22.10.14

Invencíveis - Cartas de Amor #21



Sinto-te tanta falta meu amor. Sinto-te tanta saudade que se me aperta o peito e não respiro. Sobrevivo. 

Sinto-te falta. Fazes-me falta. Faltas-me aqui do meu lado. Falta-me respirar fundo, no fundo do ti. Falta-me nadar nesses olhos serenos. Falta-me a tua calma. A tua lucidez. Sem ela não sou nada além de insanidade perdida. Nada, a não ser tudo o que me faltas.

Sinto-te tanta saudade. Tanta saudade que te sinto, que não se me chega a luz do dia para que acorde. Pois continuo em viagem permanente ao encontro de nós. Ainda nós. Sempre nós. Por todos os dias até à eternidade.

Não será a saudade que me matará. Será a tua ausência que me fará perder as forças. As poucas que ainda me sustentam. Pois que da tua presença sabia tudo. Na tua presença podia tudo. Capaz de tudo. Conquistava tudo.

Éramos invencíveis. Éramos invencíveis.

Meu Amor.

15.10.14

Blindness

Oh so blind that I was indeed
So blind that I could not but bleed

With this blindness I blessed my days
Searching for something that could just taste
With this blindness I cursed it all
'cause only with my toutch I could see
how I was about to fall
for those who do not know
for those who can not feel
So this is it, so this is it

Oh so blind that I was indeed
So blind that I could not but bleed

Silêncios - Cartas de Amor #20




Hoje sobram-me silêncios. Faltam-me palavras. Tantas que te queria dizer. E ficam-se por aqui engasgadas na garganta. Entaladas. A meio caminho. Escondidas no silêncio. Nos silêncios. Os que me sobram. Sobram-me. Abundam-me estes silêncios.

Hoje não se constroem. Palavras. Nada me sai a não ser este silêncio.

Hoje sobram-me promessas de te contar contos. Sobram-se por aí, sem que as consiga controlar. 

Sobram-me monólogos incessantes. Silenciosos. Intermináveis.

Hoje não te falo. Olho-te. Isso é o bastante para que te diga tudo. O suficiente para que te ouça.

Silêncio. É o que me sobra. E não há som que o preencha para que te fale.

Mas não nos afastará este silêncio. Pois que no silêncio se contam as mais belas histórias. As que não se podem contar de nenhuma outra forma. Porque palavras seriam demasiadas para as dizer. As histórias.

Já os sentimentos. Esses não precisam de mais nada que não este silêncio que me sobra. Será ele. O silêncio. O melhor meio condutor deles. Os sentimentos.

Hoje sobram-me silêncios. O suficiente para que te fale sem dizer com a boca.

O suficiente para sentir a tua mão na minha.

E isso basta para que no silêncio nos oiçamos.

14.10.14

A verdade esquece-se



No fundo, toda a verdade se esquece.
Restam apenas escombros de sentimentos.
Uns mais fortes que outros.
Mas escombros.
Sempre.

Meras sombras. Sombras das luzes que já projectaram.

No fundo toda a verdade se esfumaça.
Restam apenas impressões.
As mesmas que marcarão conclusões incongruentes.
Qual história esqucida, por tradição contada.
Alterada.

No fundo. Apenas a saudade permanece.
Na memória como que um sonho,
com vontade de repetir-se. Reviver-se.

8.10.14

Paciência




Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é tempo
Que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo
Pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não

Será que é tempo
Que lhe falta pra percebe?
Será que temos esse tempo
Pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não

A vida não para

Composição: Lenine

3.10.14

A força das palavras

Terão as palavras força quando são ditas. Ou estará toda a força contida na intensão de as dizer. Força e palavras. Ditas. Ou por dizer, é mais assim.

Haverá por aí alguma relação entre elas. Falta saber onde se ligam, e onde se conduzem, para que uma possa justificar a outra. Ou melhor, para que uma possa conter a outra. Por qual ordem, falta saber.

Palavras. Ou apenas pseudo palavras balbuciadas, como que numa algaraviada desentendida, sem grande significado. Daí a dúvida. Qual a força. Onde a força. Na palavra. Na intensão de a dizer. Talvez esteja mais na intensão mesma. De as dizer. 

As palavras. Na intensão de as conversar. De as levar na direcção de alguém que esteja disposto a recebê-las. Nas conversas. Recebê-las nas conversas. Profundas ou apenas casuais. Mas assumo, com alguma presunção creio, que nas conversas profundas, se estabelecerá talvez a maior força delas. Das palavras. Que é delas que falo. Com elas.

Ah monólogo incessante. Um tanto ao quanto louco até. Pescadinha de rabo na boca. Dirão alguns. Sexo dos anjos. Dirão outros. 

Mas quebrar-se-ia todo o encanto de dizer palavras, e de as carregar com a força de uma intenção. Poderia dizer, Olá. Apenas. Mas essa simples palavra poderia dizer muito mais que apenas o som que a transporta. Poderia dizer o que ela se diz. Ou poderia dizer mais, carregando dentro dela a ansiedade de um, Pensava que não te voltava a ver. E nisto, a intensão tem de tudo, a maior força. Sim, lá está a força presente. Mas nada seria da força, se não fosse a intensão de a dizer. 

A palavra, neste caso.

1.10.14

Voyeur





Estavas ali. A luz do candeeiro de rua iluminava-te. Quase como que numa denuncia anónima, acusava a tua presença. 

Fumavas calmamente. E eu observava-te de longe, enquanto encostavas mais uma vez nesses lábios carnudos, a cigarrilha. Sim. Porque tu só fumas cigarrilhas. Eu sei. Eu reparo em tudo sabes. Tudo o que é de ti eu guardo na memória.

Lá fora, a rua continuava deserta. E tu, debaixo daquela luz. Parecia que esperavas alguém, mas não. Estavas. Só. Sempre gostaste de estar assim. Sozinha na noite.

