13.2.18

Poema Bandido




poema bandido
poema mendigo
da alma o pecador
que da dor se enebreia
para dela se beber

sente, rasga, canta
quais poetas traz acorrentados

estremece, deita, grita
quais palavras que se derramam para dentro

palavras essas que se dizem
palavras que se falam
que se ficam

e que por mil anos se repetem
levando consigo os condenados
poetas
destiladores das almas
poetas perdidos
de poemas bandidos

Photo from Ashsivils

29.8.17

Poema XIV




Juegas todos los días con la luz del universo.
Sutil visitadora, llegas en la flor y en el agua.
Eres más que esta blanca cabecita que aprieto
como un racimo entre mis manos cada día.
A nadie te pareces desde que yo te amo.
Déjame tenderte entre guirnaldas amarillas.
Quién escribe tu nombre con letras de humo entre las estrellas del sur?
Ah déjame recordarte cómo eras entonces, cuando aún no existías.
De pronto el viento aúlla y golpea mi ventana cerrada.
El cielo es una red cuajada de peces sombríos.
Aquí vienen a dar todos los vientos, todos.
Se desviste la lluvia. 
Pablo Neruda

28.8.17

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!




Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvi-lo já.
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor — muito melhor! —
Do que tu.
Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
Mário Cesariny

21.3.17

A força que as minhas palavras têm




Que força as minhas palavras têm
quando na boca dos outros são ditas
Que força as minhas palavras têm
quando nos peitos dos outros se ouvem sentidas

Que força as minhas palavras têm
quando se me rasgam nas pontas dos dedos
quando em força se entram nos olhos adentro
quando com elas cabeças se acendem

Que força as minhas palavras têm
no poema que se quis nascer
mas que já não se pode fazer
Pois que nas forças dessas palavras se foi
toda a força que delas podia sobreviver.

8.3.17

Mulheres que trazem o mar nos olhos




Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma



SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in OBRA POÉTICA (Ed.Caminho, 2010)

23.9.16

A Viagem - Passado Presente




Oh filha. Há-des cá bir há-des. Debes pensar que fazes muita falta. Beim p'raqui apalpar-me a fruta, sem pedir nem o camándro. Eró que mais faltába. Eu deixo apálpar, mazé com jeitinho e com autorizaçom. Eró que faltába, já agóura.

Eheheh. Oh Mirinha, acalma aí os cabálos mulhére. Ainda àgoura começou o dia. Fuego.

Mirinha. A mulher do bolhão que toda a gente conhece. Grita o pregão como se fosse o último fôlego que desse. Mulher de sangue quente, sempre a ferver. Mirinha é conhecida por ter o pavio curto. Mirinha é conhecida por ter um coração sem tamanho, e mesmo na borda da boca, talvez pela sua dimensão.

Olá meneina. Pensei que não te bia mais filha, que t'aconteceu. Bais lebár alguma coisa, ou bieste só cá dar notícias.

Eda sorriu no seu ar timidamente sereno.

Vim cá fazer as duas, dar notícias e comprar alguma fruta, como de costume.

Oh Édinha, filha, tu côanta-me tudo, anda por aí mouro na cóusta, ao teumpo que não binhas cá. Quem é iêle. Tu côanta-me, 'tas a óbire. Olha que eu sou tua amiga, e não te quero enrolada com um mánfio qualquére.

OHH FREGUIÊSÃAA, BEINHA BIÊRE. É FRUTA DA BOUA. PODE APALPÁRE, MAS COM JEITINHO QUÉ PRA NUM PISÁRE. ÓRA BÊIJA. É RIJINHA. EHEHEHEH. Oupa rapariga, desebucha.

Andei a investigar umas coisas e fiz algumas descobertas.

E atom. Encontraste o que procurábas.

Talvez. Encontrei umas fotos e umas cartas no sotão da avó Lena. Cartas de amor, que supostamente ela trocou com alguém que não consegui perceber quem era.

Atom, debiam ser do teu abuôe num é.

Não. A questão é essa, é que a pessoa assinou sempre com o nome de Teodoro. O meu avô chamava-se José.

Atom se calháre era álgum pretêndênte ántigo, naum.

Impossível. A carta mais recente foi recebida pela minha avó já depois do meu avó ter morrido.

AHAHAHAH. A tua querida àbuó debia sêr frêsca debia. Éla é que a sabia tôada. AHAHAH.

Pois, não sei porque é que ela manteve esta correspondência, mas vou ter que descobrir.

Óilha filha, só te digo é mazé p'ra teres cuidadinho, que andar a escarafunchar no passado nunca dá bom resultado. Já te disse isso da outra bêz. Tu bê lá.

