12.4.16

É só isso




Acordai vós de olhos fechados.
Vós que dormis sossegados.
No quente do conforto do sonho.

É só isso, sonho.

Acordai vós, que vos enrolais nessas mantas.
Vós que em mantas vos deixais ficar.
Nesse ninho de sonho.

É só isso, sonho.

Acordai, acordai.
O vosso povo precisa de vós.
Não vos deixeis cair na nova tentação.
Na tentação do sonho.

É só isso, sonho.

Acordai vós que nas trevas vos abraçais
Não sucumbam à vontade,
a essa degustação.
Nesse sabor de sonho.

É só isso, sonho.

Acordai vós, que mastigais os dias
em que vos deixais ser mastigados,
Nessa mastigação de sonho

É só isso, sonho.

Acordai. Acordai.
Que nem sempre o caos é diferente.
Que nem sempre o alinhado é bom.
Que nem sempre o certo está bem.
Que bem sempre é mau desacomodar.
Acordai desse sonho.

Porque é só isso. Sonho.


Photo by Miki Takahashi

11.4.16

Poesia Sonora


A Bala





Uma bala trespassou-lhe o coração, o sangue escorre, a cada gota a poça aumenta de tamanho. O respirar abranda,  a visão torna-se turva, os pulmões cerram-se... algo de errado aconteceu.

Tornara-se algo amarga, a questão interna residente na sua razão. Não entende como aqui chegou quando tudo estava bem. A sua incumbência era a de se tornar um homem... um Homem..

Não sabe onde parou, onde tudo começou.

Apenas se recorda de escorregar no lamaçal de merda espalhada por todo lado. Escorregadelas de merda...

Ouviu dizer que sim, que estávamos mal. Também ouviu dizer que ia passar depressa.
Não passou, e continuou mal, pior ficou.

E foi caindo no abismo interior que o absorveu por completo.

Os seus pensamentos desapareceram para dar lugar à escuridão. A luz do ser deixou de estar. Passou apenas a circular.

Mecanicamente, todos os dias o fazia, sem pensar..

Foi caindo e caindo..
Até que encontrou o fundo...
Caiu.. e bala entrou...

Mais Alto

Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem

O mundo não conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível!
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
A rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

8.3.16

Canção de Amigo


Ai esses teus olhos, coração.
Que dos meus arrancam tanta emoção
Fazem (re)nascer paixão

Esquecida, tantas vezes perdida
Mas por teus olhos amor,
ela votla,
a emoção

4.3.16

As quadras dele (II)



Digo pra mim quando oiço
O teu lindo riso franco,
"São seus lábios espalhabdo,
As folhas dun lírio branco..."

Perguntei às violetas
Se não tinham coração,
Se o tinham, porque 'scondidas
Na folhagem sempre estão?!

Responderam-me a chorar,
Com voz de quem muito amou:
Sabeis que dor os desfez,
Ou que traição os gelou?

Meu coração, inundado
Pela luz do teu olhar,
Dorme quieto como um lírio,
Banhado pelo luar.

Quando o ouvido vier
Teu amor amortalhar,
Quero a minha triste vida,
Na mesma cova, enterrar.

Eu sei que me tens amor,
Bem o leio no teu olhar,
O amor quando é sentido
Não se pode disfarçar.

Os olhos são indiscretos;
Revelam tudo que sentem,
Podem mentir os teus lábios,
Os olhos, esses, não mentem.

Bendita seja a desgraça,
Bendita a fatalidade,
Bendito sejam teus olhos
Onde anda a minha saudade.

Não há amor neste mundo
Como o que eu sinto por ti,
Que me ofertou a desgraça
No momento em que te vi.

O teu grande amor por mim,
Durou, no teu coração,
O espaço duma manhã,
Como a rosa da canção.

Quando falas, dizem todos:
Tem uma voz que é um encanto
Só falando, faz perder
Todo juízo a um santo.

Enquanto eu longe de ti
Ando, perdida de zelos,
Afogam-se outros olhares
Nas ondas dos teus cabelos.

Dizem-me que te não queira
Que tens, nos olhos, traição.
Ai, ensinem-me a maneira
De dar leis ao coração!

Tanto ódio e tanto amor
Na minha alma contenho;
Mas o ódio inda é maior
Que o doido amor que te tenho.

Odeio teu doce sorriso,
Odeio teu lindo olhar,
E ainda mais a minh'alma
Por tanto e tanto te amar!