Queria aproximar-me. Mas não queria quebrar aquela visão de ti tão deslumbrante. Era capaz de ficar horas assim, apenas  a observar-te debaixo dessa luz.

E o silêncio. E o resto de toda a noite continuava negra.

Apenas tu.

A cigarrilha.

E a luz do candeeiro.

29.9.14

A Viagem - Sétima



Meu Amor,

Não te poderia dizer estas palavras pessoalmente, sei que nunca concordarias comigo, mas os conselheiros disseram que seria melhor assim. Ainda os interroguei sobre o livre arbítrio, mas eles responderam que tudo está certo, que  tudo seria e correria como era esperado, e que o nosso plano seguiria em frente, a única alteração seria o tempo.

Não nos vamos encontrar nesta vida meu amor, dói-me muito, mas teremos de passar por outras coisas primeiro. Serão mil vidas,, meu amor, mil anos, mil vidas sem ti. Os conselheiros explicaram que para que aquilo que planeamos desse certo, teríamos de passar por outras experiências primeiro, se não seria muito complicado tudo dar certo como planeamos, certo que também te reuniste com eles, mas já sabes que os desígnios de Deus têm sempre os seus mistérios, e sabes sempre que tudo acontece por uma razão, e eu também sei que não irias aceitar tudo isto de bom grado… mas é necessário…

Não nos vamos esquecer totalmente de quem somos, de nós, dar-nos-ão esse presente. Durante o sono saberemos, e vamos lembrar-nos um do outro, para que o nosso amor permaneça forte, como sempre foi. E durante o dia, teremos sempre a serenidade de saber e sentir que somos amados.

Não passará um único dia que não te ame, não passará um único dia em que não caminhe na tua direcção. E o tempo, o tempo será apenas um pormenor na nossa história. Temos todo o tempo do mundo para nós. Todo o tempo para crescermos e continuarmos a nossa caminhada.

Tenho a certeza que tudo correrá bem, está tudo certo meu amor… está tudo certo.

Procurarei por ti, até ao dia em que me voltares a abraçar, nesse dia saberemos, nesse dia teremos a certeza de que somos nós, e que o nosso tempo chegou finalmente.

Amo-te, por todos os dias até à eternidade.

Sempre tua.

Madalena

Teodoro, oh meu caro Teodoro. Agora entendo a tua angústia, não te preocupes, terás todo o tempo do mundo para viveres com a tua Madalena. Este tempo será apenas mais uma prova, das muitas que já passaram. Todo este tempo só vai fortalecer o vosso elo, por muito contrário que pareça. Não temas meu caro amigo, não temas, estará tudo certo.

Teodoro já não ouvia o seu amigo. Estava já em início da fase de condensação, já faltava pouco para chegarem ao ponto de encontro, lá aconteceriam as últimas fases até o processo de entrada estar concluído. Madalena tinha dito a António que lesse a carta depois de Teodoro se esquecer, para poder dar-lhe o apoio necessário na fase final que, por norma, costuma ser a mais crítica.

Enquanto isso, Teodoro sonhava, contorcendo-se e chamando por Madalena… o curador que os acompanhava explicava o que estava a acontecer.

António, estamos a programar o sonho que o ajudará a permanecer em ligação com Madalena, durante este tempo ele chamará muito por ela, mas será normal. Depois de fazer a entrada, só voltará a ter este mesmo sonho no momento planeado. Até lá vão os dois esquecer-se, embora permaneçam ligados. Será mais eficaz assim…


Lena… Meu Amor…

25.9.14

Preciso Mentir Que Te Amo




Preciso mentir que te amo
Te dizer baixinho no ouvido
Te abraçar e fazer de conta
Que nesse amor não duvido

Preciso mentir que te amo
Os teus ombros... à frente
Esquecer que o amor que preciso
É cobarde, é valente.

Acordar de manhã
E fazer um café p'rá você
Abraçar-te com cuidado
E depois adormecer-te no meu porto

Dizer que só a teu lado
É onde não durmo sozinho
Olha me mostra o caminho
Pois ri que me amas

Preciso agora de um bem
Pode ser que amanha eu me esqueça
E a olhar da janela de um trém
Um novo amor me apareça

Acordar de manhã
E fazer um café p'rá você
Abraçar-te com cuidado
E depois adormecer-te no meu porto

Preciso mentir que te amo
Te dizer baixinho no ouvido
Te abraçar e fazer de conta
Que nesse amor não duvido

Eu preciso agora de um bem
Pode ser que amanha eu me esqueça
E a olhar da janela de um trém
Um novo amor me apareça

Acordar de manhã
E fazer um café p'rá você
Abraçar-te com cuidado
E depois adormecer-te no meu porto

Letra - Pierre Aderne
Música - Jorge Palma

24.9.14

Six Word Sotry

With you, I want it all.

Always In My Head









I think of you
I haven't slept
I think I do
But, I don't forget
My body moves
Goes where I will
But though I try my heart stays still
It never moves
Just won't be led

And so my mouth waters, to be fed
And you're always in my head

You're always in my head
You're always in my head
You're always in my head

You're always in my head
Always in my...
Always in my...

This, I guess, is to tell you you're chosen out from the rest...

Song by Coldplay

16.9.14

Realidade - Cartas de Amor #19

De dentro desta serenidade, reconheço-te. Amo-te profundamente, e aparentemente, não te tenho.

Amar é deixar partir, sem ir atrás. O amor que nos une é mais que uma mera distância, essa, a mera distância, é apenas um pequeno pormenor. Não será nem a distância, nem o tempo que nos falhará.

E sim, não tenho medo de dizer que te amo, e vou dizê-lo as vezes que o sentir a estalar-me de dentro do peito, as vezes que se expandir e me levar até ti. Mesmo que não o ouças. Mesmo que não o saibas. Ou penses que não o sabes. Porque tu sabes. Sabes bem a força do que nos une. Melhor do que eu até. Muito mais lucidamente que eu, sim.

Por isso não me dói, não te ter. Não és meu. Não sou tua.