Eu sei Mirinha, mas tenho que descobrir.

Ta beim, quem t'abisa teu amigo é. E já sabes que se precisáres de alguma coisa, é só dizêres. Téim é mazé cuidado. Posso puxar-te as oréilhas, mas estou sempre countigo.

Eu sei. Obrigada.

Prôentos, e atom, que fruta quéres. Umas bananinhas da madéira. olha que 'tom qué uma marabilha.

Sim, pode ser. E algumas maçãs também.

Oquéie, umas maçãs e umas banánas da madéira. OHH FREGUIÊSÃAA, BEINHA BIÊRE.

12.4.16

É só isso




Acordai vós de olhos fechados.
Vós que dormis sossegados.
No quente do conforto do sonho.

É só isso, sonho.

Acordai vós, que vos enrolais nessas mantas.
Vós que em mantas vos deixais ficar.
Nesse ninho de sonho.

É só isso, sonho.

Acordai, acordai.
O vosso povo precisa de vós.
Não vos deixeis cair na nova tentação.
Na tentação do sonho.

É só isso, sonho.

Acordai vós que nas trevas vos abraçais
Não sucumbam à vontade,
a essa degustação.
Nesse sabor de sonho.

É só isso, sonho.

Acordai vós, que mastigais os dias
em que vos deixais ser mastigados,
Nessa mastigação de sonho

É só isso, sonho.

Acordai. Acordai.
Que nem sempre o caos é diferente.
Que nem sempre o alinhado é bom.
Que nem sempre o certo está bem.
Que bem sempre é mau desacomodar.
Acordai desse sonho.

Porque é só isso. Sonho.


Photo by Miki Takahashi

11.4.16

Poesia Sonora


A Bala





Uma bala trespassou-lhe o coração, o sangue escorre, a cada gota a poça aumenta de tamanho. O respirar abranda,  a visão torna-se turva, os pulmões cerram-se... algo de errado aconteceu.

Tornara-se algo amarga, a questão interna residente na sua razão. Não entende como aqui chegou quando tudo estava bem. A sua incumbência era a de se tornar um homem... um Homem..

Não sabe onde parou, onde tudo começou.

Apenas se recorda de escorregar no lamaçal de merda espalhada por todo lado. Escorregadelas de merda...

Ouviu dizer que sim, que estávamos mal. Também ouviu dizer que ia passar depressa.
Não passou, e continuou mal, pior ficou.

E foi caindo no abismo interior que o absorveu por completo.

Os seus pensamentos desapareceram para dar lugar à escuridão. A luz do ser deixou de estar. Passou apenas a circular.

Mecanicamente, todos os dias o fazia, sem pensar..

Foi caindo e caindo..
Até que encontrou o fundo...
Caiu.. e bala entrou...

Mais Alto

Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem

O mundo não conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível!
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
A rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

8.3.16

Canção de Amigo


Ai esses teus olhos, coração.
Que dos meus arrancam tanta emoção
Fazem (re)nascer paixão

Esquecida, tantas vezes perdida
Mas por teus olhos amor,
ela votla,
a emoção

4.3.16

As quadras dele (II)



Digo pra mim quando oiço
O teu lindo riso franco,
"São seus lábios espalhabdo,
As folhas dun lírio branco..."

Perguntei às violetas
Se não tinham coração,
Se o tinham, porque 'scondidas
Na folhagem sempre estão?!

Responderam-me a chorar,
Com voz de quem muito amou:
Sabeis que dor os desfez,
Ou que traição os gelou?

Meu coração, inundado
Pela luz do teu olhar,
Dorme quieto como um lírio,
Banhado pelo luar.

Quando o ouvido vier
Teu amor amortalhar,
Quero a minha triste vida,
Na mesma cova, enterrar.

Eu sei que me tens amor,
Bem o leio no teu olhar,
O amor quando é sentido
Não se pode disfarçar.

Os olhos são indiscretos;
Revelam tudo que sentem,
Podem mentir os teus lábios,
Os olhos, esses, não mentem.

Bendita seja a desgraça,
Bendita a fatalidade,
Bendito sejam teus olhos
Onde anda a minha saudade.

Não há amor neste mundo
Como o que eu sinto por ti,
Que me ofertou a desgraça
No momento em que te vi.

O teu grande amor por mim,
Durou, no teu coração,
O espaço duma manhã,
Como a rosa da canção.

Quando falas, dizem todos:
Tem uma voz que é um encanto
Só falando, faz perder
Todo juízo a um santo.

Enquanto eu longe de ti
Ando, perdida de zelos,
Afogam-se outros olhares
Nas ondas dos teus cabelos.

