouqueço, enquanto me coloco a teus pés.

18.3.15

Minutos Submersos #1


O coração batia com tanta força, que parecia que lhe ia rasgar o peito, partir as costelas e estourar no ar, mesmo em frente dela. Respirou fundo para entender se ainda estaria a dormir. Não. Estava acordada, tinha sido um sonho. Um sonho não. O ar espesso do quarto confirmava-lhe a presença de um pesadelo. Daqueles pesadelos que não são, nem pesadelos, nem sonhos. São algo real que acontece em algum lugar suspenso.

O quarto continuava às escuras, tudo estava coberto em veludo negro. O quarto continuava sem um único som, tudo era envolvência de um abismo de silêncio. Foi só um pesadelo, pensou.

Tentou lembrar-se. Era confuso. O coração parecia que respondia por si, qual animal assustado. Disparou novamente.

No silêncio, uma respiração. Não era a sua. Algo a observava. Não se conseguia mover. O corpo permanecia rígido. Pedra. Ela ordenava, incessantemente, mas não havia movimento.

De novo aquela respiração. De novo aquela coisa. Agora movia-se. Ela sentia o movimento pendular daquela presença que respirava cada vez mais alto.

Continuava a ordenar ao corpo que se movesse. Abriu a boca, tentou falar. Nada. Queria gritar. Não saíu um único som. Ela fazia-o com toda a força que tinha. Nada saía. Exausta. Toda ela exausta. E aquela coisa continuava a aproximar-se. Uma escuridão viscosa, buraco negro em movimento. Na sua direcção. Outra vez. E outra. A respiração. O coração acelerado, acelerou ainda mais. E mais. Ela já não conseguia ouvir mais nada a não ser aquela respiração. Aquela coisa quase a tocar-lhe no rosto. O desespero de não conseguir mover-se, de não conseguir expelir num único som. E de repente…

Abriu os olhos. A respiração ofegante. Nada no quarto. Na cortina podia ver refletida a pequena luz, mortiça, que atravessava as pequenas fissuras da persiana. Do outro lado da parede, o ressonar de um vizinho com peso a mais. Mexeu-se finalmente. Alívio.

Esperou uns minutos. Nada aconteceu.

Respirou fundo para entender se ainda estaria a dormir. Não. Estava acordada, tinha sido um sonho. Um sonho não. Um pesadelo.

Voltou a respirar fundo. Esticou o braço, ligou a luz do candeeiro, olhou para o lado.


Não estava sozinha. 





10.3.15

Sacra





Sagrada tua mão que se estende em meu auxílio.
Sagrado teu ventre que me carrega.
Sagrado manto que me transporta todas as dores.
Sagrados olhos que me iluminam.
Sagrados pés que me caminham.
Sagrada toda tu oh mãe.
Minha mãe.

Sagradas todas as mulheres de quem nasci.
Pois que de vós se vos bebi toda a essência de quem sou.
Sagradas vós minhas antecessoras e sucessoras.
Sagradas vós minhas contemporâneas.
Pois que de vós se me vem a minha força.
Toda a força de caminhar ao encontro da fonte.

Sagradas todas as mulheres,
Pois que delas são mastigadas todas as dores deste mundo.

Sagradas pois,
Vós!
Cálices de vida.

4.3.15

3.3.15

A Viagem - Oitava

Ela sorria. E para ele, aquele sorriso era como um farol aceso, iluminando tudo ao seu redor, inclusive ele. Sorria também.

Estás preparado.

Sim.

O seu coração batia a uma velocidade estonteante. Estou preparado. Pensou. Mas para quê.

Vai correr tudo bem, Meu Amor. Tenho a certeza que tudo correrá bem, está tudo certo… está tudo certo.

A sua voz ficou a fazer eco dentro do peito. Sentia-se feliz. Imensamente feliz. Ela esticou a mão. Ele esticou a dele na sua direcção…

Acordou. Respiração ofegante. O coração descompassado...

Mas que raio. Já é a segunda vez que sonho com isto.

Teodoro não sabia, mas sentia que algo estava na eminência de acontecer. Quem era ela. Estranhamente familiar. Ela. Era Ela.

Eu sei que és tu. Pensou. Mas quem és "tu", que eu sei que és... Tenho que falar com o Justino. Isto não pode ser só um sonho.

23.2.15

Preso



Desceste aquela rua toda aperaltada. Querias que te vissem. Querias que te olhassem. E viam. E olhavam-te com atenção. Pois que nela tu te passeavas. Qual pavão de cauda aberta.

Soberba descida da calçada, digo-te. Soberba passada sobre essas alturas que te mantinham lá no cimo da vaidade. Sublime.

As peixeiras comentavam, mandavam bocas, Olha a vaidosa, deves querer pouco deves. Mas a ti essas palavras só te inchavam ainda mais. Crescias a cada passo. A rua inteira parava para te olhar. As peixeiras davam encontrões aos maridos, nos intervalos das bocas e dos pregões.

E essa saia. E essas pernas destapadas. Que rasgos de loucura andante.


Fiquei preso. Claro. Toda a gente ficou... 

17.2.15

Para Sempre - Cartas de Amor #25



Quero-te mais quando te sei. Quando te sinto. Quando te cheiro
Quero-te mais quando te vejo. Quando te encontro. Quando te navego.
Quero-te. Mais. Sempre mais. Sempre muito. Muito.
Quero-te. Porque te perdi mil vezes. E mil vezes te voltei a encontrar.
Porque mil vezes te esqueci. E mil vezes te voltei a conhecer.
Mil vezes morri. E mil vezes voltei a ressuscitar.

Porque enquanto me souber existir. Renascerei.
Pelos séculos dos séculos. Enquanto o tempo persistir.
Por todas as vidas que passámos. Por todas as mortes que enfrentamos.
Por todos os encontros que nos juntaram.
Por todas as palavras que nos separaram.

Mill vezes as mil vezes mais felizes que vivemos.
Por todas as músicas que nos fizemos. Por todas as notas que tocaste.
De todas as cordas que vibraram, de todos os acordes que ressoaram.
Ressoam ainda e para sempre. No sempre que sempre tivemos.
Na eternidade dos momentos que fizemos.

Porque sei que também me sabes. Porque sei que também me pensas.
Porque sei que também me queres. Quando me encontras. Quando me navegas.
Quando me queres muito.
Quando me foges.

Porque me perdeste mil vezes. E mil vezes me voltaste a encontrar.
Porque nunca desististe de me procurar.
Porque o nosso pacto é maior que todas as vidas terrestres.

E por isso
Amo-te. E é quando te amo que te quero.
E é quando te quero que mais te amo.
Sempre.
Por todos os dias, Até à eternidade.
Meu Amor.