Sabemo-nos. Pertencemo-nos.

Não será diferente do que tiver que ser.

A vida encarregar-se-á de o fazer acontecer.


Madalena

11.9.14

A qualquer instante

Pressinto o respirar da tua consciência.
Sinto cada toque do teu pensamento,
cá dentro,
onde estás.

Viajo para o nosso tempo,
e respiro a magia que me trás,
eu sei…
a qualquer instante voltarás.

10.9.14

A Viagem - Sexta

Silêncio. Silêncio suave. Era deste silêncio que Teodoro gostava. Uma imensidão de paz e silêncio.

Bater de asas, ouvia apenas isso. Voava agora nas costas de um dragão alado. Sorria. Sentia-se em paz. Era livre. Madalena voava ao lado dele, as suas asas brancas brilhantes eram gigantescas, faziam-na parecer um anjo. Ela sorria também. E do seu sorriso podia ler-se um, Amo-te. Tranquilo e sereno. Voaram sobre vales e montes, lagos tão calmos que eram espelhos autênticos. Neles viram todas as vidas. Todos os momentos em que se conheceram pela primeira vez. Todos os sorrisos. Todas as lágrimas. Todos os abraços. Todos os Amo-te.

De repente, Teodoro começou a cair, o dragão desaparecera. Madalena voava na sua direcção de braços estendidos, tentava agarrar-lhe as mãos. Pareciam tão próximas e ao mesmo tempo tão difíceis de alcançar…

Teo. Agarra as minhas mãos. Teo. Meu amor. Olha para cima. Agarra as minhas mãos.

Mas Teodoro não reagia. Parecia ter perdido a consciência. E Madalena batia as suas asas com toda a força que tinha, na esperança de conseguir amparar o seu amor.

TEO. TEO. AGARRA…

Calma Lena, foi só um sonho querida.

Madrinha. Que sonho mais estranho. Ele estava a voar em cima de um dragão, e depois eu tinha umas asas brancas gigantes. Mas ele começou a cair, e eu não o conseguia agarrar…

Calma, respira fundo. Foi só um sonho. Estás ansiosa com toda a viagem, é normal que tenhas esse tipo de sonhos. Principalmente depois das alterações que fizeram aos vossos planos.

Madrinha, tenho medo de não conseguir. Vou esquecer-me. Como vou aguentar isso. Será que fiz bem em aceitar este plano…

O vosso amor é mais forte que tudo. Nunca nos é dado nada que exceda as nossas capacidades. E só te vais esquecer através do corpo. O resto permanecerá intacto. E tenho a certeza que ele te vai amparar minha querida. E para além disso, vou interceder por vós, para que possam ter alguns momentos de lucidez pelo caminho. Assim terão mais garantias que tudo corre como planeado.

Sim. Ele nunca me abandonou. Mesmo quando pensava que estava desamparada e sozinha. Ele esteve sempre do meu lado. Nunca foram precisas explicações para o nosso amor. Era apenas estar lá. Do lado.

Vês. Acabaste de te responder. Ele ama-te. Não tenhas receio de nada. Ele não te vai abandonar. Vai ficar do teu lado como sempre esteve. E agora vamos preparar-nos. Temos algum tempo de caminho até chegarmos ao centro de apoio. Temos algum trabalho a fazer por lá. Enquanto descansavas recebi a mensagem de que necessitam da nossa ajuda.

Ainda bem. Pelo menos vou ficar um pouco aliviada desta ansiedade. 

Pelo caminho, Madalena pensava em Teodoro. Colocou as mãos sobre o coração e com toda a sua força enviou-lhe o seu amor, para que a sua entrada fosse o mais suave possível. Em simultâneo enviava-lhe pensamentos…

Até à eternidade Meu Amor… até à eternidade. Esta vai ser apenas mais uma etapa. Amo-te.

4.9.14

Ausência - Cartas de Amor #18

Não te sinto ausência. Pois ouço-te no teu silêncio. Não te sinto longe. Carrego-te. Dentro.

Por quantas palavras viajamos até que nos tocássemos. E agora. Não importa mais. Já nos temos. Já nos somos. Não é preciso mais caminhar. Nem preciso é, olhar para longe na esperança de te encontrar. Estás aqui do meu lado. Isso me basta. Não são precisas sílabas que se juntem, nem som que se comunique com elas. Basta sentir-te assim. Como agora.  E tudo está certo.

No lugar. No lugar onde deveria estar. Tudo. Ordenadamente correcto. Dentro de toda a harmonia exacta, dentro deste caos de loucura que nos embala.

Sabes-me. Sei-te. Tens-me. Tenho-te.

Agora. E sempre.


28.8.14

Serena



Gosto de te ver, pele ao sol,
salgado corpo que te moves
Areia morna
pés molhados

Gosto quando choves em mim
e de mim fazes o que idealizas

Gosto de te ver, pele morena
gosto de te ter para mim
Arrepia no toque da água fresca
delícia...
serena...

Drawing by Duma

27.8.14

Certezas - Cartas de Amor #17



Procurei-te por tantas vidas. Procurei-te desde que nasci. Procurei-te em todas as pessoas que se me cruzaram na vida. Na esperança de que fosses tu. Procurei-te. Por entre medos e dores. Esperanças escondidas.

Vai aparecer, não desistas de procurar. Esta voz. Não se calou nunca.

Procurei-te sempre. Todos os dias. Na certeza de que um dia te revelarias, mais perto. Muito perto.

Vou continuar a caminhar na tua direcção. Sei onde me esperas.

Tudo o que quisemos que fosse. Será. No exacto ponto do tempo e do espaço.

Vou continuar a caminhar na tua direcção. Na certeza que te encontrarei no lugar que marcamos. Na certeza de que quando nos abraçarmos, não haverá mais dúvidas. Nada. Ninguém. Nem mesmo os astros do universo nos tirarão essa certeza.

Por quantos olhares mergulhei em apneia, na esperança de te saber. Por quantas peles cheirei, na esperança de te reconhecer. Quantas histórias contei para mim, nas certeza de que serias tu.