Quando o teu olhar infindo
Poisa no meu, quase a medo,
Temo que alguém advinhe
O nosso casto segredo.

Logo minh'alma descansa;
Por saber que nunca alguém
Pode imaginar o fogo
Que o teu frio olhar contém.

Quem na vida tem amores
Não pode viver contente,
É sempre triste o olhar
Daquele que muito sente.

Adivinhar o mistério
Da tua alma quem me dera!
Tens nos olhos o outono,
Nos lábios a primavera...

Enquanto teus lábios cantam
Canções feitas de luar,
Soluça cheio de mágua
O teu misterioso olhar...

Com tanta contradição,
O que é que a tua alma sente?
És alegre como a aurora,
E triste como um poente...

Desabafa no meu peito
Essa amargura tão louca,
Que é tortura nos teus olhos
E riso na tua boca!

Os teus dentes pequeninos
Na tua boca mimosa,
São pedacitos de neve
Dentro de um cálix de rosa.

O lindo azul do céu
E a amargura infinita
Casaram. Deles nasceu
A tua boca bendita!

In livro "Citações e Pensamentos de Florbela Espanca"

3.3.16

Medo de quê



Tens medo de quê. O que é que te impede de viver a pleno. Que pedra é essa no sapato que te faz mancar a cada passo.

Mas que trabalho este. Ter medo de viver. Mais difícil do que a própria acção. A de viver. Essa. Que tantos têm tanto receio de executar. Ser. Estar. Viver. Eis a primordial forma. A maneira.

Mas não. Então não entendes que se eu fizer assim, vai ser difícil, porque se não fosse assim, ia ter de ser de outra maneira, e então era mais complicado. Porque entretanto já se passou o tempo, e eu não fiz o que queria. Não podia desagradar ao que os outros esperavam de mim.

Então e tu. O que esperas de ti. Porquê tanto medo de falhar. Medo de falhar às expectativas dos outros, os de fora. Então e falhar-te a ti mesmo. Não seria essa a principal razão.

Falhas-te a ti mesmo quando alimentas esses medos de falhar aos outros, naquilo que esperam de ti.Falhas-te quando te anulas para os outros te terem, como te esperam.

Diz lá. Entende bem qual é o medo. O Medo. Aquele profundo que te faz estremecer. Aquele que mais trabalho dá. Aquele que desassocega.

Vê bem.

Já viste o trabalho que dá alimentar esse medo.

Photo from favim

2.3.16

Dor





A dor é um vício que nos constringe e nos mata aos poucos, consumindo e mastigando toda a nossa luz. Cabe aos dolorosos, não baixar os braços e mudar mentalidades.

Mas não e fácil, nem todos têm a mesma força, dirá muito boa gente. Não é força, é mentalidade. 

Mentalizem-se. Metalizem que a dor é a vossa escolha, e que também é da vossa escolha não estarem nesse vício. É doloroso, sim. Mas é muito mais doloroso render-se e deixar-se levar nessa onda de corrosão interior.

Não há nada pior que querer abafar a própria luz. O inferno existe, sim, existe. Somos nós que o reflectimos e transportamos, e o vivemos em cada passo de escolha que damos.

26.2.16

Mais



Quero-te sempre mais,
Mesmo quando te absorvo ininterruptamente.
Totalmente.
Inexplicavelmente.

Somente na acção,
a palavra não se percebe,
sentimento contínuo,
desejado prematuro.

Procuro.
Tu sabes.
Aquilo que é nosso.
Não mais que nosso.
Sempre assim,
nesta continuidade que sempre fomos.
E que agora ainda somos,
e seremos sempre mais do que quisermos,
sempre maiores do que poderemos.
Infinitos, na finidade do tempo.

Finito. Tempo.
Tic, tac, tic, tac.
Infinitos, nem mais.

Photo from favim

15.9.15

Profecia



A sorte que me guarda, não será a tua.
Pois que de tamancos te saltas para a rua.
Eu não me salto, nem para a rua, nem de tamancos.

Fico-me por mim, em mim.
Tu ficas-te por aí, onde calha, por onde te mais valha.

Nada que te faças te trará tamanha salvação,
não a procuras de coração.

Que a Luz te ilumine,
que ela te acorde ainda a tempo,
pois quando ele se terminar,
condenado serás perante teus actos.