Dizem-me que te não queira
Que tens, nos olhos, traição.
Ai, ensinem-me a maneira
De dar leis ao coração!

Tanto ódio e tanto amor
Na minha alma contenho;
Mas o ódio inda é maior
Que o doido amor que te tenho.

Odeio teu doce sorriso,
Odeio teu lindo olhar,
E ainda mais a minh'alma
Por tanto e tanto te amar!

Quando o teu olhar infindo
Poisa no meu, quase a medo,
Temo que alguém advinhe
O nosso casto segredo.

Logo minh'alma descansa;
Por saber que nunca alguém
Pode imaginar o fogo
Que o teu frio olhar contém.

Quem na vida tem amores
Não pode viver contente,
É sempre triste o olhar
Daquele que muito sente.

Adivinhar o mistério
Da tua alma quem me dera!
Tens nos olhos o outono,
Nos lábios a primavera...

Enquanto teus lábios cantam
Canções feitas de luar,
Soluça cheio de mágua
O teu misterioso olhar...

Com tanta contradição,
O que é que a tua alma sente?
És alegre como a aurora,
E triste como um poente...

Desabafa no meu peito
Essa amargura tão louca,
Que é tortura nos teus olhos
E riso na tua boca!

Os teus dentes pequeninos
Na tua boca mimosa,
São pedacitos de neve
Dentro de um cálix de rosa.

O lindo azul do céu
E a amargura infinita
Casaram. Deles nasceu
A tua boca bendita!

In livro "Citações e Pensamentos de Florbela Espanca"

3.3.16

Medo de quê



Tens medo de quê. O que é que te impede de viver a pleno. Que pedra é essa no sapato que te faz mancar a cada passo.

Mas que trabalho este. Ter medo de viver. Mais difícil do que a própria acção. A de viver. Essa. Que tantos têm tanto receio de executar. Ser. Estar. Viver. Eis a primordial forma. A maneira.

Mas não. Então não entendes que se eu fizer assim, vai ser difícil, porque se não fosse assim, ia ter de ser de outra maneira, e então era mais complicado. Porque entretanto já se passou o tempo, e eu não fiz o que queria. Não podia desagradar ao que os outros esperavam de mim.

Então e tu. O que esperas de ti. Porquê tanto medo de falhar. Medo de falhar às expectativas dos outros, os de fora. Então e falhar-te a ti mesmo. Não seria essa a principal razão.

Falhas-te a ti mesmo quando alimentas esses medos de falhar aos outros, naquilo que esperam de ti.Falhas-te quando te anulas para os outros te terem, como te esperam.

Diz lá. Entende bem qual é o medo. O Medo. Aquele profundo que te faz estremecer. Aquele que mais trabalho dá. Aquele que desassocega.

Vê bem.

Já viste o trabalho que dá alimentar esse medo.

Photo from favim

2.3.16

Dor





A dor é um vício que nos constringe e nos mata aos poucos, consumindo e mastigando toda a nossa luz. Cabe aos dolorosos, não baixar os braços e mudar mentalidades.

Mas não e fácil, nem todos têm a mesma força, dirá muito boa gente. Não é força, é mentalidade. 

Mentalizem-se. Metalizem que a dor é a vossa escolha, e que também é da vossa escolha não estarem nesse vício. É doloroso, sim. Mas é muito mais doloroso render-se e deixar-se levar nessa onda de corrosão interior.

Não há nada pior que querer abafar a própria luz. O inferno existe, sim, existe. Somos nós que o reflectimos e transportamos, e o vivemos em cada passo de escolha que damos.

26.2.16

Mais



Quero-te sempre mais,
Mesmo quando te absorvo ininterruptamente.
Totalmente.
Inexplicavelmente.

Somente na acção,
a palavra não se percebe,
sentimento contínuo,
desejado prematuro.

Procuro.
Tu sabes.
Aquilo que é nosso.
Não mais que nosso.
Sempre assim,
nesta continuidade que sempre fomos.
E que agora ainda somos,
e seremos sempre mais do que quisermos,
sempre maiores do que poderemos.
Infinitos, na finidade do tempo.

Finito. Tempo.
Tic, tac, tic, tac.
Infinitos, nem mais.

Photo from favim

15.9.15

Profecia



A sorte que me guarda, não será a tua.
Pois que de tamancos te saltas para a rua.
Eu não me salto, nem para a rua, nem de tamancos.

Fico-me por mim, em mim.
Tu ficas-te por aí, onde calha, por onde te mais valha.

Nada que te faças te trará tamanha salvação,
não a procuras de coração.