Caminharei para ti. Sempre.

Meu Amor.

Image from Pinterest

26.8.14

Six Word Story

There was hope. It was beginning.

A Viagem - Quinta




Uma dor forte no peito. Aquela dor. Um aperto. Doía-lhe todo ser.

Madrinha. Ele já sabe.

Madalena, minha querida. Já sabias que ia ser doloroso. Não podias fazer nada.

Sim, eu sei. Ele vai ficar tão magoado comigo.

Não estava sob teu poder decidires isso. Os conselheiros disseram que se ele soubesse antes de inicar a viagem, vocês não entrariam. Como combinamos com o António, ele só lhe daria a carta depois de inicar o processo de esquecimento, assim ele não terá qualquer hipótese de recuar. Tem fé.

Ele não vai aceitar...

Enquanto Madalena tentava aquietar a dor que sentia, entre alguma culpa por não poder ter contado a Teodoro o que se passara na reunião com os conselheiros…

Nãããããoooo. Como. Eu não aceito isto. Não pode.

Calma. Já sabes que ás vezes os planos mudam.

Não desta forma. Não quero entrar. Vamos voltar para trás. Quero ver a Madalena. Ela não podia aceitar isto.

Não podes voltar atrás agora. Primeiro. Se formos agora para trás, vamos apanhar os seres desprovidos de luz, e não queremo isso pois não. Há caminhos que não se podem fazer de volta. Depois de dares entrada, faremos um caminho de retorno diferente, temos algumas missões a cumprir para que não se desperdice a disponibilidade das pessoas deste grupo.

Mas eu não posso aceit....

Seguuundooo.O teu processo de esquecimento já foi iniciado. Já recebeste dois ciclos de passes para que o processo se desenvolvesse convenientemente. Não podes quebrar isso agora. Ser-te-ia extremamente prejudicial. E para além disso, há muita gente envolvida neste projecto. Tens pessoas à tua espera. Preparadas para a tua entrada. Entrada essa, que também faz parte dos planos delas. Não podes largar tudo e todos assim. Já sabes como é que funciona.

António. Como é que isto pode acontecer. Onde está o livre arbítrio. Nós temos uma palavra a dizer sobre isto. Eu, tenho uma palavra a dizer sobre isto. Agora entendo todo aquele nervosismo. Era normal ficarmos agitados antes destas viagens, mas ela estava diferente. Agora é que percebi.

Teodoro, acalma-te amigo. Bebe esta água. Vai-te fazer bem. Está magnetisada.

Teodoro bebeu a água, um tanto ao quanto contrariado. Acalmou-se. Acabou por adormecer, enquanto o curador se preparava para mais um ciclo de passes. Da próxima vez que acordasse, já não se lembraria da carta que lera, as suas lembranças começariam a ficar turvas, e a sua energia começaria a adensar-se para que ficasse pronto. Os Lobos já tinham tudo pronto para continuarem com o transporte, quando ele perdesse a consciência por completo.

Madrinha, tenho algum receio que a minha carta vá prejudicar o processo de esquecimento.

Não te preocupes Lena. Está tudo como devia estar. Está tudo no devido lugar.

Espero que sim madrinha, espero que sim.

25.8.14

Sinto



Sinto
que em minhas veias arde
sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paixões no coração.

Mulheres, por favor,
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.


Federico García Lorca, in 'Poemas Esparsos' 
Tradução de Oscar Mendes

22.8.14

Quero - Cartas de Amor #16



Quero beijar-te lentamente. Fechar os olhos e respirar-te. Sentir o teu peito encostado no meu. Calar no teu calor toda a saudade.

Matar e desfazer os fios de tempo, para que nos colemos um no outro e nos transformemos num só. 

Quero beijar-te docemente. Fechar os olhos e saborear-te. Sentir nos dedos o recorte do teu rosto. Calar esta ansiedade de te ter longe. Transformar o tempo em recanto nosso.

Quero beijar-te loucamente. Incendiar-nos até que nos tenhamos somente assim.

Quero arrepiar-me-te. Suavemente sentir todo o amor que nos trouxe até hoje.

Quero embarcar na loucura que ninguém entende. Nesta loucura de nos amarmos sem que ninguém saiba ou compreenda. Ninguém compreende. E não interessa que compreenda. É nosso. Só nosso. Este amor que não se explica. Este amor que nos explode do peito. Que nos puxa um para o outro.

Não interessa que ninguém entenda. Não interessa não. Porque palavras, para nós não são precisas. 

Sabemo-nos. E é o bastante para que nos amemos. 

Todos os dias, até à eternidade.

Meu Amor.

Image from giphy

21.8.14

Há dias assim



Há dias assim. Em que se acorda e se fica a vaguear nos pensamentos. Há dias em que se abre os olhos e se entra no sonho. Dias em que a realidade é mais forte enquanto se estava a dormir.

Há dias em que o coração se sobressalta quando a luz do dia entra pela janela do quarto. Há dias em que a escuridão do sono é bem mais confortável. Estável era ficar lá. Nos sonhos.

Há dias em que o vaguear de zombies se torna insuportável. Em que caminhar por entre estes rebanhos cinzentos se torna arrepiante. Revoltante.

Há dias em que os olhos teimam em fechar. Para lá voltar. Até onde me deixei. Dias em que só há vontade de acordar para a outra realidade. Aquela que nos sabemos verdadeira.

E nestes dias, não vale fazer de conta. Porque nestes dias o azul do céu não há. O verde do campo só está do outro lado da consciência. E nestes dias é melhor sermos como somos. Nestes e em todos os outros, temos de ser como somos. Mas nunca o somos. É. Paradoxo interessante, este de andarmos sempre a tentar parecer aquilo que não somos. Só porque todos os outros acham que devem ser o que não são. Para que aqueles que não se interessam pensem que são aquilo que não são.

Há dias assim. Cheios de insanidades. Pensamentos dissonantes. Passeios pela mente. Monólogos insessantes..