31.8.15

Onde



Lá longe na margem do horizonte lembro-te, recordo-te.
Lá longe no horizonte, naquela margem de lembranças pequenas, sem palavras, revejo-te.

Adiante no tempo, não constam sonoridades estranhas, apenas a melodia do teu sorriso.
O compasso do teu abraço apertado, o último, aquele em que tudo ficaria bem, em que tudo estaria como sempre foi.

E não te foste se não que para o meu lado, desse lado da varanda, de onde este horizonte não cabe na memória da carne.

Para onde te foste, levaste-me.

Sei a tua presença, reconheço a tua imagem em qualquer recanto da memória.

Sei de cor cada nota tua. Só não te sei a voz. Essa tua voz que se transformou em melodia de cordas.

Só tu e a tua presença.

Sei que estás. Como prometeste.

26.8.15

Era só teu



Pés descalços,
cabeça erguida
nas ondas, perdida

Cabeça erguida,
pés descalços
sempre a mesma ida

Eras tu com esses olhos
lá ao fundo, no horizonte
Era essa tua força
essa tua fonte

Entre barcas e barquelas,
montanhas de água trespassei,
para nagevar gentilmente
até a ti chegar,
na chávena desta alma,
nos olhos,
no teu olhar

Nesse teu olhar que era só teu,
que me esperava e que me arrumava,
onde só tu me sabias,
onde eu e tu só podiamos ser

Pés rebeldes,
cabeça erguida,
na borda das nossas almas,
onde só tu e eu podiamos ser,
nesse teu olhar que era só teu

5.8.15

Silent Words - Cartas de Amor #27




No silêncio das palavras é onde mais te vejo, é onde mais te conheço. No silêncio delas.

São todas inúteis, mas preciso-as para se me te ligar. Para entrar nessa aura de silêncio exclusiva a nós. 

Palavras de silêncio, são as nossas, as melhores, pois que nelas te reconheço, te encontro e te descubro. 

E é neste silêncio que me reflectes, pois que de ti tudo me é possível.

Contigo basta silêncio. Silêncio e o sentido da tua presença. Da nossa. Do ponto zero.

Porque contigo elas são inúteis. Estas palavras que nos saem, são apenas pequenos acompanhamentos, porque não as precisamos para nos conversarmos.

Porque sem elas nos entendemos melhor, nos vemos melhor, nos sentimos melhor.

E porque é no silêncio das palavras que respiro melhor, que te quero ainda mais.

Silêncio transparente.

Cristalino.

Painting and Title by Duma

15.7.15

A Viagem - Nona - A menina dança

A música apetecia, toda ela lhe reagia. Ele olhava-a, tentando inspirar coragem. Avançou.


A menina dança. Perguntou.


Ela acenou com um sorriso tímido, as bochechas rosadas. E foram os dois. Sentir a música. Deixar que ela os controlasse.


Ele agarrou-a gentilmente, mas com firmeza. Ela nem teve tempo de reagir, já estava de face encostada ao seu peito, quase lhe ouvindo os batimentos cardíacos, apesar do volume a que tocavam a melodia. Fechou os olhos e deixou-se levar naquela viagem. Viagem infinita, quisesse ela que fosse.


Também ele os fechou, os seus olhos.


Oh avô, e depois o que aconteceu.


Bom, depois começamos a ver-nos quase todos os dias. Sempre às escondidas, mas acompanhados, naquela altura, estar junto de uma rapariga sem ela estar acompanhada por alguém mais velho, era uma falta de respeito tremendo.


A sério. Que engraçado.


A Mirinha, que era a dama de companhia dela, estava sempre presente, e ajudava-nos. Até que um dia tive de ganhar coragem e ir pedir autorização para a namorar, e mostrar que era moço sério e que pretendia casamento, naquela altura era o pai quem decidia, e tinha de se fazer um pedido formal e mostrar que era um homem de bem.


Quando tentei falar com o pai dela, fiquei a saber que ela já tinha pretendente, e ainda nem sabia, a pobre. Não pude fazer nada, o pai dela era uma pessoa muito severa, demasiado poderoso. Ameaçou que me matava a mim e à minha família se eu tentasse dizer-lhe, ou se teimasse em encontrar-me com ela.


Então, e o que fez avô.


Não podia por a vida da minha família em risco. Ainda pensei em fugir com ela para bem longe. Naquela época eram normais as viagens para o Brasil, mas se eu fugisse com ela, o resto da minha família continuava a correr perigo, então tive de tomar uma das decisões mais difíceis da minha vida.