Que a Luz te ilumine,
que ela te acorde ainda a tempo,
pois quando ele se terminar,
condenado serás perante teus actos.


31.8.15

Onde



Lá longe na margem do horizonte lembro-te, recordo-te.
Lá longe no horizonte, naquela margem de lembranças pequenas, sem palavras, revejo-te.

Adiante no tempo, não constam sonoridades estranhas, apenas a melodia do teu sorriso.
O compasso do teu abraço apertado, o último, aquele em que tudo ficaria bem, em que tudo estaria como sempre foi.

E não te foste se não que para o meu lado, desse lado da varanda, de onde este horizonte não cabe na memória da carne.

Para onde te foste, levaste-me.

Sei a tua presença, reconheço a tua imagem em qualquer recanto da memória.

Sei de cor cada nota tua. Só não te sei a voz. Essa tua voz que se transformou em melodia de cordas.

Só tu e a tua presença.

Sei que estás. Como prometeste.

26.8.15

Era só teu



Pés descalços,
cabeça erguida
nas ondas, perdida

Cabeça erguida,
pés descalços
sempre a mesma ida

Eras tu com esses olhos
lá ao fundo, no horizonte
Era essa tua força
essa tua fonte

Entre barcas e barquelas,
montanhas de água trespassei,
para nagevar gentilmente
até a ti chegar,
na chávena desta alma,
nos olhos,
no teu olhar

Nesse teu olhar que era só teu,
que me esperava e que me arrumava,
onde só tu me sabias,
onde eu e tu só podiamos ser

Pés rebeldes,
cabeça erguida,
na borda das nossas almas,
onde só tu e eu podiamos ser,
nesse teu olhar que era só teu

5.8.15

Silent Words - Cartas de Amor #27




No silêncio das palavras é onde mais te vejo, é onde mais te conheço. No silêncio delas.

São todas inúteis, mas preciso-as para se me te ligar. Para entrar nessa aura de silêncio exclusiva a nós. 

Palavras de silêncio, são as nossas, as melhores, pois que nelas te reconheço, te encontro e te descubro. 

E é neste silêncio que me reflectes, pois que de ti tudo me é possível.

Contigo basta silêncio. Silêncio e o sentido da tua presença. Da nossa. Do ponto zero.

Porque contigo elas são inúteis. Estas palavras que nos saem, são apenas pequenos acompanhamentos, porque não as precisamos para nos conversarmos.

Porque sem elas nos entendemos melhor, nos vemos melhor, nos sentimos melhor.

E porque é no silêncio das palavras que respiro melhor, que te quero ainda mais.

Silêncio transparente.

Cristalino.

Painting and Title by Duma

15.7.15

A Viagem - Nona - A menina dança

A música apetecia, toda ela lhe reagia. Ele olhava-a, tentando inspirar coragem. Avançou.


A menina dança. Perguntou.


Ela acenou com um sorriso tímido, as bochechas rosadas. E foram os dois. Sentir a música. Deixar que ela os controlasse.


Ele agarrou-a gentilmente, mas com firmeza. Ela nem teve tempo de reagir, já estava de face encostada ao seu peito, quase lhe ouvindo os batimentos cardíacos, apesar do volume a que tocavam a melodia. Fechou os olhos e deixou-se levar naquela viagem. Viagem infinita, quisesse ela que fosse.


Também ele os fechou, os seus olhos.


Oh avô, e depois o que aconteceu.


Bom, depois começamos a ver-nos quase todos os dias. Sempre às escondidas, mas acompanhados, naquela altura, estar junto de uma rapariga sem ela estar acompanhada por alguém mais velho, era uma falta de respeito tremendo.


A sério. Que engraçado.


A Mirinha, que era a dama de companhia dela, estava sempre presente, e ajudava-nos. Até que um dia tive de ganhar coragem e ir pedir autorização para a namorar, e mostrar que era moço sério e que pretendia casamento, naquela altura era o pai quem decidia, e tinha de se fazer um pedido formal e mostrar que era um homem de bem.


Quando tentei falar com o pai dela, fiquei a saber que ela já tinha pretendente, e ainda nem sabia, a pobre. Não pude fazer nada, o pai dela era uma pessoa muito severa, demasiado poderoso. Ameaçou que me matava a mim e à minha família se eu tentasse dizer-lhe, ou se teimasse em encontrar-me com ela.


Então, e o que fez avô.


Não podia por a vida da minha família em risco. Ainda pensei em fugir com ela para bem longe. Naquela época eram normais as viagens para o Brasil, mas se eu fugisse com ela, o resto da minha família continuava a correr perigo, então tive de tomar uma das decisões mais difíceis da minha vida.


Partir sozinho.