Sim. Há dias assim. Em que ninguém te vê. Embora te mostres como és. Ninguém te quer ver. Porque esperam que te mostres como não és. Para que no conforto do confronto, seja de fácil justificação, e dizerem apenas, Ah, é uma pessoa diferente.

Uma pessoa diferente.

Há dias assim. Em que ninguém me compreende.

Em que sou igual a toda a gente.

20.8.14

Preciso-te - Cartas de Amor #15




Preciso-te. Tanto que te preciso, que se me dói o corpo. Todo ele se me dói.

Preciso de te cheirar. Preciso de sentir o quente do teu abraço, e entranhar-me em ti. Sob todos os poros da tua pele transformar-me. Ser-me-te. Sermo-nos. Apenas nós. Mais nada.

Preciso-te. Preciso de saber que estou dentro de ti. Como te trago.

Preciso do teu olhar no meu. Nadar dentro deles. Nos teus olhos. Nesse oceano calmo. Mergulhar e deixar-me afogar. Deixar-me embarcar nestas lembranças. Doces lembranças.

Preciso-te. Tanto que te preciso. Muito. Tanto que a cada batida do meu coração, uma gota de sangue te lembra longe.

Preciso-te para continuar. Para respirar. Para poder olhar o horizonte. Sem ter de nele te procurar.

Preciso-te meu Amor. Preciso-te. Tanto. Tanto.

Não demores a voltar.

A Viagem - Quarta






Ela sorria. E para ele, aquele sorriso era como um farol aceso, iluminando tudo ao seu redor, inclusive ele. Sorria também.

Estás preparado.

Sim.

O seu coração batia a uma velocidade estonteante. Estou preparado. Eu sei que sim. Pensou.

Vai correr tudo bem, Meu Amor.

A sua voz ficou a fazer eco dentro do peito. Sentia-se feliz. Imensamente feliz. Ela esticou a mão. Ele esticou a dele na sua direcção…

Ah.

Acordou sobressaltado. Sentiu saudades. Uma profunda saudade quebrava-lhe no peito.

Teodoro. Desculpa acordar-te, mas temos de partir. Os Lobos já confirmaram que já podemos seguir viagem, e temos de sair agora, assim não nos atrasamos para a tua entrada.

Ah, que bom António, ainda bem. Eu já estava acordado.

Teodoro. Sabes que vai começar o teu processo de esquecimento. Vais ter de ter muita força. A partir de agora e até chegares ao ponto de encontro vais sofrer um pouco. Já sabes como funciona.

Sim, sei. É a fase que menos gosto, mas faz parte não é. Vamos a isso.

Ora assim é que se fala meu amigo. Os Lobos já estão prontos para continuarmos o caminho. Também já temos o transporte para quando começares a perder a noção do que te rodeia. Quando chegarmos vais estar no estado perfeito para fazeres a entrada. Quando acordares já estarás do outro lado. Está tudo preparado. Temos um curador conosco que vai iniciar o processo com os passes, e depois vai acompanhar-nos até à tua entrada, podes estar tranquilo, estás bem acompanhado.

Sim. tenho a certeza que vai tudo correr como planeamos, não tenho dúvidas.

Onde estarás tu, meu amor. Pensou. Madalena não lhe saía do coração, mesmo em sonhos. Era sempre difícil separarem-se. Era como que uma pequena morte, lenta e dolorosa. Até ao momento em que se reencontravam. Desta vez ele pediu permissão para que não se esquecesse totalmente, ela não sabia, não podia saber, se não o plano não resultaria. Sabia que iria tê-la sempre por perto, nem que fosse apenas durante o sono, mas ele estaria sempre do lado dela, mesmo sem que ela percebesse. Sabia que ela iria senti-lo. Tinha essa certeza, e isso deixava-o mais descansado.

Vai valer a pena, Madalena. Vai valer a pena.

13.8.14

A Viagem - Terceira




O vosso projecto é ambicioso.

Tinha de ser. É um plano um tanto ao quanto complexo, mas temos tudo preparado para que resulte.

E ela, estava ansiosa com a tua partida, deu para sentir do portão, quando saíste.

Sim. Ela costuma vir sempre na frente. É a primeira vez que faço este caminho. E como é um caminho mais difícil, ela ficou nervosa.

Ela vai fazer o caminho do  costume. 

Sim.

Vais ver que quando voltarem, vão estar ainda mais limpos. Gostava de ter a coragem de fazer essas escolhas.

Oh meu caro amigo, podes sempre faze-las, para a tua evolução.

Ah sim, claro que posso, mas é preciso uma boa dose de coragem. Eu não sei se conseguiria tanto de uma só vida.

António, os Lobos deram o alerta. Temos de desviar para o abrigo, e tem de ser agora, se não vamos ser apanhados.

Os guardiões que se encontravam mais à frente, voltaram para trás, António e Teodoro estavam mais reservados para poderem conversar. Teodoro ficou agitado. O guardião parecia preocupado.

Que se passa. 

Perguntou.

Vamos para o abrigo, logo veremos o que os Lobos nos dizem. Ainda temos tempo.

A longe no horizonte, via-se uma mancha negra. Aproximava-se rapidamente, como uma tempestade. Teodoro pensava em Madalena. Pelo menos o caminho dela era menos perigoso. Isso tranquilizava-o.

Desviaram do caminho principal, escoltados pelos Lobos seguiram rapidamente. De repente, pelo meio da vegetação apareceu uma espécie fortaleza de pedra. Não tinha tamanho definido, ele só lhe via os dois grandes portões que se abriram mal se aproximaram.

Assim que os portões fecharam, os Lobos comunicaram.

Vêm a caminho seres desprovidos de luz, não nos podemos cruzar com eles, seria demasiado nocivo para todos, principalmente para ti Teodoro, que é a primeira vez que passas por este lado e ainda não tens força suficiente para te protegeres. Mesmo para nós que temos experiência seria perigoso.