Partir sozinho.

25.6.15

Grito

Por um momento,
a Eternidade
Na tua ausência,
fica a saudade
O tempo passa,
fica desfeito

Contra o teu peito, grito a verdade
Na loucura encontro o sentimento
No momento o pensamento

Do fundo do sonho
salta a vontade
de fazer parar o tempo
e guardá-lo com saudade

Do fundo da alma a realidade,
cruel e suspeita,
esmaga a verdade

A vontade de rasgar
A vontade de voar
Por aí...
Ser terra
Ser mar
Tudo que te possa dar

25.5.15

Monólogos Silenciosos



Realidade crua que se me arrepanha a capacidade de entender a dureza do tempo.


Image from Vimeo

21.5.15

Quando se nos morre alguém



O que fazer quando alguém se nos morre sem aviso. O que fazer com aquela vontade incontornável de gritar a essa mesma pessoa que não podia partir, assim, sem mais nem menos. Sem ao menos nos dizer um, Adeus, Até já.

O que fazer com a revolta da sensação de impotência perante a força da vida. A morte. O que fazer para que a sensação de pequenez se vá. O que fazer para calar o vazio que se faz apertar no peito. O que fazer para calar o silêncio que fica da falta de quem se foi.

Morrem-se-nos pessoas num instante. E nós que continuamos por cá, ficamos sem saber o que fazer. Meios sem norte. Porque de repente alguém deixou de se ver. Porque de repente alguém se nos deixou de sorrir...

O que fazer com tudo isso.

Não sei. 

Amanhã é outro dia.

20.5.15

No Silêncio que Cura




Por vezes, uma presença silenciosa é suficiente para curar uma ferida. Ou muitas. Não é preciso mais nada. Presença. Só isso. Saber que está ali. Aquela pessoa. A nossa força. Uma força de silêncio. Na maioria das vezes, bastante mais forte que todas as outras. 

Como tu sabes. Continuo aqui. Do teu lado, no meu silêncio. A observar-te. E em silêncio te vou curando e amparando. Tu sabes, estou aqui. Como sempre estive. Não é preciso falar, pois que das palavras pouco de útil nos sai. Mas no silêncio, no silêncio tudo se diz, tudo se nos transpira. Perfeito.

E continuo aqui. Sim. Continuo aqui, no meu silêncio. A coser, e a fechar essas chagas que teimam em rebentar em sangramentos por tão pequenas coisas. Não te culpes. Tudo está certo. No devido lugar.

Hoje pensaste-me. Tiveste-me saudades. Wish you were here. Tão bonita essa tua chamada por mim. Sabes que te fui abraçar nesse preciso instante. E também sabes que te tenho sempre nos meus braços. Eu, e todos que cá estamos para ti. Em silêncio.

Porque é neste silêncio que permanecemos fiéis, no cumprir deste pacto que fizemos há milénios. 

Estamos todos aqui. No silêncio que te cura. Sempre.

30.4.15

Escolhas



Tens o poder hoje, de mudar essa mágoa que te sangra no peito. Que te dói mesmo quando não a pensas. Tens o poder hoje, de mudar essa tristeza que te perfura em contínuo movimento.

Tens o poder de mudar essa energia. Se quiseres. Não é difícil. Só precisas querer. Pensar que és mais forte que isso que te magoa. E mudar. Mudar. Mudar.

Ela passa. A sério que passa. Essa dor passa. No instante em que disseres, Eu Sou Feliz, Eu Sou Amor.

Não é essa dor que te define. É a tua escolha.

28.4.15

Malidencências

Sob as sombras das palavras,
escondem-se medos,
que se ofuscam com estórias inventadas ao último segundo.
Sob as sombras das meias verdades meias mentiras,
se movem aqueles que nelas se banham e se alimentam.

Palavras levianas, sem conhecimento algum.
Palavras de tristezas profundas,
que tanto se querem refletir fora.

Nas profundezas dessas sombras,
não se sabem,
quem são e o que fazem.

Tão tristes que são, que se preferem nas estórias de outros.
Tão tristes, que se projectam nas vidas de outros.
Vivem as dos outros, na esperança que a deles se altere.

Nesta ânsia de sanar as dores que os corroem,
lançam ácidos pujantes.
Nesta ânsia de parar os sangramentos,
colocam-se em fuga,
na esperança que o veneno seja a sua cura.