Vai demorar muito tempo.

Não te conseguimos dizer. Pode ser rápido. Mas também pode demorar muito tempo. Estas criaturas são imprevisíveis. Lamentamos muito dizer-te, mas não sabemos se te conseguimos deixar no ponto de encontro, a tempo de dar certo a tua entrada.

A Lena tinha razão… Se eu não entro ela vai ter uma passagem sozinha. Era o que eu menos queria…

Que foi Madalena.

Não sei. Tive um pressentimento. Um aperto no peito. Espero que a viagem do Teo esteja a correr bem.

Não te preocupes querida, isso é tudo ansiedade, vais ver que ele vai chegar ao ponto de encontro conforme está planeado.

Espero que sim madrinha, espero que sim…

Image from movie "Nosso Lar"

Kyo Dake Wa - Cartas de Amor #14



Só por hoje.

Só por hoje vamos abandonar a realidade. Só por hoje vamos deixar que as nossa almas se reconheçam e se reencontrem.

Só por hoje vamos abandonar o tempo e deixar que o espaço seja o que sempre foi. O nosso.

Porque só tu sabes o quanto te amo. Só eu sei o quanto me amas. Só. Apenas nós.

É este o nosso segredo. Saber que nos amamos. Sem tempo. Sem espaço. Sem amarras. Sem preconceitos. Somos livres em nós. Somos livres no nosso amor. É este o nosso alimento. É esta a nossa cura.

Só por hoje vamos deixar que as memórias nos venham relembrar dos tempos ancestrais em que nos amamos felizes. Só por hoje vamos trazer essa felicidade de novo a nós. Vamos respirá-la, reinventá-la, transformá-la. 

Só por hoje vamos ser Vida.

Só por hoje vamos anular tudo e vamos apenas ser o que somos. O que fomos, e o que seremos sempre.

Amo-te todos os dias até à eternidade. Meu Amor.

11.8.14

A Viagem - Segunda




Estás pronta Lena.

Sim.

Então é agora. Vamos.

Estou outra vez com aquela sensação sabes.

Não fiques, já sabes como é que isto funciona. Não podes estar com pensamentos negativos. Lembra-te, atrais aquilo que pensas. E aqui tens a vantagem de te poderes preparar de modo consciente para o que vais viver. Prepara-te para que o teu subconsciente seja forte durante a tua estadia. Limpa tudo muito bem, e deixa terreno fértil preparado e bem protegido, para quando o voltares a encontrar. Assim garantes que esse cantinho do teu coração ficará intacto até que te cruzes com ele, e não haverá perigo de falharem o que decidiram.

Sim , tens razão. Ás vezes fico a pensar como é que ele estará. Se a viagem com os guardiões está a correr bem.

Não temas. Já sabes que é sempre um pouco atribulada. Mas corre sempre bem. E para além disso, desta vez os Lobos estão com eles. Qualquer coisa que seja preciso eles actuam primeiro, sentem muito antes que nós.

Sim, é verdade. Os nossos guardiões chegaram, olha. Já estão no portão. Vamos então.

Lena, minha querida. Vai ser uma honra fazer esta caminhada contigo, convosco.

A honra será toda minha, madrinha.

Partiram.

7.8.14

A Viagem - Primeira




É agora. Tenho medo. Isto é tão assustador. Abraça-me.

É preciso. Já sabes o plano direitinho, não sabes.

De trás para a frente.

Pronto, então tudo certo. Não fiques com essa cara, se não é mais difícil. Tem de ser assim desta vez, já analisamos isto, lembras-te. Agora já não podemos voltar atrás. Eu vou na frente. Depois tu também desces. É logo a seguir.

Eu sei meu amor. Eu sei. Mas ainda vai demorar até nos cruzarmos. E se acontece alguma coisa. Basta uma coisa. Uma pequenina coisa.

Não tenhas medo. Já sabes como isto funciona. Já não é a primeira vez que o fazemos. Tudo está perfeitamente sincronizado. Não tenho dúvidas de que te vou reconhecer.

Então e se eu não te reconhecer.

Ah. Não te preocupes. Achas mesmo que eu me vou conter quando te vir. Ainda não dei um passo na direcção oposta de ti, e já te sinto tantas saudades. No dia em que os meus olhos cruzarem os teus, vou ter a certeza, e não vou descansar enquanto não te acordar. Está tudo certo meu amor. Vai parecer tudo muito doido. Mas tenho a certeza que vais acordar. Acordaste sempre. Confia.

Confio… Faz boa passagem. Encontramo-nos do outro lado. Meu Amor.

Os guardiões já se encontravam na entrada, à espera, mesmo do lado de fora da cancela. Ela não conseguiu conter as lágrimas. Já o tinham feito vezes sem conta, mas ficava sempre de peito apertado. Ele iria na frente, ao contrário do costume, era necessário que assim fosse desta vez. Ele abraçou-a, respirou fundo e sussurrou-lhe ao ouvido…

Amo-te todos os dias até à eternidade. Meu Amor.

E partiu.

30.7.14

Mil Anos Mil Vidas - Cartas de Amor #13



De dentro da pele nasce aquele aperto que já sabes. Passaram-se mil anos desde que nos amamos. E agora uma hora é mais eterna que todas as vidas que nos separaram.
Preciso daquele abraço. Aquele. Aquele que só tu sabes. Aquele me davas para respirarmos fundo. Aquele fundo. Aquele que só nós conhecíamos. Sabíamos.

Saboreávamo-nos. Naquele nosso sabor. Ainda o sinto na língua. Ainda te cheiro. E as minhas mãos ainda te sabem de cor. 

Sob a pele ainda tenho vestígios das cinzas que o nosso fogo deixou. Sob ela ainda se sente o calor. Sob ela ainda vivem aqueles pedacinhos de ti. Guardados. Religiosamente guardados.

Não te esqueço. Não te esqueci nunca. Nunca. Não te esquecerei jamais. Mais mil poderão vir. Oceanos de tempos e saudades. Que o meu espírito saberá sempre. Sentirá sempre o toque desse teu quente.

Tu. E só tu. Meu Amor.

Madalena.

10.7.14

Palavras - Cartas de Amor #12




Hoje não me apetece escrever. Apetece-me ver-te. As palavras continuam cá,  para ti, não querem escrever-se. Querem cantar-se. Querem sair directamente da minha boca, para o teu ouvido. Querem meus lábios conhecer os teus, para que deles possam beber todas as letras que se guardam para ti. 

Hoje não quero dizer com os dedos. Hoje quero falar com a língua. Na tua. Sem que para isso precise de as dizer. Palavras.

Palavras. Não as precisamos. Elas já são nossas. Na fusão das nossas energias elas já nos pertencem.

No reconhecimento de séculos vividos, entre tantas e tantas melodias. A nossa. Inconfundível. Apenas ela exprime a força que nos transforma no que somos hoje.

Assim. Hoje. Somos assim. E não importa o amanhã. Porque saberei que o seremos. Como sempre fomos.

Basta apenas um olhar, um sorriso e um abraço. E será toda a verdade docemente relembrada, sempre nossa.

Para sempre nossa.

Como sempre foi.

Photo from Wikimedia

9.7.14

Chega de Saudade




Vai, minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade, a realidade
É que sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza, e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços
Hão de ser milhões de abraços apertado assim
Colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De viver longe de mim
Não quero mais esse negócio
De você viver assim
Vamos deixar desse negócio
De você viver sem mim

Composição: António Carlos Jobim

7.7.14

Crime da Felicidade




Como pudeste tu cometer o crime da felicidade quando todos estão na lama. 
Nesta lama de destino e saudade. 
Saudade de um tempo que ainda não aconteceu.
De um tempo que já lá vai,
longe demais.


Como pudeste tu cometer este crime e sorrires, 
quando os que te olham só têm água que lhes saia dos olhos.
Como podes tu sentires-te feliz,
que atrocidade.
Não há cidade que te recolha
tamanho é o teu crime.

Photography: Peter Herbert

1.7.14

Não se explica - Cartas de Amor #11





Subscrevo as palavras que disseste. Nem uma vírgula mais. Nem um ponto final menos. Que por menor capacidade de expressão não o saberia dizer melhor do que o fizeste.

O que me deste. E agora trago. É teu. Ainda. Deste-mo, é certo, mas tu vieste com ele para dentro do meu. E agora tento explicar aquilo que não tem descrição. Como posso eu exteriorizar isto que não tem forma nem volume. Que não há maneira de agarrar, embora seja mais sólido que todos os sólidos mais densos.

Era isto que procurava sabes. Era disto que muitas vezes te falava. Não, não falava. Não há forma de falar sobre isto. Esta, esta, esta coisa que se sente e não se sente. Que prende e ao mesmo tempo liberta. Isto que não tem explicação.

Era por isto que te queria. Por este pedacinho de sentimento que não se descreve, e no entanto faz toda a diferença. Diferença de te querer sempre e para sempre do meu lado.

Aqui.

Eternamente.

Drawing by  Duma

26.6.14

Paredes



Não entendo
não me contento em ver-te
quero ter-te
quero perder-me em ti
e em tudo que seja teu

quero saborear
esse sal que trazes nos lábios
Essa loucura controlada
quero desamarra-la
derrubar esse muro que nos separa
condensar-nos no interior duma muralha

25.6.14

Just




I don’t know where I belong
Just wanna stay here, let me be
Be like no one
stay like nothing more

Today I don’t know myself
just don’t know where my soul is
Let me be here
let me stay
Just

Say nothing
feel nothing
be nothing

I hope
this pain to pass away
I hope
that fast
ends this day

nothing more
nothing less
just let me be
let me be
just

23.6.14

Guarda-me



Gaurda-me dentro desses afectos
para que nunca mais te falte.
Deseja-me ardentemente
para que o fogo não se apague.
Respira-me intensamente
para que o ar não falte
e o peito não te aperte.

Seria hoje que me perderia em ti
nada feito
deste jeito não voltará o tempo
esse que ficou suspenso
naquele beijo
naquele olhar

Naquela varanda sobre o mar
pôr do sol morno
sentimento de retorno

Não posso deixar
que este sol se apague
por mais que a noite venha
e a lua se apodere do céu

Não deixarei que este luar
ilumine menos que o sol
que se deitou sobre o mar.

Painting by Duma

Ouvi o texto muito ao longe




Ouvi o texto muito ao longe
era o teu corpo na demanda
não me parecia escrito hoje
mas hoje quis tarefa branda
a de curar a ferida ao sol
no claro-escuro da varanda.

E só depois
para já depois, ao certo
mas fiz ao corpo teu por perto
ouvindo o texto muito ao longe
escrevinhando o sol bate hoje
cartas de amor como o sol manda
vermelho caixa aço pintado
destinatário demasiado
na virtual ida ao deserto.
Escrevi ao corpo teu por perto
na quente pelo como o sol manda
real regresso do deserto
a tua pele muito ao de longe
era o meu texto na demanda
não me parecia escrito hoje.

Ouvi o texto muito ao longe
não me parecia escrito hoje.

Letra Sérgio Godinho
Voz Camané

20.6.14

Agora



Sabes que me assustas quando olhas com essa profundidade em mim. Não há nada que me assuste mais. 

Porque é nesse momento que me prendes para sempre. É nesse momento que me tens eterno.

Assusta-me a luz com que ficas depois de fazermos amor. Também eu a sinto dentro de mim. Levo sempre um pedaço dela quando me vou. Assusta-me isso. Assusta-me como ficas impregnada nas minhas narinas, como a marca do teu corpo se permanece nas palmas das minhas mãos. Assusta-me como te ficas debaixo da pele.

E mais ainda. Assusta-me como me prendes sem que me amarres. Sou livre mas eternamente teu escravo. Farias de mim aquilo que quisesses. Ainda fazes se o disseres. 

Assusta-me ainda mais agora. Agora que acordo e te sinto falta. Agora que abro os olhos na esperança de te ver ao meu lado. Agora que me deito na esperança de me cruzar contigo algures fora deste espaço. Agora que não durmo. Agora que as noites são demasiado longas, depois daquela, demasiado curta. 

Agora que a vida se faz demasiado longe de ti.

Agora que te perdi.

Photo from HuffingtonPost

Poema dos olhos da amada




Oh, minha amada
Que os olhos teus

São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus

Ah, minha amada
De olhos ateus

Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus

Composição: Paulo Soledade / Vinícius de Moraes
Versão: António Zambujo

18.6.14

Evenin' - Cartas de Amor #10



Sentes. É este calor que quero que te lembres quando não estiver dentro de ti. Fica mais um pouco. Sente. Sente até não conseguires entender mais nada, e seres apenas o que sentes. Sente até que esse tremor te tome por completo. Sim, perde o controlo, todo.

Treme nos meus braços. Baloiça nestas lembranças.

Dá-me a tua mão. Fecha os olhos.

Deixa-me imprimir na memória do teu tacto, a forma do meu corpo. Sentes. Não deixes que as tuas mãos se esqueçam.

Deixa-me sentir-te. Deixa que as minhas mãos naveguem nesse teu mar ondulante. Deixa que elas percorram todo e cada pedaço da tua pele.

Agora respira. Não te esqueças. Este é o nosso cheiro. O cheiro do sexo. O cheiro do nós. O que somos está nessa essência. Não te esqueças.

Sente. Guarda esse arrepio que a minha língua te provoca. Guardo eu o sabor da tua boca.

E agora adormece. Deixa que te embale. Para que nos possamos permanecer eternos.

Não tenhas medo. Vou estar sempre aqui, do teu lado. Serei o teu guardião alado.


Prometo. Não deixarei o teu coração destroçado.

Six Word Story

Then the world was not enough.

Sede


Hoje acordei com sede. Sede de nós, quando nos encontrávamos às escondidas, para que não nos julgassem, para que não nos acusassem daquilo que nós éramos.

Acordei com o corpo dormente. Passado tanto tempo ainda te ressaco, ressaca que faz doer o corpo, mas ainda mais a alma. A dor da alma é a pior de todas.

Continua a custar respirar, como se tivesse fumado 50 cigarros de uma vez. O peito ainda se me aperta. E neste aperto é que acordei. Nos lençóis ensopados naquilo que foi o nosso encontro.

Hoje acordei recortada, com a falta do teu corpo no meu, com a marca detalhada das tuas mãos em cada centímetro de pele por onde passaram.

Que faço com isto. E agora, que faço eu com isto. Mastigo. Engulo. Cuspo. Regurgito.

Retorno. Devolvo-te. Entrego-te isto que me deixaste, não quero nem preciso.

Fica, podes voltar a precisar de a usar. Esta droga não se esgota, estás à vontade. Eu é que não a quero mais, já bebi o suficiente. Já tive a pedra suficiente para que me baste.

Vou-me. A reabilitação está concluída. Porque a sede com que me acordaste, já não existe mais.

Matei-a para sempre.
Image from Pinterest

17.6.14

Misunderstandings




“I shall look at you out of the corner of my eye, and you will say nothing. Words are the source of misunderstandings." -from the Fox-”
Antoine de Saint-Exupéry, The Little Prince

5.6.14

O Mundo Pode Acabar Amanhã





Ela tinha a cabeça às voltas, não conseguia pensar, não dava para organizar os pensamentos, sentia-se como se estivesse no meio de uma tempestade, tudo vinha ao mesmo tempo e nada fazia sentido, aquela sensação de euforia misturada com uma apatia descontrolada, não conseguia reagir.

O que é que estou a fazer, por que caminho me estou a meter, isto vai correr mal... isto vai correr muito mal... E o que é que ele tem na cabeça para me fazer isto. Ele sabe os riscos que corremos. Estou a perder-me. E agora o que é que eu faço com isto.

Ele abraçou-a, ela gelou, não conseguia controlar a respiração, quase entrou em pânico, as pernas tremiam, o coração explodiu de palpitação, mas deixou-se ficar naquele abraço, sabia tão bem estar nos braços dele.
Ele olhou-a nos olhos, com os dedos puchou uma madeixa de cabelo para o lado. Olhou-a novamente e aproximou-se em direcção da sua boca, ela conseguiu desviar a tempo. Abraçaram-se ainda com mais força e ela petrificou por completo, não se mexia nem um milimetro, embora tivesse tremor de terra no peito (mas ele não podia saber).

Chovia. Ficaram debaixo do guarda chuva por momentos, como se o tempo estivesse suspenso, à sua volta as pessoas continuavam a passar apressadas, sem que dessem conta da revolução que acontecia mesmo ali do lado, entre aqueles dois desconhecidos que se abraçavam como se despedissem.

Ela olhou-o com esforço para não chorar.

O mundo pode acabar amanhã. Disse ele novamente tentando beija-la. Ela afastou-o.

Não te quero voltar a ver. E fugiu. Andou horas pela cidade, sozinha, até encontrar um banco. Sentou-se, mesmo no molhado, não se importou, o seu mundo tinha acabado.

Especial



Posso-te.
Tenho-te.
Escrevo-te.
Quero-te.

Por tudo e todas as noites.
Dos dias os luares
adormecidos.
Por tantos e tantos beijos
perdidos.

Especial.

És especial sim.
Não mais do que aquilo que sabemos que somos.
Mas mais do que tudo que sempre sonhei.

Estarei.

Sempre aqui na beira do tempo.
Que em cada momento te recenheço,
de entre nevoeiros espessos.
Em reflexos de tempo estremesso.

Espero-te.

Em cada eternidade que passa.
cada beijo perdido na procura
da nossa casa
doce casa.
No nosso mar eterno
como quem voa numa só asa.